'Brasil perdeu chance de ajuste gradual. Vai ter que ser no choque', diz Rodrigo Azevedo
Confundador da Ibiúna e ex-diretor do BC acredita que ajuste fiscal virá pela dor

- Rodrigo Azevedo, cofundador da Ibiúna, disse que o Brasil perdeu a chance de fazer um ajuste fiscal gradual e que o caminho agora é o choque
- Sem condições políticas para isso, ele vê risco de um ajuste desordenado, com dólar e inflação em alta
- Solange Srour, do UBS, afirmou que a dívida pode crescer mais de quatro pontos do PIB ao ano com juros altos e crescimento baixo
- Os economistas criticaram a proposta de André Lara Resende e a ideia de elevar a meta de inflação
"A gente perdeu a chance no Brasil de fazer ajustes graduais. Vai ter que ser um ajuste de choque." A avaliação é de Rodrigo Azevedo, cofundador da gestora Ibiúna e ex-diretor do Banco Central, e marcou o painel "A economia brasileira no próximo ciclo: desafios e oportunidades", realizado neste sábado, 7, no MBA Brasil, evento realizado pela ONG de mesmo nome em Chicago.
O debate, com Solange Srour, diretora de macroeconomia do UBS, e moderação de Cristiane Schmidt, da MSGÁS e da ABDE, prometia desafios e oportunidades. Os desafios, porém, ocuparam quase todo o tempo da discussão.
Por que o ajuste gradual perdeu força
Azevedo comparou o país a uma empresa endividada. Se ela promete reduzir a alavancagem e os credores acreditam, o custo de capital cai antes mesmo de a dívida baixar. Para ele, o Brasil não tem mais esse crédito, depois de um teto de gastos e de um arcabouço fiscal que não funcionaram. "Os investidores não dão o benefício da dúvida", disse.
Como também não vê condições políticas para um ajuste de choque ordenado, o gestor acredita que o país pode ser empurrado para o pior cenário. Nele, o câmbio dispara, a inflação sobe e a economia afunda. Como os gastos públicos são fixados em valores nominais, a inflação reduz o valor real das despesas e faz o ajuste "que você não queria fazer".
Solange defendeu um meio-termo. Para ela, um ajuste de "um ponto e meio agora e depois a gente vê" não sobrevive às pressões políticas. O caminho seria anunciar de uma vez uma agenda que gere economia ao longo dos anos, como no governo Temer, quando o juro real caiu de quase 8% para menos de 3%.
Juros, dívida e gasto obrigatório
Cristiane lembrou que a dívida bruta passou de cerca de 56% do PIB em 2014 para 72% em 2022 e está em 83% hoje. Solange projetou que, com juros altos e crescimento baixo, ela pode subir mais de quatro pontos por ano. "As empresas estão, de fato, com a corda no pescoço", afirmou.
Para a economista do UBS, não há saída sem mexer no gasto obrigatório, que soma cerca de 90% do orçamento, e não necessariamente cortando, mas fazendo essas despesas crescerem mais devagar.
Isso passa pela indexação do salário mínimo, pela Previdência, pelos pisos de saúde e educação e pelo desenho dos programas sociais. Ela acrescentou que o choque de credibilidade hoje precisa ser maior do que na era Temer, porque o juro real americano saiu de zero para algo entre 2,5% e 3%.
Azevedo atribuiu os juros altos ao modelo de política econômica dos governos do PT, em que o gasto "está pisando no acelerador" e o Banco Central precisa pisar no freio.
E as oportunidades?
Elas apareceram só no fim. Azevedo lembrou que empresas como a Ambev nasceram no caos dos anos de hiperinflação. "O governo, quando está falido e desesperado, faz muita burrada. E isso dá muita oportunidade", afirmou.
Cristiane encerrou com um apelo à plateia de estudantes: "Não desistam do Brasil."
*A reportagem viajou para Chicago a convite da MBA Brasil
