Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercados
15/10/2026
7 min

'Brasil é um grande special situation': ARZ busca oportunidade em 'ativos estressados'

Casa vê oportunidades em empresas e projetos que precisam de recursos para destravar valor

'Brasil é um grande special situation': ARZ busca oportunidade em 'ativos estressados'

A escassez de capital no Brasil pode abrir oportunidades para investidores dispostos a financiar empresas e projetos que enfrentam problemas pontuais de liquidez. É nessa combinação de necessidade de recursos e potencial de recuperação de valor que a ARZ Capital, gestora fundada por Frederico Maluf, pretende explorar uma frente de investimentos conhecida como "special situations".

"O Brasil é um grande special situation", afirma Maluf, CEO da ARZ Capital.

Ex-sócio da XP Investimentos e no mercado financeiro há mais de 18 anos, o executivo avalia que o país reúne condições para estratégias que buscam retornos elevados ao atuar diretamente na solução de problemas que impedem determinados ativos de alcançar seu valor potencial.

A lógica pode envolver desde o financiamento de uma empresa sem acesso a crédito até a estruturação de operações que combinem dívida, garantias e participação nos resultados de um projeto.

A tese entra no radar da gestora em um momento de mudanças nas expectativas para a economia brasileira. Após o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, a bolsa local teve uma forte valorização, de quase 8%, a maior alta díaria em seis anos, enquanto investidores passaram a acompanhar os desdobramentos da disputa, as perspectivas para a política fiscal e a trajetória dos juros.

Para Maluf, porém, a estratégia da ARZ não depende de acertar o resultado eleitoral ou antecipar os movimentos dos ativos negociados no mercado de ações. A gestora procura investimentos menos expostos aos ciclos econômicos e políticos, embora reconheça que nenhuma estratégia está completamente isolada dessas variáveis.

"Considero que há pouca capacidade de prever os grandes movimentos, sejam eles políticos ou macroeconômicos, com mais precisão do que a média do mercado", afirma o CEO.

A preferência por teses defensivas tem uma contrapartida, uma vez que a gestora também pode deixar de capturar parte dos ganhos gerados por movimentos mais intensos de valorização dos ativos. "Também não buscamos capturar integralmente esses retornos extraordinários que o mercado começa a precificar", afirma.

Como funciona a tese de 'special situations'

A estratégia de special situations parte da identificação de ativos cujo preço está abaixo de seu valor potencial porque existe um problema a ser resolvido. Em vez de simplesmente comprar um ativo considerado barato e esperar sua valorização, oinvestidor procura atuar para destravar esse valor.

"Special situations é tudo aquilo em que você precisa atuar ativamente para resolver um problema, para destravar valor dentro dos ativos", explica Maluf.

A atuação pode ocorrer por meio de investimentos em ações, operações de dívida ou estruturas híbridas, que combinam características dos dois instrumentos. O objetivo é aproveitar situações em que a falta de capital, um entrave jurídico ou outra dificuldade impede uma empresa ou projeto de avançar, criando uma oportunidade para quem consegue oferecer uma solução.

Um exemplo citado pelo executivo é o de uma construtora de médio porte que enfrenta dificuldades para concluir um empreendimento imobiliário. As vendas podem ter avançado mais lentamente do que o previsto, reduzindo a entrada de recursos, enquanto os bancos deixam de conceder novos financiamentos.

O projeto, contudo, continua tendo valor. Com dinheiro para concluir a obra, investir em marketing e vender as unidades restantes, a empresa pode retomar o desenvolvimento do empreendimento e abrir caminho para novas fontes de financiamento. É nesse intervalo entre a dificuldade financeira e o valor que pode ser recuperado que entrao investidor de special situations.

"Se tenho capital e capacidade de ajudar uma construtora neste momento, posso utilizar diferentes ferramentas para maximizar meu retorno e minimizar meu risco", diz.

"Posso, por exemplo, oferecer o empreendimento inteiro como garantia do empréstimo. Para maximizar o retorno, posso negociar condições específicas: concedo o financiamento, que talvez não esteja disponível em outras instituições do mercado, e, em contrapartida, a construtora se compromete a concluir o prédio, investir em marketing e vender as unidades. Em troca, recebo uma participação de 10% no lucro do empreendimento", explica o gestor.

