‘Brasil é o maior mercado da Uber’, diz presidente. Motos e IA aceleram próxima fase
Com 140 milhões de brasileiros já atendidos e mais de 2 milhões de motoristas parceiros, companhia amplia portfólio e investe em tecnologia feita no país para crescer

Há pouco mais de uma década, entrar no carro de um desconhecido chamado por um aplicativo ainda era uma novidade para os brasileiros. Quando a Uber desembarcou no país, em 2014, durante a Copa do Mundo, a operação começou no Rio de Janeiro com apenas uma categoria, o Uber Black.
Doze anos depois, o Brasil ocupa uma posição difícil de imaginar naquele início: é o maior mercado de mobilidade da Uber no mundo em volume de transações, segundo Silvia Penna, CEO da Uber no Brasil.
“O Brasil tem uma posição única na Uber. Quando a gente pensa em volume de transações, representa o maior país do mundo em mobilidade da Uber. É uma posição única, até globalmente falando, porque tem toda a atenção, todo o suporte e priorização”, afirma Penna, em entrevista exclusiva ao programa ‘De Frente com CEO’, da EXAME.
Agora, depois de ganhar escala com as corridas de carro, a empresa prepara sua próxima fase por aqui. E ela passa justamente por fazer o brasileiro abrir o aplicativo para muito mais do que pedir um UberX.
A nova avenida de crescimento da Uber no Brasil
A dimensão da operação ajuda a explicar esse peso. Mais de 140 milhões de brasileiros já fizeram uma viagem pela plataforma, segundo a executiva, enquanto mais de 2 milhões de motoristas parceiros utilizam o aplicativo para geração de renda.
A estratégia daqui para frente, no entanto, não está concentrada em conquistar novas cidades. A Uber já está nas capitais e nas cidades grandes e médias do país, segundo a CEO.
A avenida de crescimento está em outra direção: aumentar o número de ocasiões em que cada consumidor usa a plataforma.
“A nossa principal oportunidade é menos uma expansão geográfica. O foco estratégico é trazer mais soluções para que você possa usar a Uber cada vez mais vezes e para que a gente faça parte da sua vida em todos os momentos da jornada de mobilidade”, diz.
É uma mudança relevante para uma companhia cujo nome, no Brasil, praticamente virou sinônimo de corrida de carro por aplicativo.
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A Uber quer ir além do UberX
Durante anos, o UberX foi a principal porta de entrada para o ecossistema da empresa. Agora, Penna afirma que a operação brasileira está se tornando menos dependente da categoria.
Nos últimos três anos, a companhia ampliou a aposta em modalidades como Uber Black, Comfort, Moto e Envios, além de integrações com serviços de outras empresas.
A ambição é transformar o aplicativo em uma espécie de plataforma para diferentes necessidades de deslocamento - de pessoas ou de objetos.
“Se você quer mover um item ou se mover do ponto A ao ponto B, a Uber tem que trazer uma solução para você. Uma das minhas principais estratégias é pensar como a gente diversifica o nosso portfólio”, afirma.
Isso inclui até serviços que não são operados diretamente pela Uber. A integração com o iFood permite acessar a entrega de comida a partir do aplicativo da companhia, enquanto parcerias também oferecem alternativas como aluguel de bicicletas.
“A gente segue buscando outras parcerias e outras coisas que tragam cada vez mais facilidades para os usuários e mais demanda para os motoristas parceiros”, diz.
A empresa não revela quanto cada modalidade representa atualmente no negócio brasileiro, mas Penna afirma que a diversificação já reduziu a dependência do UberX.
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Por que o Brasil virou o maior mercado de mobilidade da Uber?
A escala brasileira não é explicada apenas pelo tamanho da população.
Na visão de Penna, a configuração das cidades brasileiras ajudou a encaixar o aplicativo na rotina dos consumidores. Em vez de necessariamente substituir ônibus, metrô e trem, uma parcela importante das corridas funciona como complemento ao transporte público.
