Brasil poderá se beneficiar de mudanças na imigração global, diz pesquisador

As políticas atuais de controle de imigração estão dificultando cada vez mais o acesso de estrangeiros aos Estados Unidos e Europa. Com isso, as pessoas que fogem de guerras, crises econômicas e outros problemas em seus países buscarão novos destinos, em um movimento que poderá beneficiar o Brasil.
"A migração adicional nos próximos 20 anos poderá representar um enorme recurso econômico e fiscal para os brasileiros como um todo, desde que haja planejamento e regulamentação adequados", diz Michael A. Clemens, professor de economia na Escola de Governo e Políticas Públicas da Universidade Johns Hopkins e pesquisador do Instituto Peterson de Economia Internacional (PIIE), em conversa com a EXAME.
"À medida que a população do Brasil envelhece rapidamente, a força de trabalho diminuirá em quase dois terços em relação ao número de idosos. Pode parecer contraintuitivo que o Brasil precise de mais mão de obra do que tem, principalmente de pessoas que cresceram testemunhando a migração do Nordeste para favelas e outros assentamentos marginais em todo o país, mas o Brasil também está em um novo universo demográfico agora", afirma.
Clemens, que já morou no Brasil, comenta ainda sobre as consequências que as medidas contra estrangeiros terão para os países desenvolvidos. Leia a seguir mais trechos da entrevista.
Quais as consequências para os Estados Unidos e a Europa se houver uma redução forte na presença de imigrantes?
Os nativos, tanto nos EUA quanto na Europa, têm tido cada vez menos filhos há décadas. A baixa fertilidade significa que, em ambos os lados do Atlântico, a força de trabalho nativa está diminuindo rapidamente. Portanto, uma redução sustentada na imigração significa menor crescimento econômico e menor arrecadação de impostos, mesmo com o aumento dos gastos governamentais com idosos nativos.
Em algum momento futuro, parte do trabalho realizado por imigrantes poderá ser automatizado, mas grande parte não será, como o trabalho de cuidado. E a força de trabalho nativa não está diminuindo apenas em algum momento futuro, ela está diminuindo agora, hoje.
A desaceleração dos fluxos migratórios poderia afetar as economias dos países de origem dos imigrantes, caso mais pessoas acabem permanecendo em seus países de origem em vez de se mudarem para nações mais ricas?
Isso também prejudicará os países de origem dos imigrantes. Certamente, adicionar mais mão de obra a essas economias aumentará a produção econômica geral no curto prazo. Mas os migrantes internacionais geram uma ampla gama de efeitos econômicos positivos em seus países de origem, que serão perdidos. As remessas de dinheiro serão perdidas, assim como as redes de comércio e investimento e a transferência de tecnologia.
Como o trabalho no exterior é uma parte importante do retorno do investimento em educação, o capital humano será perdido, porque o retorno do investimento em educação diminuirá. O efeito líquido será uma vasta redução na oportunidade de intercâmbio mutuamente benéfico entre os países, prejudicando tanto os países de origem quanto os países de destino.
Até onde as políticas anti-imigração poderiam chegar nos Estados Unidos e na Europa?
A última vez que os Estados Unidos vivenciaram um surto de regulamentação anti-imigração foi em uma série de leis aprovadas entre 1917 e 1924. Isso teve o efeito cumulativo de reduzir drasticamente a prevalência de imigrantes nos Estados Unidos de cerca de 15% da população para cerca de 5%. Ou seja, reduziu em dois terços o número de pessoas nascidas no exterior em relação à população total dos EUA. Portanto, se considerarmos o que aconteceu em tempos recentes como um indicador do que pode acontecer, isso pode se concretizar.
Essa exclusão em massa de imigrantes também empobreceu permanentemente os Estados Unidos, assim como qualquer evento semelhante faria com os EUA e a Europa hoje. Mas os efeitos seriam muito mais agudos agora, porque tanto os EUA quanto a Europa tinham forças de trabalho crescentes mesmo sem imigração há um século. Hoje, vivemos em um universo demográfico diferente, e os efeitos empobrecedores de uma semelhante exclusão em massa de imigrantes seriam muito maiores.
Em um cenário de escalada de conflitos globais, o que poderia acontecer com as pessoas que fogem dessas guerras? Elas poderiam recorrer a outros países, como o Brasil, se encontrarem as fronteiras dos EUA e da Europa fechadas?
Considere o que muitos dos migrantes forçados de hoje enfrentam para viajar. Às vezes, jornadas épicas através de continentes, custos intermediários altíssimos, semanas a pé, risco enorme de morte, extorsão, violência sexual. Um estudo com migrantes do Senegal para a Espanha descobriu que o migrante médio só seria dissuadido por uma probabilidade de 25% de morte.
Pessoas motivadas nesse nível, algo que poucas pessoas com vidas comparativamente estáveis e prósperas têm dificuldade em imaginar, não desistem simplesmente quando uma porta se fecha. Elas tentam todas as portas até que uma se abra. E cientistas sociais documentaram esse efeito de desvio.
Portanto, sim, o rápido abandono dos tratados humanitários de migração do pós-Segunda Guerra Mundial pelos EUA e pela Europa levará a uma maior demanda por migração para novos destinos. Sem planejamento e regulamentação adequados, isso pode gerar caos. Mas também pode ser uma vantagem a longo prazo.
De que forma?
Nos próximos 20 anos, à medida que a população do Brasil envelhece rapidamente, a força de trabalho diminuirá em quase dois terços em relação ao número de idosos. Pode parecer contraintuitivo que o Brasil precise de mais mão de obra do que tem, principalmente de pessoas que cresceram testemunhando a migração do Nordeste para favelas e outros assentamentos marginais em todo o país, mas o Brasil também está em um novo universo demográfico agora. A migração adicional nos próximos 20 anos poderá representar um enorme recurso econômico e fiscal para os brasileiros como um todo, desde que haja planejamento e regulamentação adequados.