"Special situations não é um crédito simplesmente puro. Eu tenho que parar, analisar, sentar, estruturar a minha garantia e as minhas fontes de retorno junto ao tomador para que aquele investimento tenha a melhor relação risco-retorno possível", acrescenta.

A estratégia, portanto, exige mais do que identificar uma empresa em dificuldades. É necessário avaliar o valor dos ativos, a capacidade de recuperação do negócio, as garantias disponíveis e as condições que podem permitir ao investidor receber o capital de volta e obter retorno.

Na avaliação do CEO, a disponibilidade de recursos pode se tornar uma vantagem competitiva para investidores preparados para financiar projetos em momentos de dificuldade. "Hoje ainda existe uma escassez de capital no Brasil. Então, quem tem capital consegue trabalhar dessa forma", afirma.

A possibilidade de encontrar oportunidades também depende da evolução das condições de mercado. Maluf afirma que a ARZ já acompanha algumas teses sob essa perspectiva, mas ressalta que a gestora não trata special situations como uma aposta única nem como uma mudança imediata de estratégia.

A análise considera, entre outros fatores, a previsibilidade de execução do projeto e asperspectivas para os juros de longo prazo. Uma melhora nas condições financeiras pode aumentar a probabilidade de um empreendimento avançar, alterando a relação entre risco e retorno. "Quando você tem uma convergência dos juros de longo prazo, é algo positivo. Tudo isso faz parte da análise", afirma.

O executivo não detalha operações específicas em avaliação nem apresenta uma previsão de quanto a nova frente poderá representar nos negócios da gestora. Maluf diz, porém, que vê espaço para a ARZ desenvolver um produto diferenciado nesse mercado.

Eleições entram na análise, mas não definem a estratégia

Maluf também evita projetar o resultado da disputa presidencial ou antecipar decisões de investimento a partir de um cenário político específico. Segundo o executivo, a ARZ Capital busca estratégias que dependam menos de previsões sobre variáveis macroeconômicas.

"Eu sou pago para olhar as possibilidades, os cenários e construir produtos que sejam capazes de gerar o retorno que eu estou objetivando, independentemente de qual cenário estamos caminhando", diz.

Isso não significa que as operações estejam imunes à política. O próprio executivo reconhece que a economia não funciona isolada e que determinadas classes de ativos podem ser mais sensíveis às decisões de governo. No crédito pulverizado, por exemplo, operações de empréstimo consignado público dependem mais das regras estabelecidas pelo poder público.

Ainda assim, a intenção é evitar que o resultado de uma eleição seja o principal fator de retorno de um investimento.

ARZ soma R$ 1,2 bilhão sob gestão

Isso porque também a gestora nasceu com uma proposta mais ampla de ampliar o acesso dos investidores brasileiros a produtos que ainda não estavam bem distribuídos no mercado local.

Antes de fundar a ARZ, Maluf passou quase nove anos na XP, onde trabalhou com distribuição de investimentos e liderou áreas ligadas ao relacionamento com plataformas e escritórios. A experiência o levou a identificar lacunas na oferta de produtos, tanto no mercado brasileiro quanto no internacional.

A ARZ nasceu como uma plataforma de distribuição de produtos de terceiros, mas ampliou seu escopo para incluir diligência, estruturação e gestão. Em julho de 2025, a empresa passou a operar como gestora para viabilizar veículos locais que investem em estratégias de gestores internacionais. Hoje, a casa tem sete profissionais, distribuídos entre as áreas de investimentos, comercial e operações, e soma R$ 1,2 bilhão sob gestão, segundo Maluf.

O crescimento foi puxado principalmente pelos produtos internacionais estruturados por meio de veículos locais. O executivo estima que essas estratégias responderam por cerca de 90% a 93% da expansão da gestora até o momento.

A proposta é permitir que o investidor brasileiro tenha exposição a estratégias internacionais sem precisar necessariamente enviar recursos para o exterior. Para isso, a ARZ estrutura veículos no Brasil que acessam fundos de gestores estrangeiros.

Entre as casas representadas estão a Ben Capital, responsável pelo primeiro produto internacional da gestora, a White Capital, especializada em dívida imobiliária nos Estados Unidos, e a BridgeInvest, também focada em crédito imobiliário americano.

AutorClara Assunção
FonteExame
Distribuído por