É a chamada primeira ou última milha: o trajeto entre a casa e uma estação, por exemplo.
“A gente vê um volume muito grande de viagens que acontece perto de estações de transporte público. Muitas pessoas pegam o transporte público, mas fazem aquela última perna para chegar em casa usando a Uber”, afirma.
Há ainda outra transformação em curso, principalmente nos grandes centros urbanos.
“A gente tem visto nas cidades grandes do Brasil uma transição para usar cada vez menos carros particulares. Acho que tem todo um contexto urbano que faz com que a Uber se encaixe tão bem na mobilidade do Brasil.”
O aplicativo se tornou tão presente na rotina que Penna diz perceber rapidamente quando alguma coisa não funciona como deveria.
“Uma coisa acontece errado, algum problema, e a minha mãe me liga e fala: ‘O que aconteceu? O Uber hoje está diferente’. A gente sente no dia a dia porque realmente já faz parte da infraestrutura de mobilidade das cidades.”
A aposta (e a disputa) em torno das motos
A expansão do Uber Moto enfrenta um obstáculo justamente no maior mercado urbano do país. O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) acolheu recurso da Prefeitura e suspendeu, em 24 de julho, a decisão que determinava o credenciamento imediato da Uber para prestar transporte remunerado de passageiros por motocicleta na capital.
No centro da disputa está a segurança. Segundo a Prefeitura, 475 motociclistas morreram no trânsito de São Paulo em 2025. Ao suspender o credenciamento, o desembargador Dimas Borelli Thomaz Júnior afirmou que questões econômicas não podem “em hipótese alguma, se sobrepor ao direito fundamental à vida e à segurança pública viária”.
A CEO da Uber no Brasil, por sua vez, defende que a operação por aplicativo pode usar tecnologia e fiscalização para aumentar a segurança.
“A nossa grande prioridade é que o Uber Moto seja a maneira mais segura de andar de moto”, afirma Penna.
Segundo a executiva, a companhia não identifica aumento de incidentes associado à modalidade nas cidades em que já opera e tem investido em recursos como telemetria e controle de velocidade.
“Cada poder público, cada administração tem uma interpretação, e o nosso papel é colaborar e tentar encontrar qual é o caminho que funciona”, diz Penna.
Apesar do impasse em São Paulo, a modalidade é estratégica para a expansão da Uber. Segundo Penna, entre 60% e 70% das viagens de Moto estão associadas a centros de transporte público, funcionando principalmente como complemento no primeiro ou último trecho do deslocamento.
“Por ter um preço mais acessível, mais brasileiros conseguem encaixar o Uber Moto na rotina diária, em complementaridade ao transporte público”, afirma.
A aposta também revela uma particularidade da estratégia da Uber. Segundo a CEO, nem todo produto precisa gerar lucro isoladamente.
“Uber Moto não é um produto em que a gente ganha dinheiro. A gente investe nele para mobilidade urbana”, afirma.
A lógica é que um consumidor atraído por uma viagem mais barata de moto possa recorrer à plataforma em outras situações e utilizar outras modalidades.
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O Brasil que cria tecnologia para o mundo
O peso brasileiro também aparece do outro lado do aplicativo.
A Uber está caminhando para ter cerca de 700 engenheiros de desenvolvimento no Brasil, além de aproximadamente 500 funcionários em outras áreas ligadas à operação, segundo Penna.
“A gente tem visto que investir no Brasil vale a pena. A gente faz no Brasil para o mundo”, afirma.
O centro de tecnologia brasileiro começou com foco principalmente em segurança, um dos maiores desafios da operação local.
Entre as ferramentas desenvolvidas no país está a possibilidade de gravar o áudio de uma viagem, com armazenamento criptografado. A operação também trabalha com recursos de gravação de vídeo, compartilhamento de rota, checagem de paradas inesperadas e conexão com autoridades em determinadas localidades.
O que começou como uma resposta a problemas brasileiros ganhou escala.
“O time brasileiro tem uma capacidade de execução muito grande, combinada com uma criatividade que traz mais qualidade e diversidade para o produto”, afirma.
