InvestMercados
06/06/2026
5 min
Brasil cresce, inflação estoura e Selic trava: o diagnóstico da Fitch para 2026

O Brasil figura entre as poucas economias emergentes com revisão positiva de crescimento no relatório Global Economic Outlook de junho da Fitch Ratings, divulgado em 4 de junho. A agência elevou a projeção de expansão do PIB brasileiro para 2,1% em 2026, ante 1,9% estimados em março, citando surpresas positivas nos dados de atividade e um mercado de trabalho aquecido. O desempenho do país destoa da tendência global. No mesmo relatório, a Fitch cortou as previsões de crescimento para 16 das 21 economias analisadas. O pano de fundo é o cenário-base adotado pela agência, que incorpora uma guerra entre EUA e Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz — evento que, nas projeções da Fitch, já dura 14 semanas e pressiona os preços globais do petróleo. Com base nesse cenário, o crescimento mundial foi revisado de 2,6% para 2,4% em 2026.
PIB e consumo
O ponto de partida para a revisão positiva do Brasil é o desempenho do primeiro trimestre. O PIB cresceu 1,1% no período, ante apenas 0,3% no trimestre anterior. A expansão foi impulsionada por um mercado de trabalho historicamente forte, pelo dinamismo dos setores agropecuário e extrativista e por uma forte recuperação da formação bruta de capital fixo, que avançou 3,5%. A Fitch projeta que o baixo desemprego e os ganhos reais de salário continuem sustentando o consumo das famílias ao longo do ano. A agência também cita a reforma do imposto de renda aprovada em 2025, que reduziu a carga tributária sobre famílias de menor renda, com maior propensão a consumir, como fator de suporte à demanda. Para 2027, a agência projeta desaceleração do crescimento para 1,7%, reflexo de um impulso fiscal e quase-fiscal menor do que o observado em 2026.Inflação estoura o teto da meta
O ambiente externo traz pressões. A inflação brasileira acelerou para 4,4% em abril, ante 4,1% em março, impactada pelo choque global de energia projetado no cenário da Fitch. Embora os ajustes nos preços dos combustíveis tenham sido modestos no país, outras categorias, como alimentos, foram afetadas. O indicador antecipado IPCA-15 de maio apontou nova aceleração, para 4,6%. A Fitch projeta que o IPCA encerre 2026 em 5%, rompendo o teto da banda de tolerância da meta, fixada em 3% com margem de 1,5 ponto percentual. Para 2027, a estimativa da agência é de recuo para 4%. Separadamente, o relatório registra que as expectativas de inflação do mercado também subiram, para 5% em 2026, 4% em 2027 e 3,7% em 2028. A agência aponta riscos de alta para suas projeções de 2026, citando o fenômeno El Niño, incertezas sobre eventuais reajustes de combustíveis e a persistência da inflação de serviços, reflexo do mercado de trabalho aquecido. O próprio governo federal já revisou para cima sua projeção para o IPCA em 2026, de 3,7% para 4,5%.Selic mais alta por mais tempo
Diante do quadro inflacionário, a Fitch revisou para cima a trajetória esperada para a Selic. O Banco Central iniciou o ciclo de cortes em março de 2026, com uma redução de 25 pontos-base, seguida de outro corte de igual magnitude em abril, levando a taxa para 14,5% ao ano. A agência avalia que o ritmo de afrouxamento monetário será mais lento do que o previsto anteriormente. A Selic deve encerrar 2026 em 13% ao ano, um ponto percentual acima dos 12% projetados em março. Para 2027, a expectativa é de novos cortes, com a taxa chegando a 10,5% ao final do período. A projeção da Fitch converge com a do Goldman Sachs, que também projeta a Selic em 13% no fim de 2026. A revisão reflete pressões inflacionárias provenientes do mercado de trabalho aquecido, dos riscos geopolíticos incorporados ao cenário-base e das incertezas domésticas relacionadas ao calendário eleitoral de outubro de 2026. O Bank of America, por sua vez, passou a projetar que o corte de junho será o último do ciclo em 2026, com a Selic encerrando o ano em 14,25%.Real se beneficia do diferencial de juros, mas eleições pesam
O real se valorizou de forma significativa em 2026, beneficiado pela fraqueza do dólar americano e pelo elevado diferencial de juros em relação à taxa dos Fed Funds. No cenário da Fitch, o banco central americano não realiza cortes em 2026, mantendo os juros em 3,75% ao ano, o que sustenta o diferencial favorável ao Brasil no curto prazo. O dólar ronda atualmente o patamar de R$ 5, após ter chegado a R$ 4,89 em maio. Para o segundo semestre, a Fitch projeta depreciação gradual da moeda brasileira. As incertezas de política econômica ligadas às eleições de outubro, especialmente no campo fiscal, e o próprio ciclo de afrouxamento monetário doméstico devem reduzir o suporte ao real. A taxa de câmbio é projetada em R$ 5,20 por dólar ao final de 2026, com depreciação para R$ 5,40 em 2027.AutorMitchel Diniz
FonteExame
Distribuído por
