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12/08/2026
9 min

Brasil perde 14% de vegetação nativa em 40 anos e fica mais exposto ao El Niño

Dados do MapBiomas mostram que áreas agropecuárias, que avançaram de 18% a 32% no mesmo período, registram mais eventos de secas e chuva extrema durante o fenômeno

Brasil perde 14% de vegetação nativa em 40 anos e fica mais exposto ao El Niño

A vegetação nativa ocupava 79% do território brasileiro em 1985. Quatro décadas depois, essa participação caiu para 65%, queda de 14 pontos percentuais. No mesmo intervalo, a agropecuária avançou de 18% para 32% do país.

A mudança na paisagem não se limita à substituição de uma cobertura por outra: dados do MapBiomas divulgados nesta quarta-feira, 12, indicam que a transformação do uso da terra também está associada a diferenças na forma como áreas naturais e agropecuárias respondem a eventos extremos de precipitação durante o El Niño.

A comparação entre a série histórica de cobertura e uso da terra e os dados de precipitação do MapBiomas Atmosfera mostra que secas e chuvas intensas se tornaram mais pronunciadas em episódios fortes do fenômeno. O levantamento considera três eventos recentes de El Niño — 1997/1998, 2015/2016 e 2023/2024 — e analisa as anomalias de precipitação, diferença em relação à média climatológica, entre setembro e novembro, trimestre em que os extremos se mostram mais críticos no Brasil.

Na Amazônia, o déficit de chuva foi o maior entre os biomas nos três eventos analisados. No El Niño de 2023/2024, as áreas ocupadas pela agropecuária registraram chuvas 178 milímetros abaixo da média, a maior redução observada no bioma.

No Cerrado e na porção norte da Mata Atlântica, a seca se intensificou a cada novo episódio analisado, sobretudo em áreas de vegetação nativa. No Pantanal, o último El Niño também teve efeito expressivo sobre as chuvas: 2024 foi o ano mais seco de toda a série histórica mapeada.

Mais agro, menos vegetação nativa

O comportamento foi diferente no Sul. No Pampa e na porção meridional da Mata Atlântica, os eventos de El Niño produziram excesso de precipitação. No Pampa, em dois dos episódios analisados, o volume excedente foi maior nas áreas agropecuárias do que nas áreas de vegetação nativa.

“Esse excesso de chuvas nas áreas agropecuárias provoca, em muitos casos, perdas nas lavouras e erosão dos solos agrícolas, o que é agravado pela redução da vegetação nativa que atua na proteção do solo e na maior infiltração da água da chuva”, afirma Eduardo Vélez, da equipe do Pampa no MapBiomas.

Os resultados fazem parte da Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil, divulgada pelo MapBiomas nesta quarta-feira, 12 de agosto. A nova edição reúne dados de 1985 a 2025 e mostra que a redução recente do desmatamento ocorre depois de mudanças acumuladas durante quatro décadas.

Um terço do território passou por mudanças

Ao longo de 41 anos, 33% do território brasileiro sofreu pelo menos uma mudança de cobertura ou de uso da terra. Os outros 67% permaneceram estáveis durante todo o período.

Em uma comparação direta entre 1985 e 2025, 28% do país, ou 241 milhões de hectares, aparecem com uma classificação diferente no início e no fim da série. Mais da metade dessas transições, 136 milhões de hectares, corresponde à conversão de vegetação nativa para áreas agropecuárias.

Esse movimento foi a principal mudança registrada na Amazônia, onde 55 milhões de hectares de vegetação nativa deram lugar à agropecuária, o equivalente a 83,6% de toda a área modificada no bioma. No Cerrado, foram 52 milhões de hectares, ou 59,4% das transições.

Na Caatinga, a conversão atingiu 14,1 milhões de hectares, enquanto no Pampa chegou a 4 milhões. Caatinga e Mata Atlântica também concentraram as maiores áreas no sentido inverso, de uso agropecuário para vegetação nativa: 4,4 milhões e 6,2 milhões de hectares, respectivamente.

Outra mudança relevante ocorreu com a substituição de pastagens por agricultura. O processo atingiu 8,8 milhões de hectares no Cerrado e 8,5 milhões na Mata Atlântica. Nesse último bioma, a silvicultura, cultivo de árvores para fins produtivos, também avançou sobre 4,1 milhões de hectares entre 1985 e 2025.

As conversões de coberturas naturais para usos humanos vêm perdendo ritmo nos últimos anos. Em 2025, o país registrou menos de 1 milhão de hectares desmatados pela primeira vez desde o início da série do MapBiomas Alerta, em 2019, uma queda de 20,6% em relação a 2024.

Para Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas, a desaceleração recente ocorre depois de mudanças estruturais no território. “Essa desaceleração imprime um ritmo menor de transformação da cobertura da terra, porém muitas regiões do Brasil já passaram por mudanças profundas nas últimas quatro décadas, o que afeta a sua resiliência aos eventos climáticos extremos, como o El Niño iniciado em 2026”, afirma.

Florestas perderam 65 milhões de hectares

A Formação Florestal segue como a principal cobertura natural do país. Em 2025, ocupava 359,5 milhões de hectares, ou 42,3% do território nacional. Foi, ao mesmo tempo, a classe que acumulou a maior perda absoluta desde 1985: 65 milhões de hectares.

Ainda assim, as florestas respondem pela maior parte das áreas que permaneceram sem alteração ao longo de toda a série histórica. Dos 557 milhões de hectares que mantiveram a mesma classificação por 41 anos, aproximadamente 335 milhões são de Formação Florestal.