A companhia também anunciou a expansão de sua estrutura tecnológica para o Rio de Janeiro, com investimento de R$ 50 milhões.
Silvia Penna, CEO da Uber no Brasil: “Desde a chegada ao país, a Uber já repassou mais de R$ 225 bilhões aos motoristas parceiros” (Leandro Fonseca /Exame)
IA já tenta adivinhar para onde o passageiro vai
Se a inteligência artificial ganhou protagonismo nas empresas nos últimos anos, algoritmos e machine learning já faziam parte do funcionamento da Uber muito antes da explosão da IA generativa.
A diferença, segundo Penna, é que essas tecnologias estão avançando para mais etapas da operação.
Um exemplo aparece antes mesmo de uma corrida começar.
“Em 75% das vezes que você abre o nosso aplicativo e vai colocar o destino, a Uber sugere um destino e acerta”, afirma.
A previsão considera padrões de utilização e algoritmos da plataforma.
A IA também está chegando a processos internos, segundo a executiva, de recrutamento ao atendimento ao cliente.
“Cada vez mais a gente está incorporando em processos que ajudam tanto a aumentar o impacto quanto a aumentar a rapidez. A IA vai seguir numa evolução dentro da nossa empresa.”
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Mais de R$ 225 bilhões repassados a motoristas
A Uber não divulga um número consolidado de quanto investiu no Brasil desde 2014, mas Penna usa outro indicador para dimensionar a operação.
Desde a chegada ao país, a CEO afirma ter repassado mais de R$ 225 bilhões aos motoristas parceiros.
A executiva cita também um estudo encomendado pela Uber à Fundação Getulio Vargas quando a empresa completou dez anos no Brasil.
Segundo ela, o levantamento calculou que cada R$ 1 movimentado pela operação da Uber teria efeito de aproximadamente R$ 12 sobre a economia brasileira, considerando os impactos indiretos da geração de renda e da mobilidade.
“O motorista gera renda, depois isso vai para o consumo da família, ao mesmo tempo em que as pessoas se movimentam. Gera todo um ciclo para a economia do Brasil”, afirma.
Mesmo diante de um cenário marcado por inflação, endividamento das famílias e eleições, Penna diz que a expectativa para a operação brasileira continua positiva.
“É de crescimento. A gente continua investindo aqui, continua acreditando no Brasil, trazendo novas tecnologias e vendo crescimento.”
Quanto a Uber fica do valor de cada corrida?
Com mais de 2 milhões de motoristas parceiros, a divisão do valor das corridas permanece entre os pontos mais sensíveis do modelo.
Penna afirma que o percentual médio retido pela Uber tem ficado em menos de 20% ao longo de vários anos.
O modelo, porém, mudou.
Antes, havia uma taxa fixa por viagem. Agora, o percentual varia de corrida para corrida, permitindo que a plataforma aumente ou diminua sua participação de acordo com diferentes situações.
“Na viagem a viagem, existe uma variação de qual é o percentual que fica com a Uber e qual fica com o motorista. A Uber sempre fica com a menor parte dessa viagem, nunca fica com mais da metade”, afirma.
Segundo a executiva, a flexibilidade permite que a companhia subsidie determinadas viagens ou produtos para estimular demanda e equilibre esse investimento em outros momentos.
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Silvia Penna, CEO da Uber no Brasil: "A Uber sempre fica com a menor parte dessa viagem, nunca fica com mais da metade” (Leandro Fonseca /Exame)
Uber defende Previdência para motoristas
A relação com os motoristas também está no centro de uma discussão que ultrapassou as empresas de aplicativo e chegou à política.
Penna afirma que a Uber é favorável à regulamentação do trabalho nas plataformas e, desde 2021, defende a inclusão dos motoristas na Previdência Social.
Há, porém, uma condição considerada fundamental pela companhia: preservar a autonomia para escolher quando e quanto trabalhar.
