Brasil corre risco de recessão em 2027? Veja o que dizem economistas e os sinais da economia
Juros elevados, piora das expectativas e aumento da inadimplência acendem alerta para 2027; economistas veem risco de recessão, mas projeções ainda apontam crescimento do PIB

O risco de uma recessão no Brasil em 2027 aumentou nas avaliações de economistas e instituições financeiras diante da desaceleração da atividade econômica, dos juros elevados e da piora das expectativas para as contas públicas.
O cenário ganhou força após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cuja condução da política fiscal no próximo mandato levanta dúvidas de investidores.
Apesar do alerta, a recessão ainda não é o cenário base do mercado. Segundo o relatório Focus, divulgado pelo Banco Central em 3 de novembro, a projeção mediana de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2027 passou de 1,31% para 1,20%. A expectativa, portanto, continua sendo de expansão da economia, embora em ritmo mais fraco.
Os indicadores recentes ajudam a explicar a preocupação. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, mas o consumo das famílias caiu 0,4% no período, segundo o IBGE. Em setembro, a produção industrial recuou 0,8%. Já os índices de gerentes de compras, conhecidos pela sigla PMI, apontaram retração da atividade industrial e dos serviços em outubro.
A perda de dinamismo ocorre enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom) mantém a taxa Selic em 13,75% ao ano. A interrupção do ciclo de cortes dos juros, em novembro, reforçou as dúvidas sobre a capacidade de recuperação da economia em 2027.
Para economistas ouvidos pela EXAME, o principal risco é a combinação de uma economia já enfraquecida com a necessidade de manter os juros elevados por mais tempo para conter a inflação e a desvalorização do real com a falta de sinalização da política fiscal durante o Lula 4.
O que dizem economistas sobre o risco de recessão em 2027?
O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, avalia que o cenário econômico piorou após a eleição, com a deterioração das expectativas para inflação, câmbio e juros.
Segundo ele, antes da mudança das expectativas, havia espaço para o Banco Central continuar reduzindo a Selic. A reação dos mercados, porém, tornou esse movimento mais difícil e aumentou a possibilidade de a política monetária permanecer restritiva em 2027.
"Essa piora nas expectativas, um juro que não cede, uma inflação que permanece elevada, um câmbio que deprecia", afirma Vale, ao listar os fatores que podem aprofundar a desaceleração.
O economista destaca que o país já apresenta sinais de perda de ritmo e que os consumidores chegam ao próximo ano com elevado comprometimento da renda e problemas de inadimplência. "Projeto 1% de crescimento no ano que vem, mas está caminhando para ser menos do que isso", diz.
Na avaliação de Vale, a ausência de medidas fiscais concretas pode agravar a piora das expectativas e abrir espaço para uma recessão em 2027.
O economista-chefe da Genial Investimentos, José Camargo, também considera elevado o risco de contração econômica caso o governo mantenha a orientação fiscal do mandato anterior.
Camargo explica que o aumento da percepção de risco sobre a dívida pública tende a elevar as taxas de juros exigidas pelos investidores. Esse movimento pode pressionar o câmbio, alimentar a inflação e exigir uma resposta mais restritiva do Banco Central.
O resultado seria um impacto adicional sobre consumo, crédito e investimentos.
"Eu acho que existe uma grande probabilidade, se o presidente Lula repetir o mandato dos últimos quatro anos, de a gente caminhar para uma recessão", afirma.
Segundo Camargo, a economia já apresenta indicadores compatíveis com uma desaceleração mais intensa. A Genial projeta uma queda de 0,2% do PIB no terceiro trimestre de 2026 e estabilidade no quarto trimestre, segundo o cenário apresentado pelo economista na entrevista.
Ele ressalta que uma eventual sequência de dois trimestres de queda do PIB — situação frequentemente chamada de recessão técnica — não seria, isoladamente, o aspecto mais preocupante.
O risco maior, em sua avaliação, seria uma contração mais forte e duradoura da produção, com consequências para o emprego e a renda.
Redução da demanda por crédito
A preocupação com 2027 também aparece nas avaliações dos próprios bancos.
O presidente-executivo do Itaú Unibanco, Milton Maluhy, afirmou, durante teleconferência de resultados, que as perspectivas econômicas para opróximo ano se deterioraram. "Quando a gente olha o cenário de 2027, as condições econômicas são piores", diz.
Maluhy citou as revisões das projeções para o PIB, a possibilidade de aumento do desemprego e a perspectiva de juros restritivos por um período mais prolongado.
Segundo ele, as famílias já apresentam um comprometimento elevado da renda, enquanto as empresas precisam refinanciar dívidas em condições mais caras.
O executivo afirmou ainda que a incerteza econômica já tem provocado redução da demanda por crédito, especialmente entre grandes companhias, que passaram a adiar investimentos e a buscar empréstimos com prazos mais curtos.