Outros 84 milhões de hectares permaneceram como Formação Savânica e cerca de 35 milhões como Floresta Alagável.

Entre as demais coberturas naturais, a Formação Savânica acumulou perda de 46 milhões de hectares. A Formação Campestre perdeu 6,3 milhões de hectares, e os Campos Alagados e Áreas Pantanosas, outros 3,2 milhões.

No sentido oposto, as áreas destinadas a atividades humanas cresceram. As pastagens avançaram 61,6 milhões de hectares; a agricultura, 48 milhões; a silvicultura, 8 milhões; e as áreas urbanizadas, 2,5 milhões.

Amazônia e Cerrado lideram perdas

A Amazônia e o Cerrado concentraram as maiores reduções absolutas de vegetação nativa entre 1985 e 2025, com perdas de 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares, respectivamente.

Quando o recorte considera a proporção do território de cada bioma, Cerrado e Pampa tiveram os maiores recuos. A participação da vegetação nativa caiu 34% no Cerrado e 32% no Pampa ao longo da série histórica.

Mesmo após as perdas, Amazônia e Pantanal mantinham, em 2025, mais de 80% do território coberto por vegetação nativa. A Mata Atlântica, por sua vez, terminou o período com a menor proporção entre os biomas, 32%. A redução registrada desde 1985 foi de 12%, mas o levantamento ressalta que parte relevante do desmatamento no bioma ocorreu antes do período coberto por imagens de satélite.

No Pantanal, outra transformação aparece nas áreas sujeitas à inundação. O bioma perdeu 4 milhões de hectares de superfícies de água e campos alagados. A Coleção 11 passou ainda a mapear a savana alagada, formação com espécies arbóreas esparsas em meio à vegetação arbustiva e herbácea próxima de rios e planícies de inundação.

Essa classe caiu de 1,1 milhão de hectares em 1985 para 174 mil hectares em 2025, redução de 84%.

Só Rio de Janeiro ampliou participação de vegetação nativa

A perda de vegetação nativa ocorreu em 25 estados e no Distrito Federal entre 1985 e 2025. O Rio de Janeiro foi a única exceção, com aumento de 1% na participação dessas coberturas.

Amapá e Amazonas encerraram 2025 com as maiores proporções de vegetação nativa, 95% do território em cada um. Roraima aparece em seguida, com 92%.

Na outra ponta, Sergipe tinha 22%, enquanto Alagoas e São Paulo registravam 21%.

Entre os estados que passaram por transformações mais intensas estão Rondônia, cuja cobertura nativa caiu de 92% para 59%, Maranhão, de 91% para 61%, Mato Grosso, de 90% para 61%, e Tocantins, também de 90% para 61%.

Agropecuária já predomina em 59% dos municípios

A expansão da agropecuária foi uma das principais mudanças na paisagem brasileira desde 1985. A área ocupada pela atividade passou de 150,2 milhões para 273,3 milhões de hectares, alcançando 32% do território nacional em 2025.

As pastagens respondem por 60,6% dessa área, com 165,6 milhões de hectares. Desde 2006, porém, sua extensão se mantém relativamente estável, com crescimento inferior a 1,5 milhão de hectares por ano.

A agricultura teve expansão mais acelerada. Passou de 18,6 milhões para 66,5 milhões de hectares no período. A soja respondeu pela maior parte desse avanço: sua área cresceu de 4,5 milhões para 44,2 milhões de hectares e passou a representar 66,5% de toda a área agrícola do país em 2025.

A cana-de-açúcar, por sua vez, avançou de 2,2 milhões para 11,1 milhões de hectares. A silvicultura passou de 1,9 milhão para 9,9 milhões.

A mudança também alterou a cobertura predominante nos municípios. Em 1985, a agropecuária era o principal uso da terra em 46% deles. Quatro décadas depois, a participação chegou a 59%.

A pastagem é hoje a principal cobertura ou uso da terra em 2.114 municípios, ou 38% do total. A agricultura predomina em outros 1.092, equivalentes a 20%, e a Formação Florestal segue como principal cobertura em 1.104 municípios. Desde 1985, 744 municípios deixaram de ter a vegetação nativa como cobertura predominante.

Solar e eólica também passam a ocupar mais espaço

A Coleção 11 também mede a expansão territorial de usinas de geração renovável. A área ocupada por instalações fotovoltaicas chegou a 43,3 mil hectares em 2025, volume 38 vezes maior do que em 2016, primeiro ano em que essa classe foi mapeada.

A Caatinga concentra 63% desse total, ou 27,2 mil hectares. O Cerrado reúne 13,9 mil hectares e a Mata Atlântica, 2,2 mil.

Minas Gerais lidera entre os estados, com 16,3 mil hectares, ou 37,6% da área nacional mapeada. Minas Gerais, Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte somam 74,8% das áreas ocupadas por usinas fotovoltaicas.

Os parques eólicos, por sua vez, passaram de 4,8 mil hectares em 2016 para 28,7 mil hectares em 2025, expansão de seis vezes. A Caatinga concentra 85% da área mapeada, seguida pelo Cerrado, com 8%, Pampa, com 6%, e Mata Atlântica, com 1%.

Rio Grande do Norte e Bahia reúnem juntos 61,7% da área de parques eólicos identificada no país.

A nova coleção passou ainda a mapear as marismas, áreas pantanosas sob influência de água salobra, em versão beta e, por enquanto, restrita à zona costeira do Pampa. Em 2025, foram identificados 6,9 mil hectares dessas formações, presentes em zonas estuarinas do litoral do Rio Grande do Sul.

AutorLetícia Ozório
FonteExame
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