“A gente acredita que existe um modelo em que trazemos segurança social e seguridade social sem perder o ponto que os motoristas mais valorizam, que é a flexibilidade”, afirma.
Na visão da CEO, o trabalho por aplicativo criou uma forma de geração de renda que não se encaixa perfeitamente nos modelos anteriores.
“O motorista pode ligar o aplicativo no dia e na hora que quiser e pode fazer mais de um aplicativo ao mesmo tempo. A gente tem um diálogo aberto com os reguladores para traduzir esse modelo em uma regulamentação. Mas a gente defende, sim, essa regulamentação.”
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E quando o carro não precisar mais de motorista?
Enquanto a regulamentação discute o presente do trabalho nas plataformas, a tecnologia já levanta outra pergunta: o que acontece com os motoristas quando os veículos autônomos ganharem escala?
Para Penna, essa transformação não acontecerá de uma vez.
“O carro autônomo é uma realidade, mas é uma realidade que vai vir com uma transição, acompanhando um modelo híbrido”, diz.
A Uber não prevê, segundo ela, uma queda na demanda por motoristas no horizonte dessa transição.
“A gente não prevê uma redução de demanda para os motoristas. A gente prevê esse modelo coexistindo por um longo período.”
O ritmo também deve variar de cidade para cidade. No Brasil, Penna reconhece que existem desafios tecnológicos adicionais para a adoção.
Ainda assim, não há dúvida, na visão da executiva, sobre a direção dessa mudança: “É uma realidade que veio para ficar.”
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De engenheira civil a CEO da maior operação de mobilidade da Uber aos 33 anos
A própria trajetória de Penna acompanha parte da transformação da companhia no Brasil.
Mineira e formada em engenharia civil, ela começou a carreira longe das empresas de tecnologia. Trabalhou com cálculo estrutural e construção pesada antes de passar por consultoria.
Em 2016, dois anos depois da chegada da Uber ao país, decidiu se candidatar a uma vaga na companhia. Entrou na companhia e em outubro de 2021, aos 33 anos, se tornou CEO da Uber no Brasil.
Para explicar como chegou tão cedo ao comando da operação, Penna recorre a um conselho que recebeu de um antigo chefe.
“Ele falava: ‘Procure sempre os espaços brancos da sua carreira’. Qual é aquele espaço que você não conhece, em que você não trabalhou? Vá sempre pensando em preencher aqueles espaços brancos e se tornando mais completa.”
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A CEO também vira motorista
Há ainda uma forma menos convencional de descobrir os “espaços brancos” da própria Uber: dirigir.
Penna eventualmente se cadastra como motorista para experimentar a plataforma pelo outro lado. A prática, segundo ela, também é adotada pelo CEO global e estimulada entre as lideranças.
“Usando o serviço, você identifica oportunidades e entende dificuldades. Quando entende a experiência, é muito mais fácil traduzir isso em números na sua cabeça”, afirma.
Em uma dessas experiências recentes, Penna iniciou e encerrou uma corrida por engano ao apertar duas vezes um botão. Quando tentou buscar ajuda no suporte, não encontrou facilmente uma solução.
O problema foi levado de volta para a equipe.
Para uma operação com 140 milhões de brasileiros já atendidos, são justamente essas pequenas fricções que podem ganhar uma escala gigantesca.
E, depois de transformar o Brasil no maior mercado de mobilidade da Uber, o desafio da próxima fase é fazer com que esses mesmos consumidores encontrem cada vez mais motivos para continuar abrindo o aplicativo.
“A nossa meta é diversificar cada vez mais o portfólio e fazer com que todos os brasileiros entendam que a Uber quer fazer parte da mobilidade urbana”, afirma Penna.
A Uber encerrou 2025 com receita global de US$ 52 bilhões, alta de 18% sobre o ano anterior. O lucro operacional praticamente dobrou, para US$ 5,6 bilhões, enquanto o número de viagens avançou 20%, para 13,6 bilhões. A plataforma terminou o período com mais de 200 milhões de usuários ativos mensais e mais de 40 milhões de viagens por dia.
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