Brasil está sendo “massacrado” na corrida por inteligência artificial e pode voltar à condição de colônia, alerta ex-Microsoft
Durante o Macro Day, do BTG Pactual, Mat Velloso, ex-executivo de Microsoft, alertou para o atraso do Brasil em energia e infraestrutura para inteligência artificial e para o risco de o país ampliar a distância tecnológica em relação às grandes potências

O Brasil pode até ter energia, minerais estratégicos e uma posição diplomática privilegiada. Mas, quando o assunto é a corrida global pela inteligência artificial (IA), o país está assistindo aos adversários passarem muito na frente. Na visão de Mat Velloso — ex-executivo de Microsoft, Google DeepMind e Meta — a diferença está começando a parecer uma goleada.
“Isso não é uma competição, é um massacre”, afirmou o executivo nesta segunda-feira (31) durante o Macro Day, evento do BTG Pactual, ao comparar a velocidade de expansão da infraestrutura energética da China com a brasileira.
A energia entrou no centro dessa disputa porque o avanço da IA não depende apenas de modelos cada vez mais sofisticados ou de chips mais potentes. É preciso eletricidade para alimentar os data centers onde esses sistemas são treinados e operados.
Na visão de Velloso, a China entendeu essa dinâmica antes e está ampliando agressivamente sua capacidade de geração. Segundo os números apresentados pelo executivo, o país adiciona cerca de 540 gigawatts (GW) de capacidade elétrica por ano. Para colocar o tamanho desse avanço em perspectiva, toda a capacidade instalada do Brasil seria de aproximadamente 260 GW.
Ou seja: a cada ano, os chineses acrescentam ao sistema elétrico uma capacidade equivalente a mais de dois Brasis. Por aqui, o acréscimo anual gira em torno de apenas 9 GW, segundo Velloso.
A diferença importa porque energia abundante e barata significa maior capacidade de colocar chips para funcionar, construir data centers e ampliar o uso de inteligência artificial. É o que o executivo chama de transformar eletricidade em “inteligência bruta”.
É daí que vem o “massacre” descrito por Velloso. Enquanto a China prepara a infraestrutura necessária para sustentar uma expansão acelerada da IA, o Brasil, apesar de ter recursos naturais favoráveis, corre o risco de não conseguir transformá-los em capacidade computacional — e em vantagem econômica.
Velloso passou os últimos anos acompanhando de perto essa corrida no segmento de inteligência artificial. Antes de assumir o cargo de chief product officer da Docker, passou 15 anos na Microsoft, onde trabalhou com o CEO Satya Nadella e acompanhou de dentro a aproximação da companhia com a OpenAI. Depois, foi vice-presidente do Google DeepMind e também passou pela Meta.
E o relógio corre contra o Brasil
Segundo Velloso, já no próximo ano, entre 30% e 35% dos chips disponíveis no mundo não terão infraestrutura suficiente para serem colocados em operação. O problema não seria a falta dos semicondutores em si, mas de eletricidade, refrigeração, cabeamento e toda a estrutura necessária para manter os data centers funcionando.
Na visão do executivo, esse gargalo global deveria ser uma oportunidade de ouro para o Brasil. O paradoxo é que o país reúne justamente algumas das características que poderiam colocá-lo em uma posição privilegiada nessa disputa, principalmente a disponibilidade de fontes renováveis de energia.
"Mas alguns data centers já estão me procurando porque eles querem abrir unidades no Paraguai, do lado de Foz do Iguaçu, porque, ironicamente, é mais barato para operar lá. Estamos nos afastando desse progresso em vez de nos aproximar”, afirmou Velloso durante o Macro Day, do BTG Pactual.
Para explicar a urgência, Veloso recorreu a uma metáfora. "Imagine um estádio com apenas uma gota d'água. A cada minuto, essa quantidade dobra. Durante boa parte do tempo, praticamente nada parece acontecer. Mas nos minutos finais, o estádio inteiro é tomado e não há o que ninguém possa fazer", afirmou.
Na avaliação do executivo, é exatamente neste estágio que o mundo está hoje com a inteligência artificial.
Um dos exemplos citados por Velloso é o AlphaFold, sistema desenvolvido pelo Google DeepMind capaz de prever a estrutura tridimensional de proteínas a partir de sequências de aminoácidos. Segundo ele, enquanto um pesquisador com PhD poderia levar até quatro anos para prever uma única estrutura, a IA alcançou uma escala inédita: cerca de 200 milhões de estruturas previstas em apenas um ano.
Esse salto de produtividade, diz ele, tende a se espalhar por ciência, medicina, segurança digital, programação e diversas outras atividades. E o risco para países que não acompanharem esse movimento não seria apenas econômico.
