Brasil entra no radar global da mineração de criptomoedas

Por Bernardo Schucman*
O Brasil pode se tornar um dos principais pólos mundiais de mineração de criptomoedas e o caminho passa pela energia que o país hoje simplesmente desperdiça. Com quase metade de sua matriz energética baseada em fontes renováveis e um volume crescente de excedente que não encontra destino na rede elétrica, o país atrai o olhar de empresas globais que enxergam na combinação de energia limpa e barata a equação perfeita para uma atividade intensiva em consumo e cada vez mais cobrada por isso.
Minerar criptomoedas significa usar computadores potentes para validar transações e garantir a segurança de redes como o Bitcoin. Em troca, os operadores recebem novas moedas como recompensa. O processo exige muita eletricidade e por isso a mineração sempre migrou para onde a energia é mais barata.
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Depois que a China proibiu a atividade em 2021, os Estados Unidos se tornaram o centro global do setor, respondendo hoje por cerca de 38% a 40% de toda a capacidade de processamento da rede Bitcoin. A Rússia ocupa o segundo lugar, com 15,5%, seguida pela China que, mesmo com a proibição oficial, recuperou sua participação pela via informal, aproveitando excedentes de energia em regiões remotas. Juntos, os três países controlam quase 70% da rede.
O Brasil no cenário
Enquanto a participação de renováveis na matriz energética mundial não chega a 15%, no Brasil esse índice supera 49%. O problema é que uma parcela relevante dessa energia não tem para onde ir: usinas eólicas e solares geram eletricidade em horários e volumes que nem sempre coincidem com a demanda da rede. O resultado é energia descartada, um desperdício econômico e ambiental.
Empresas de mineração de criptomoedas estão negociando ativamente contratos com geradoras de energia brasileiras para aproveitar o excedente renovável do país sem sobrecarregar a rede elétrica nos períodos de pico.
Geradoras brasileiras já confirmaram interesse em projetos voltados a monetizar essa energia excedente por meio da mineração. Do lado internacional, grandes nomes do mercado já estão avaliando oportunidades no país.
A lógica é simples: o minerador funciona como um comprador de última hora, interruptível, flexível, disposto a pagar por energia que de outra forma não teria destino. Para as geradoras, é receita onde houve prejuízo.
A virada sustentável do setor
A mineração de criptomoedas carregou por anos a falha de atividade ambientalmente irresponsável. O cenário está mudando. Em 2025, estima-se que 62% de toda a energia consumida pela mineração de Bitcoin no mundo venha de fontes renováveis. As emissões de carbono do setor caíram 9,5% em relação ao ano anterior, mesmo com o crescimento da atividade.
A adoção de tecnologias mais eficientes, como sistemas de resfriamento que eliminam o calor sem precisar de ar-condicionado e a migração para regiões com energia limpa e barata explicam essa transformação. Para o Brasil, o momento é oportuno: entrar agora significa entrar no ciclo sustentável, não no ciclo sujo que manchou a reputação do setor.
Para finalizar, o próximo grande evento do setor, o halving de 2028, que reduzirá novamente a recompensa por bloco minerado, já está no horizonte de planejamento das grandes operadoras. A tendência é de mais consolidação: operações menores serão absorvidas, e os sobreviventes serão aqueles com acesso garantido a energia barata e hardware eficiente.
Para o Brasil, a janela de oportunidade está aberta, mas não ficará aberta para sempre. Países como Argentina e Paraguai também disputam esse capital. A vantagem brasileira está na escala da energia renovável disponível e na solidez do marco regulatório em construção. Aproveitá-la exige velocidade e clareza de política pública.
*Bernardo Schucman, é CEO da CS Digital Ventures, subsidiária da Olenox Industries