Embora reconheça os riscos, Maluhy considera que o Itaú está preparado para atravessar um cenário adverso, devido à diversificação da carteira de crédito, à disciplina na concessão de empréstimos e ao volume de provisões destinado a eventuais perdas.
A cautela também aparece entre gestores de investimentos.
Marcus Codeceira, integrante da equipe de gestão de fundos estruturados da Yards Asset, afirma que a gestora ainda avalia os desdobramentos do cenário político e econômico antes de estabelecer uma perspectiva definitiva sobre uma eventual recessão.
"Juros elevados são um problema, porque o crédito mais caro reduz investimentos, consumo e a expansão das empresas", afirma.
Além do custo do crédito, Codeceira destaca o aumento das recuperações judiciais, especialmente entre companhias mais endividadas, como um dos fatores de preocupação. Segundo ele, esse movimento já afeta o setor do agronegócio e aumenta a cautela dos credores.
Diante das incertezas, Marconi Maciel, diretor de operações da Yards Asset, afirmou que a gestora tem priorizado decisões táticas de investimento, com maior exposição a ativos considerados seguros, incluindo títulos do Tesouro Nacional, enquanto avalia estratégias de médio e longo prazo.
Safra revisa perspectivas para bancos com risco maior de recessão
A preocupação com a economia também se refletiu nas recomendações do Safra para o setor bancário.
Em relatório sobre os bancos brasileiros, a instituição passou a adotar premissas mais conservadoras para os lucros e taxas de desconto mais elevadas diante do maior risco de recessão em 2027.
O Safra avalia que as instituições financeiras enfrentam um ambiente de crédito mais difícil, marcado por demanda enfraquecida, aumento dos riscos de inadimplência e menor capacidade de compensar possíveis perdas com receitas.
Outro ponto de atenção é o vencimento dos períodos de carência de empréstimos concedidos a pequenas e médias empresas com garantias governamentais, que pode exigir maior volume de provisões dos bancos.
Diante desse cenário, o Safra rebaixou as recomendações para Itaú, Bradesco e Banco do Brasil e reduziu os preços-alvo das três instituições.O Itaú passou a ter recomendação neutra, com preço-alvo reduzido de R$ 51 para R$ 47. O Bradesco também foi rebaixado para Neutro, com preço-alvo de R$ 22 para R$ 17.
Já o Banco do Brasil passou para recomendação de Desempenho Abaixo da Média, com preço-alvo reduzido de R$ 26 para R$ 19.
O Safra manteve a recomendação de Desempenho Acima da Média para o Nubank, embora tenha reduzido seu preço-alvo de US$ 19 para US$ 15.
A instituição destaca que uma recessão mais profunda, a deterioração da qualidade dos ativos e mudanças regulatórias estão entre os principais riscos negativos para suas avaliações.
A revisão das recomendações não significa que o banco considere inevitável uma recessão em 2027, mas mostra que a possibilidade de contração econômica passou a ter maior peso nas projeções para o setor financeiro.
Por que a política fiscal será decisiva para a economia em 2027?
A evolução das contas públicas aparece como uma das principais variáveis capazes de determinar se a economia brasileira terá apenas um período de crescimento mais fraco ou uma contração mais intensa em 2027.
Os economistas entrevistados apontam que a percepção dos investidores sobre a capacidade do governo de estabilizar a dívida pública influencia diretamente o comportamento do câmbio e das taxas de juros de longo prazo.
Para José Camargo, a recuperação da credibilidade fiscal depende não apenas do anúncio de metas, mas de medidas concretas que convençam os investidores de que serão efetivamente cumpridas.
O economista avalia que a ausência de um plano considerado crível pode manter a pressão sobre o mercado financeiro e dificultar a redução dos juros.
Sergio Vale também defende a necessidade de um ajuste fiscal mais amplo, mas destaca as dificuldades políticas para implementar medidas que afetem despesas obrigatórias, benefícios e diferentes parcelas da população.
Segundo ele, um eventual ajuste precisaria envolver não apenas o Ministério da Fazenda, mas o conjunto do governo.
O desafio está no contraste entre a expectativa de parte do mercado por um ajuste fiscal estrutural e as sinalizações feitas por Lula durante a campanha eleitoral, na qual não houve compromisso com um programa amplo de cortes de despesas.
O presidente tem defendido o crescimento econômico como elemento importante para o equilíbrio das contas públicas. Os economistas entrevistados, por outro lado, avaliam que a expansão da atividade, isoladamente, pode não ser suficiente para estabilizar a trajetória da dívida.
A orientação econômica do novo mandato, portanto, será uma das variáveis acompanhadas por investidores e analistas para avaliar o comportamento das expectativas de inflação, câmbio e juros.
A trajetória do PIB no segundo semestre de 2026, as condições do crédito, a inflação e as primeiras medidas econômicas do novo mandato serão os principais indicadores para avaliar se a desaceleração poderá se transformar em recessão em 2027.