"Se países como o Brasil não participarem dela, o gap científico vai ser tão grande quanto na época da colonização; não vamos conseguir nem negociar com civilizações que estão mais avançadas que a nossa. Nós não temos o luxo de não participar disso", afirmou Velloso.
A comparação com a colonização é uma forma de dimensionar o tamanho da assimetria que Velloso enxerga pela frente. Na visão do executivo, países que conseguirem usar a IA para acelerar descobertas científicas, desenvolver medicamentos, solucionar problemas complexos e multiplicar a produtividade passarão a produzir conhecimento em uma velocidade impossível de acompanhar pelos que ficarem de fora.
Nesse cenário, o risco para o Brasil não seria apenas importar mais tecnologia, mas se tornar cada vez mais dependente de soluções, conhecimento e infraestrutura desenvolvidos por economias muito mais avançadas.
- Leia também: Efeito de 30 programas sociais: André Esteves, do BTG, diz qual é o remédio que pode levar Selic a 7% ao ano
China está vencendo a corrida da inteligência artificial
Se o Brasil ainda procura seu lugar no tabuleiro, Velloso acredita que a disputa principal já está bastante clara: Estados Unidos contra China, em uma nova Guerra Fria. Por enquanto, na avaliação do executivo, Pequim está levando vantagem.
“Está muito evidente para mim que nós estamos entrando em uma nova Guerra Fria. Se você parar para pensar, esses modelos estão ficando melhores. À medida que isso acontece, eles ficam mais perigosos. Assim, os governos passam a ter uma opinião sobre quem deve e quem não deve ter acesso. A gente já viu tudo isso antes com tecnologia nuclear”, afirmou Velloso.
A comparação não se limita ao risco da tecnologia. Assim como na corrida nuclear do século passado, Velloso enxerga uma disputa entre potências para dominar uma tecnologia estratégica e impedir que o adversário tenha acesso às ferramentas necessárias para desenvolvê-la.
É nesse tabuleiro que o executivo vê a China avançando mais rapidamente. A dianteira de Pequim, segundo ele, não está apoiada em um único fator: além da expansão acelerada da capacidade energética, o país conseguiu reduzir rapidamente a distância tecnológica para os Estados Unidos e ainda adotou uma estratégia agressiva de disponibilizar modelos abertos, que podem ser utilizados e adaptados por empresas e desenvolvedores.
“Há dois anos, ninguém falava da China como um competidor na área de IA como se fala hoje. Então, ela continua acelerando”, disse durante o evento. Essa evolução também colocou em xeque uma série de argumentos usados nos últimos anos para justificar a liderança norte-americana.
Primeiro, dizia-se que os modelos chineses estavam dois anos atrás dos concorrentes. Depois, a distância teria caído para seis meses. Também havia a avaliação de que os avanços do país dependiam principalmente da chamada “destilação” — processo pelo qual um modelo menor aprende a reproduzir capacidades de outro mais avançado.
Para Velloso, essa leitura já ficou para trás. "Tem casos em que os modelos da China batem os modelos americanos. Você não faz isso destilando, copiando. Você faz isso inovando".
Do outro lado do Pacífico, os Estados Unidos tentam preservar sua vantagem restringindo o acesso da China a chips avançados e outras tecnologias consideradas estratégicas para o desenvolvimento da IA. O problema é que essa barreira pode produzir justamente o efeito contrário: forçar Pequim a desenvolver uma cadeia tecnológica cada vez menos dependente dos norte-americanos.
“Quanto mais os Estados Unidos tentam criar bloqueios, mais a China se torna autossuficiente", afirmou Velloso.
O executivo cita inclusive uma avaliação semelhante feita por Jensen Huang, CEO da Nvidia: impedir a venda de chips norte-americanos para a China não necessariamente impediria o país de avançar na tecnologia, apenas faz com que esse avanço aconteça sem a participação das empresas dos Estados Unidos.
E os empregos?
O baile tecnológico não termina na infraestrutura. Velloso também prevê uma segunda onda de impacto da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho. Até agora, ferramentas generativas multiplicaram a capacidade de produzir código, textos e documentos, mas ainda exigem revisão humana.
Isso criou um fenômeno curioso: profissionais deixaram de produzir parte do conteúdo para revisar aquilo que as máquinas passaram a criar.
O problema aparece quando a própria IA se tornar melhor também nessa revisão. Nesse momento, segundo ele, a pergunta será para onde irão os trabalhadores que migraram da produção para a supervisão.
É nesse ponto que surge a pergunta mais difícil. Se a primeira onda deslocou trabalhadores da produção para a supervisão, para onde eles irão quando a própria supervisão também puder ser automatizada?
