Bradsaúde mantém cautela, mas vê estabilidade da sinistralidade em 12 meses
Após balanço neutro, companhia rebate preocupação do mercado e reforça leitura de longo prazo sobre os custos assistenciais

A Bradsaúde (SAUD3) minimizou nesta terça-feira, 4, as preocupações do mercado com o avanço da sinistralidade no 2° trimestre de 2026 e defendeu que a análise do indicador deve considerar um horizonte mais longo, e não apenas a comparação entre trimestres. Segundo o CEO da companhia, Carlos Marinelli, o comportamento dos custos assistenciais é influenciado por fatores sazonais, o que torna mais relevante observar a trajetória dos últimos 12 meses.
A sinalização veio um dia após a divulgação do balanço do 2° trimestre, quando analistas do Itaú BBA e do Safra classificaram os resultados como amplamente neutros, mas apontaram a taxa de sinistralidade de saúde (MLR) de 86,2%, alta de 1,5 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano passado, como um dos principais pontos de atenção para o segundo semestre.
A sinistralidade é o termômetro central das operadoras de saúde porque mede quanto da receita é consumido pelos custos assistenciais, como consultas, exames e internações. Na prática, esse indicador define o quanto sobra de margem.
Questionado sobre o tema durante coletiva com jornalistas, Marinelli afirmou que a companhia mantém a mesma postura adotada no 1° trimestre, quando a queda da sinistralidade também foi tratada com cautela.
"Vamos lembrar que no primeiro trimestre, quando a gente tinha uma variação negativa da sinistralidade e todo mundo focou também na questão da sinistralidade do trimestre, falamos em cautela. E nós ontinuamos com cautela, porque sinistralidade é uma coisa que você tem que ter cautela o tempo todo", afirmou.
Segundo o executivo, analisar apenas um trimestre pode levar a interpretações equivocadas sobre a tendência do negócio."A saúde tem um consumo que apresenta variações sazonais. Por isso que a gente sempre vê 12 meses, porque, quando eu estou olhando os últimos 12 meses, estou pegando toda a sazonalidade desse consumo, dessa frequência e do custo médio. O que a gente vê é uma relativa estabilidade", disse. "Por isso que é importante não olhar só para o segundo trimestre, mas para o semestre e para os últimos 12 meses".
No balanço, a sinistralidade consolidada da Bradsaúde acumulada em 12 meses atingiu 83,3% ao final de junho de 2026. O resultado representa uma melhora de 1 ponto percentual em relação aos 84,3% registrados no mesmo período do ano anterior.
O diretor financeiro, Vinicius Cruz, reforçou que a companhia segue confiante na sustentabilidade da operação, mesmo diante da alta da sinistralidade no trimestre.
"Da mesma forma que a gente chamou atenção para a cautela no primeiro trimestre, quando ela foi 1,4 ponto percentual melhor do que o período anterior, da mesma forma essa estabilidade é a forma como a gente enxerga o comportamento do nosso portfólio", afirmou. Segundo ele, o crescimento da base de clientes e a disciplina na subscrição sustentam a dinâmica de expansão da companhia.
Na mesma linha, o diretor de Relações com Investidores, José Pacheco, afirmou que uma análise de prazo mais longo mostra uma mudança estrutural na operação.
"Se colocarmos numa perspectiva mais longa, dá para perceber um novo patamar na sinistralidade da BradSaúde como um todo. A companhia sai daquele patamar mais próximo de 90% observado em 2022 e 2023 para um nível médio próximo de 80%. Isso vem de esforço em tecnologia, de um novo mix de produtos e de ganhos operacionais e tecnológicos", disse.
O discurso da administração repete a mensagem transmitida após os resultados do primeiro trimestre. Na ocasião, apesar da melhora da sinistralidade, Marinelli já havia alertado que o indicador exigia cautela ao longo de 2026, justamente por ser afetado pela sazonalidade do setor e por fatores como férias, Carnaval e postergação de procedimentos médicos.
Bancos veem resultados do Bradsaúde como neutros e apontam piora da sinistralidade
No segundo trimestre, a Bradsaúde registrou lucro líquido de R$ 1,11 bilhão, alta de 24,9% em relação ao mesmo período do ano passado. No acumulado do primeiro semestre, o lucro chegou a R$ 2,42 bilhões, avanço de 27,6%.
A receita líquida somou R$ 13,87 bilhões entre abril e junho, crescimento de 10,8% na comparação anual, enquanto o resultado operacional avançou 17%, para R$ 1,51 bilhão. Os sinistros retidos cresceram 13,5%, alcançando R$ 11,54 bilhões.
Na operação de saúde, a sinistralidade atingiu 86,2% no trimestre, alta de 1,5 ponto percentual em relação ao segundo trimestre de 2025, refletindo um crescimento dos custos assistenciais superior ao avanço dos prêmios.
Para o Itaú BBA, os resultados foram neutros, embora os números operacionais tenham ficado ligeiramente abaixo das expectativas. Segundo o banco, a piora da sinistralidade de saúde e o crescimento ainda modesto do tíquete médio concentraram as principais dúvidas dos investidores, especialmente sobre o comportamento do indicador no segundo semestre.Ainda assim, o banco destacou que um resultado financeiro mais forte e amelhora da Atlântica Hospitais fizeram com que o lucro líquido reportado superasse em cerca de 3% suas estimativas. O Itaú BBA manteve recomendação outperform (equivalente à compra) para a companhia e afirmou que o trimestre não altera materialmente sua tese de investimento.
O Safra também classificou o desempenho como amplamente neutro e em linha com as expectativas do mercado. O banco destacou como pontos positivos o crescimento de 25% do lucro líquido, a forte expansão da base de beneficiários, o avanço do resultado financeiro e a redução de outras despesas operacionais.
Por outro lado, o Safra apontou a sinistralidade de saúde de 86,2% como um ponto de monitoramento para o segundo semestre de 2026, além do crescimento considerado modesto do tíquete médio. Apesar disso, ressaltou que a comparação do primeiro semestre permanece praticamente estável, reforçando uma leitura mais consistente da operação no longo prazo.
