Brasil bate recorde de inadimplência em 2026 entre famílias, empresas e governo
Taxa no crédito livre chega ao maior patamar em 15 anos, recuperações judiciais avançam no varejo e dívida pública atinge 81,9% do PIB sob juros elevados

O avanço do endividamento e da inadimplência atingiu patamares recordes no Brasil, tanto no setor público quanto nas famílias e corporações de diversos segmentos. O cenário reflete o ambiente macroeconômico de juros elevados, incertezas fiscais e aperto nas condições de crédito no país.
No setor público, a dívida bruta alcançou 81,93% do PIB em junho. A desconfiança de investidores em relação à trajetória fiscal levou o Tesouro Nacional a alterar o Plano Anual de Financiamento (PAF) para ampliar a emissão de títulos atrelados à taxa Selic, diante da menor demanda por papéis prefixados e indexados à inflação.
Entre as famílias, segundo dados divulgados pelo Banco Central, a taxa de inadimplência no crédito livre para pessoas físicas atingiu 7,8%, o maior nível da série histórica iniciada em março de 2011. No segmento do crédito consignado privado, o indicador alcançou a marca inédita de 10%.
O avanço das contas em atraso ocorre mesmo em um cenário de mercado de trabalho aquecido, com a taxa de desocupação apurada pelo IBGE em 5,3% no trimestre encerrado em julho. Economistas alertam que uma eventual deterioração do emprego pode agravar a capacidade de pagamento das famílias.
Empresas também lutam contra o endividamento
O Ministério da Fazenda atribui o endividamento familiar a fatores estruturais, como a expansão do acesso a produtos de crédito de alto custo por meio de fintechs e o impacto financeiro das apostas online na renda disponível. Como resposta, a pasta destaca medidas como programas de renegociação de débitos e a ampliação da isenção do Imposto de Renda.
No setor privado, 9,1 milhões de empresas estavam inadimplentes em junho, somando R$ 232,9 bilhões em dívidas atrasadas, segundo a Serasa Experian. O volume representa uma média de 7,3 contas em atraso por CNPJ, com débito médio de R$ 25.508,96.
Grandes grupos econômicos — como Braskem, Casas Bahia, Habib’s, Marabraz e Alliança Saúde — recorreram a processos de recuperação judicial para reestruturar obrigações com credores. Levantamento da Convexa Investimentos aponta que o estoque de dívida de curto prazo das companhias abertas aumentou R$ 50 bilhões nos primeiros seis meses do ano, saltando de R$ 289 bilhões em 2025 para R$ 339 bilhões em junho de 2026.
A Fazenda avalia que a alavancagem das empresas se arrasta desde o período pós-pandemia, impulsionada pela recomposição de fluxo de caixa e pelos ciclos de restrição monetária.
O ministério prevê que a dinâmica de crescimento da dívida pública e os custos de financiamento comecem a arrefecer a partir de 2027, impulsionados pelo retorno de superávits primários e pela redução das taxas de juros.
Por que o Brasil está tão endividado?
A expansão do endividamento no Brasil decorre de uma engrenagem em que o desequilíbrio das contas do Estado impacta diretamente a capacidade de pagamento das famílias. A dívida pública se expande porque o governo federal mantém gastos superiores à arrecadação em impostos, e gera déficits primários recorrentes.
Esse ciclo de despesas públicas elevadas exige a manutenção de juros altos para conter pressões inflacionárias, o que eleva o custo de rolagem da própria dívida do Estado — a segunda de maior crescimento no G20, atrás apenas da China, com projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) de atingir 100% do PIB até 2027.
O quadro é agravado pelo volume de concessões de benefícios e renúncias tributárias e pela baixa poupança interna.
Na ponta consumidora, embora a taxa de desocupação do trabalho permaneça em níveis historicamente baixos (5,3% no trimestre encerrado em julho), o endividamento das famílias se mantém próximo de patamares recordes. O orçamento familiar é pressionado por um custo de vida elevado — sobretudo com alimentação e moradia — e pelo encarecimento das modalidades de crédito rotativo e financiamentos, frequentemente utilizados como complementação de renda.