A preocupação já começa a sair do campo das projeções e entrar no radar dos governos. Velloso cita novamente a China, que já começou a criar regras para impedir que empresas simplesmente substituam trabalhadores por inteligência artificial.
O executivo, porém, não acredita que tentar preservar empregos por meio de proibições seja uma solução sustentável. A razão está na própria dinâmica da corrida tecnológica: se um país decidir desacelerar a adoção da IA enquanto seus concorrentes continuam avançando, o custo pode aparecer na forma de perda de produtividade e competitividade.
E a ameaça não se restringe aos profissionais que trabalham diante de um computador. Para Velloso, o avanço da inteligência artificial combinado à robótica e aos sistemas autônomos tende a levar essa transformação também para atividades do mundo físico.
Um dos exemplos citados por ele são os motoristas de carros e caminhões, ocupações que empregam uma parcela relevante da força de trabalho norte-americana e que podem ser diretamente afetadas pela disseminação dos veículos autônomos.
Pensar na substituição de pessoas não é inteligente
Se a inteligência artificial ameaça substituir uma série de funções, Velloso acredita que enxergar a tecnologia apenas como uma ferramenta para cortar postos de trabalho e reduzir custos é desperdiçar boa parte de seu potencial.
Na visão do executivo, as maiores oportunidades estão justamente onde não existem pessoas suficientes para fazer todo o trabalho necessário. Em vez de perguntar quais funcionários uma empresa pode substituir por IA, a lógica deveria ser identificar problemas que hoje permanecem sem solução porque seria caro, demorado ou simplesmente impossível colocar seres humanos suficientes para resolver.
Velloso compara esse universo a um iceberg. Acima da superfície estão as tarefas que já são economicamente viáveis e, por isso, são realizadas por pessoas ou começam a ser automatizadas. Abaixo dessas, existe uma quantidade muito maior de demandas que simplesmente não são atendidas porque o custo para executá-las ainda é alto demais.
É justamente nesse pedaço submerso do iceberg que Velloso vê algumas das maiores oportunidades para o Brasil. O país tem problemas históricos em áreas nas quais faltam recursos humanos, capacidade de processamento ou dinheiro para analisar individualmente cada caso — e a IA poderia mudar essa equação.
Na segurança pública, por exemplo, o executivo cita o uso da tecnologia para investigar ocorrências que hoje acabam sem apuração simplesmente porque não existem policiais suficientes para analisar todos os crimes reportados.
A mesma lógica vale para auditorias fiscais e tributárias. Seria necessário, nas palavras dele, “um exército de gente” acompanhando continuamente cada informação para alcançar o nível de fiscalização que uma máquina poderia executar em escala.
Para Velloso, é quando a inteligência artificial deixa de disputar tarefas que já são feitas por seres humanos e passa a executar trabalhos que hoje simplesmente não são feitos que aparecem os ganhos realmente transformadores.
Onde o Brasil ainda pode ganhar
Apesar do diagnóstico pesado, Velloso não vê o Brasil condenado à irrelevância tecnológica. Pelo contrário: na avaliação do executivo, o país ainda reúne algumas das condições mais valiosas para conquistar espaço nessa corrida. O problema é que essa janela não ficará aberta para sempre.
Recentemente, Velloso levou parte dessas preocupações diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a integrantes do governo federal.
Na conversa, tentou deslocar o debate sobre soberania em inteligência artificial da simples criação de modelos nacionais para aquilo que considera mais urgente: garantir energia, infraestrutura computacional e capacidade para instalar data centers no país e aí sim colocar a IA para trabalhar sobre os problemas brasileiros.
Uma das mensagens parece ter encontrado eco. Segundo Velloso, o vice-presidente Geraldo Alckmin o procurou após a reunião para dizer que havia entendido o alerta sobre o risco de a energia se transformar em um dos principais gargalos brasileiros.
Isso não significa, porém, que tenha deixado Brasília convencido de que o problema está encaminhado.
“Você não vai resolver o Brasil em uma reunião de uma hora”, afirmou. A crítica, fez questão de ressaltar, não é exclusiva ao atual governo. Para Velloso, a inteligência artificial ainda não ocupa o espaço que deveria no debate político brasileiro justamente no momento em que as grandes potências aceleram investimentos em energia, chips e capacidade computacional.
"Eu não acho que nenhum candidato à Presidência hoje está dando atenção para esse problema do jeito que devia dar", destacou.
Depois de passar duas décadas fora do país e acompanhar algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo por dentro, Velloso resumiu o alerta que permeou a palestra como um todo: “eu não quero ver a gente perder essa chance porque acho que não vai ter outra", destacou.
