Brasil exporta 1.005 jogadores, mas fica atrás de Inglaterra e França em dinheiro de transferências
Estudo do Lingopass auditou 227 atletas de oito clubes e levou a empresa a lançar 1 mil bolsas de idioma para atletas

O Brasil é o país que mais exporta jogadores de futebol no mundo. O problema aparece quando a conta é feita pelo outro lado: o volume de atletas enviados ao exterior não se converte na mesma proporção em dinheiro capturado pelos clubes brasileiros.
O país registrou 1.005 transferências internacionais de saída em 2025, segundo a FIFA. Os clubes brasileiros receberam US$ 689 milhões em taxas de transferência. A Inglaterra, com 942 transferências, capturou US$ 1,77 bilhão. A França, com 810, ficou em US$ 1,71 bilhão.
É nesse intervalo que o Lingopass, empresa de educação linguística para organizações, decidiu investigar uma variável pouco medida no futebol: o domínio de idiomas. O estudo “O Idioma que Falta na Camisa”, primeiro working paper da série Lingopass Research, auditou 227 jogadores de oito clubes de elite do Brasileirão e encontrou evidência pública de uso do inglês em apenas 13 deles, ou 5,7%.
“Os dados mostram que não é um problema de talento, é de estrutura: o inglês quase nunca existe antes da primeira transferência — ele é aprendido depois, quando o custo da adaptação já foi pago. O idioma é a parte mais barata dessa conta, e a que ninguém trata”, afirma Alexandrine Brami, fundadora e CEO do Lingopass.
A pesquisa também ajuda a explicar a próxima etapa da empresa. A Lingopass está levando seu programa de bolsas sociais para o futebol, com 1 mil bolsas integrais de Football English, metade destinada a atletas mulheres. A companhia quer usar a experiência para testar uma tese maior: transformar o domínio de idiomas em uma infraestrutura de preparação profissional, e não apenas em um curso.
O que o estudo encontrou
A pesquisa não aplicou testes de proficiência nos jogadores. A Lingopass criou um protocolo próprio, chamado Protocolo Lingopass de Evidência Linguística, para procurar registros públicos de uso do inglês em entrevistas, coletivas, vídeos institucionais e veículos internacionais.
Entre os 227 atletas analisados, 13 tinham evidências verificáveis de comunicação espontânea em inglês. Em todos esses casos, o primeiro registro encontrado pela pesquisa ocorreu depois da primeira transferência para uma liga anglófona, nunca antes. A empresa faz uma ressalva importante: a ausência de evidência pública não significa que o jogador não fale inglês.
Um atleta pode dominar o idioma e nunca ter dado uma entrevista nessa língua. Por isso, o estudo mede aquilo que é observável, e não a proficiência real de cada jogador.
Ainda assim, o padrão chamou a atenção da empresa. A exposição internacional aparece como parte da formação linguística, mas geralmente só depois de o atleta já ter deixado o Brasil.O caso de Bruno Guimarães é usado no estudo como exemplo. O jogador chegou ao Newcastle, da Inglaterra, em 2022 sem falar inglês e, seis meses depois, já concedia entrevistas no idioma. A adaptação contou com o apoio de um Player Liaison Officer, profissional responsável por auxiliar jogadores estrangeiros na integração ao clube.
“O inglês quase sempre chega tarde, depois da primeira transferência, quando o custo da adaptação já foi pago. O idioma é a parte mais barata dessa conta, e a que ninguém trata”, afirma.
Do futebol para a estratégia do Lingopass
O futebol não surgiu como uma mudança completa de rota para a Lingopass. A empresa nasceu em 2021 com foco em educação linguística para executivos e organizações. A frente social começou junto com o negócio: no mesmo ano do primeiro contrato pago, a companhia distribuiu 150 bolsas para 20 organizações que atendiam comunidades de baixa renda.
A experiência pessoal de Alexandrine ajuda a explicar esse desenho. Francesa, ela cresceu em uma família sem formação acadêmica e chegou ao Brasil em 2002, depois de estudar Economia e Sociologia e fazer mestrado em Ciências Políticas, sem saber português. Foi o que a motivou a criar uma metologia acelerada de aprendizado de idiomas.
No país, passou a enxergar diferenças entre os dois sistemas educacionais. Na França, teve contato com um modelo em que a escola pública também podia funcionar como espaço de preparação esportiva. No Brasil, identificou uma dificuldade maior de acesso a oportunidades de formação.Essa visão ajudou a aproximar educação e impacto social na estratégia da empresa. A partir daí, o Lingopass manteve o programa de bolsas enquanto ampliava a operação comercial. Em diferentes anos, a iniciativa atendeu jovens de comunidades, universitários, refugiados e pessoas em transição de carreira. A empresa afirma que, desde o início, usa parte da receita dos contratos corporativos para financiar as bolsas.
A aproximação com o futebol veio em 2025, quando o Sfera FC, clube do interior paulista, contratou os serviços da empresa. Durante o trabalho de implantação do programa com os atletas, Alexandrine identificou uma questão que extrapolava o próprio clube.
O Sfera criou o LingoRaio, programa de formação linguística para 200 participantes, entre atletas dos times masculino e feminino, gestores, profissionais operacionais e professores do projeto social do clube. O programa também está ligado à parceria internacional do Sfera com o FC Midtjylland, da Dinamarca.
As 1.000 bolsas para jogadores
A pesquisa deu origem ao novo capítulo do Empowering Talents, programa social do Lingopass. Serão 1 mil bolsas integrais de Football English, com 500 vagas reservadas a atletas mulheres.
O curso será voltado a situações concretas da carreira esportiva, como treino, vestiário, entrevistas, contratos e transferências. A evolução dos alunos será acompanhada pelo nível do Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas, conhecido pela sigla CEFR.
A empresa pretende conversar com clubes, federações e órgãos públicos para ampliar a divulgação do programa. Alexandrine afirma que pretende levar a proposta ao Ministério do Esporte. Nesta fase, porém, as bolsas são financiadas pelo próprio modelo do Lingopass, sem patrocínio de terceiros.
De escola de idiomas a infraestrutura
A frente esportiva acompanha uma mudança mais ampla no posicionamento da empresa. A Lingopass quer deixar de ser comparado apenas a escolas de idiomas e passar a vender uma infraestrutura para gestão de competências linguísticas.
A nova plataforma permite relacionar avaliação, evolução dos alunos, desenvolvimento profissional e dados de desempenho. A ideia é que gestores possam identificar, por exemplo, quais alunos avançaram mais em determinado período ou cruzar competências linguísticas com outros dados profissionais.No futebol, a lógica é semelhante. Um clube poderia medir o nível de inglês do elenco antes de uma transferência internacional e acompanhar a evolução dos jogadores ao longo do tempo.
A companhia pretende ampliar o uso de dados produzidos a partir de seus programas de bolsas. Alexandrine diz que a intenção é identificar perfis de alunos, acompanhar desempenho e, no futuro, aproximar esses profissionais de empresas que buscam determinadas competências.
O futebol, portanto, funciona como uma espécie de laboratório para uma estratégia que vai além do esporte. A empresa continua concentrada em clientes corporativos e no setor público, mas usa a pesquisa para transformar uma competência difícil de medir em uma variável de gestão.
O próximo passo será ampliar a amostra do estudo. A Lingopass já trabalha na classificação de jogadores de 13 clubes da Série A e prevê novas pesquisas sobre inteligência cultural, internacionalização, educação e impacto da inteligência artificial nas relações de trabalho.
