Brasil é exemplo de acolhida a refugiados, diz representante da ONU

Em um cenário global de fechamento de portas a pessoas que tiveram de fugir de seus países, o Brasil se mantém como um exemplo de acolhida, avalia Davide Torzilli, representante da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) no Brasil.
"Nesse contexto de políticas restritivas, o Brasil segue como um exemplo de acolhimento, incluindo o acesso amplo ao sistema de asilo e a experiência de concessão de vistos humanitários para refugiados provenientes de Haiti, Síria, Afeganistão e Ucrânia", diz Torzilli, em entrevista à EXAME.
"O Brasil tem sido exemplo no desenvolvimento de respostas que combinam a admissão humanitária, a proteção jurídica e iniciativas de integração local, garantindo os direitos e fortalecendo a dignidade dos refugiados", diz Torzilli.
"Nesse contexto, não é incomum a história de pessoas que, ao buscarem caminhos de acesso à proteção internacional, encontraram no Brasil a melhor (e, por vezes, única) possibilidade de acolhimento e recomeço", prosegue.
Na conversa, o representante também analisa as políticas de restrição a refugiados nos países do Hemisfério Norte e aponta soluções para que os países lidem com o desafio de ajudar os mais de 100 milhões de pessoas que tiveram de deixar seus locais de origem para fugir de guerras, crises econômicas e outras ameaças.
Como as restrições à imigração nos Estados Unidos e Europa estão afetando a busca de asilo e refúgio?
No final de 2025, o número de pessoas em situação de deslocamento forçado foi de quase 118 milhões. O número é 4% menor do que no final de 2024, e o primeiro decréscimo em 10 anos. Mas isso não é um motivo para se comemorar.
A queda no número total de pessoas em deslocamento forçado se deu em decorrência dos retornos para os países de origem. Ainda que pesquisas apontem que muitas pessoas refugiadas manifestem o desejo de retornar para o país de origem, no último ano, esse retorno ocorreu, em grande parte, em condições bastante adversas. Retornos para a Síria e o Sudão, por exemplo, acontecem devido a dificuldades de integração local, o que pode tornar esses retornos menos sustentáveis e duradouros.
Outro exemplo ocorre com pessoas afegãs que estavam em países como o Irã e o Paquistão. No último ano, aproximadamente 2,9 milhões de afegãos tiveram que retornar para o seu país de origem após mudanças das políticas de acolhimento de refugiados no Irã e no Paquistão. De volta ao Afeganistão, suas vidas e sua liberdade permanecem sob risco.
Apesar desse decréscimo, a magnitude e a prolongada duração dos deslocamentos forçados seguem desafiando a comunidade internacional, em um contexto de recortes brutais do financiamento humanitário, e de restrições em diversos países ao acesso ao território para aqueles que buscam asilo e refúgio. Conflitos, perseguições, violência, violações de direitos humanos e crises cada vez mais complexas, interligadas com o impacto da mudança do clima, continuam obrigando milhões de pessoas a abandonar seus lares. Esses números nos lembram que a necessidade de proteção internacional não diminuiu, mas se tornou ainda mais urgente.
Davide Torzilli, representante da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) no Brasil. (Alana Oliveira/Divulgação)
Avalia que o endurecimento das regras é uma fase, ou um movimento que veio para ficar?
O contexto internacional atual está marcado pelo retrocesso do multilateralismo e de uma ordem internacional que surge das cinzas da Segunda Guerra Mundial, cenários que refletem diretamente em dinâmicas restritivas da mobilidade humana.
Em muitos países do Norte global, essas restrições têm sido motivadas por um sentimento equivocado de “invasão” do território por fluxos de pessoas refugiadas. O que se tem, de fato, são dados que mostram que 65% das pessoas refugiadas são acolhidas por países vizinhos. Considerando que 7 em cada 10 pessoas refugiadas em todo o mundo são oriundas de apenas seis países (Afeganistão, Sudão do Sul, Sudão, Síria, Ucrânia e Venezuela), esse sentimento não se justifica.
Também percebemos que várias restrições acontecem em países do Sul global incentivadas por discursos populistas e sentimentos sem nenhum embasamento. Fala-se, por exemplo, que pessoas refugiadas tiram empregos de nacionais, que sobrecarregam sistemas públicos, mas são discursos que não têm nenhum dado ou evidência que os justifique. Muito pelo contrário: quando são oferecidas às pessoas refugiadas oportunidades para integração socioeconômica, elas contribuem, e muito, para as economias locais.
Todas essas restrições têm um impacto direto não apenas nos fluxos das pessoas forçadas a se deslocar, mas na possibilidade de encontrar soluções. Conflitos e crises longas, como da Venezuela e da Síria, têm feito com que gerações inteiras nasçam e cresçam em deslocamento.
Como o endurecimento de regras poderá afetar os refugiados, em um momento de alta nos conflitos globais? Ao encontrar portas fechadas nos EUA e Europa, eles poderão vir mais para países como o Brasil?
Nesse contexto de políticas restritivas, o Brasil segue como um exemplo de acolhimento, incluindo o acesso amplo ao sistema de asilo e a experiência de concessão de vistos humanitários para refugiados provenientes do Haiti, da Síria, do Afeganistão e da Ucrânia. Nesse contexto, não é incomum a história de pessoas que, ao buscarem caminhos de acesso à proteção internacional, encontraram no Brasil a melhor (e, por vezes, única) possibilidade de acolhimento e recomeço.
Quais são os acertos do Brasil nessa área?
O Brasil tem sido exemplo no desenvolvimento de respostas que combinam a admissão humanitária, a proteção jurídica e iniciativas de integração local, garantindo os direitos e fortalecendo a dignidade dos refugiados e de outras populações deslocadas à força no país.
No país, tem sido possível combinar proteção e inclusão desde o início de uma resposta emergencial. Por meio de políticas inovadoras e de parcerias sólidas, envolvendo atores públicos, o setor privado, doadores, a academia, organizações não governamentais (ONGs), os próprios refugiados e agências de desenvolvimento, o Brasil mostra que o trabalho conjunto e uma abordagem que envolve toda a sociedade beneficiam não apenas as pessoas deslocadas, mas também a população brasileira que as acolhe.
Que saídas podem ser encontradas para lidar com esse cenário atual desafiador para a imigração?
Precisamos de uma mudança de paradigma para as milhões de pessoas deslocadas e para as comunidades que, de forma altruísta, as acolhem. Complementar respostas humanitárias com um enfoque e iniciativas que promovam autonomia, independência e soluções de longo prazo. A mensagem é simples: nenhum país pode responder sozinho aos desafios do deslocamento forçado. A proteção internacional depende de cooperação internacional, solidariedade e compartilhamento de responsabilidades.
É importante também reiterar, por fim, que, em 2026, comemoramos os 75 anos da Convenção sobre Refugiados. Ela foi elaborada para momentos como este, de imprevisibilidade, e para ser uma referência de segurança comum aos países. Ao celebrarmos este marco histórico, é importante não apenas olhar para o legado da Convenção, mas também renovar nosso compromisso com sua implementação. E, acima de tudo, a responsabilidade coletiva assumida por meio da Convenção: a de que aqueles que fogem da guerra, da perseguição e da violência encontrarão proteção, dignidade e a oportunidade de reconstruir suas vidas.
