Brasil vende mais frutas à Europa, mas frete de até US$ 9 mil aperta margens
Setor espera novo recorde de exportações em 2026, enquanto custos logísticos e pressão dos compradores levam produtores a rever negociações e canais de distribuição

RESUMO +
As exportações brasileiras de frutas devem alcançar novo recorde em 2026, mas os produtores enfrentam margens menores, segundo a associação de exportadores Abrafrutas. Entre janeiro e setembro, as vendas à União Europeia somaram US$ 664,5 milhões, alta de 15,8% em valor e 6,3% em volume. O frete marítimo chegou a US$ 9 mil por contêiner.
A fruticultura brasileira deve alcançar um novo recorde de exportações em 2026, mas o crescimento das vendas vem acompanhado de uma redução das margens dos produtores. O frete de um contêiner do Brasil para a Europa, que custava entre US$ 4,5 mil e US$ 5 mil, passou para US$ 8 mil a US$ 9 mil em alguns casos, segundo Jorge Souza, gerente técnico da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas).
A demanda continua boa, afirma Souza. O problema está no custo de atendê-la. Mudanças nas rotas marítimas, problemas no Mar Vermelho e restrições na disponibilidade de navios encareceram o transporte. A alta dos custos de produção completa a pressão sobre o negócio. "As margens reduziram drasticamente”, lamenta Souza.
A avaliação foi apresentada durante uma discussão do plano de trabalho da ApexBrasil em Bruxelas, na Bélgica, para ampliar a presença das frutas brasileiras na União Europeia. A associação espera superar o resultado de 2025, mas vê um cenário mais difícil para transformar o avanço das vendas em rentabilidade.
Faturar mais não é embarcar mais
Entre maio e setembro de 2026, as exportações brasileiras de frutas para a União Europeia somaram US$ 327,6 milhões, alta de 6,5% sobre o mesmo período do ano passado. O volume cresceu apenas 0,1%, segundo levantamento da ApexBrasil com dados do Comex Stat e do Comtrade. Nas frutas tropicais, que concentram as vendas brasileiras ao bloco, a receita alcançou US$ 320,7 milhões, aumento de 6,2%, enquanto a quantidade exportada caiu 0,4%.
No acumulado de janeiro a setembro, o desempenho foi mais favorável: as exportações para a União Europeia chegaram a US$ 664,5 milhões, crescimento de 15,8% em valor e de 6,3% em volume.
A conta chega ao produtor
Para reagir à redução das margens, a Abrafrutas iniciou uma campanha interna para melhorar a gestão de custos dos produtores, segundo Souza. A ideia é atuar sobre a parcela do negócio que as empresas conseguem controlar, enquanto fretes e condições internacionais permanecem sujeitos a fatores externos.
O plano de trabalho da ApexBrasil inclui o aumento da eficiência produtiva para compensar o custo Brasil e a necessidade de alinhar os preços aos dos concorrentes nas negociações com importadores. O diagnóstico aponta fretes elevados, limitações na cadeia de frio de portos e aeroportos e demora na emissão de certificados fitossanitários.
A logística também pesa na comparação com fornecedores como o Peru. Souza destaca a eficiência dos portos peruanos, a proximidade de áreas produtoras da costa e a escala dos empreendimentos como vantagens competitivas do país.
No Brasil, a disponibilidade das linhas marítimas pode exigir deslocamentos rodoviários maiores para alcançar um navio que saia mais cedo. Para uma carga perecível, esperar pelo próximo embarque tem um custo que vai além da armazenagem: a fruta perde tempo de vida comercial antes mesmo de chegar ao destino. Outro obstáculo está no próprio mercado doméstico. O plano setorial registra que “não é raro o preço interno igualar o da fruta exportada, inibindo ações de volume”.
O peso da intermediação holandesa
A pressão sobre as margens também levou à discussão do modelo de comercialização na Europa. Os Países Baixos são a principal porta de entrada das frutas brasileiras e responderam por 36% do valor exportado ao bloco em 2025, segundo o levantamento da ApexBrasil. Alemanha e Espanha vieram em seguida, com 22,6% e 16,6%.
Os distribuidores holandeses recebem as cargas e abastecem compradores em outros mercados. Segundo Souza, o modelo funcionava melhor quando havia rentabilidade suficiente para os diferentes participantes da cadeia. Com a redução das margens, os produtores precisam negociar de forma mais firme e avaliar alternativas de comercialização.
A discussão envolve ampliar o contato com compradores europeus e estudar possibilidades de atender determinados destinos mais diretamente. O executivo distingue, porém, a intermediação comercial do serviço logístico: reduzir a dependência dos distribuidores na venda não significa dispensar uma estrutura de transporte e distribuição que continua sendo importante.
O próprio setor reconhece os limites dessa mudança. Uma rota aparentemente mais direta pode ter menor frequência de navios, exigir transbordos ou acrescentar dias à viagem. No caso da uva, por exemplo, Souza lembra que a aparência do engaço, a estrutura que sustenta os bagos, interfere na decisão do consumidor.
Europeu quer saúde, mas olha o preço
Do lado da demanda, há espaço para crescer, embora o consumidor esteja mais atento ao gasto. Um estudo da Euromonitor preparado para a ApexBrasil aponta que 56% dos consumidores europeus dizem buscar comer mais frutas frescas.
Essa intenção convive com restrições no orçamento. Entre 2020 e 2025, as vendas de frutas no varejo alemão aumentaram 20% em valor, mas caíram 0,5% em volume. Na França, a receita cresceu 17%, enquanto a quantidade vendida recuou 4%.
O crescimento das redes de desconto e das marcas próprias reforça a disputa por preço. Segundo a Euromonitor, os supermercados de desconto tiveram expansão média anual de 6,5% nas vendas do varejo alimentar da União Europeia entre 2020 e 2025. O estudo identifica oportunidades para fornecedores brasileiros em programas de marcas próprias de redes como Aldi e Lidl.
O envelhecimento da população e o crescimento dos lares com apenas uma pessoa também mudam a forma de vender fruta. Segundo a Euromonitor, 31% dos domicílios da União Europeia são unipessoais. Nos Países Baixos, essa participação chega a cerca de 41%.
Esse perfil favorece embalagens menores, porções individuais e frutas cortadas, prontas para consumo. A consultoria aponta como oportunidade o fornecimento à indústria europeia que prepara esses produtos, além da presença em supermercados online e serviços de entrega.
Na avaliação de Souza, também existem possibilidades na exportação de frutas já cortadas, dependendo do destino e do custo logístico. O processamento permite aproveitar produtos cuja aparência externa não atende ao padrão exigido para a venda inteira, mas que têm polpa de boa qualidade.
A via aérea atende parte desses nichos, embora seja mais cara. Segundo o representante da Abrafrutas, cerca de 93% do transporte das frutas exportadas ocorre por via marítima e 7% por avião. O frete aéreo é usado em produtos mais sensíveis e, excepcionalmente, em frutas prontas para consumo destinadas a compradores dispostos a pagar mais.
Ganhar espaço na rotina de consumo
A estratégia de promoção comercial busca aproximar a oferta brasileira dessas mudanças. O plano da ApexBrasil prevê participação em feiras do setor, ações do Frutas do Brasil Festival na Itália, em Portugal e na França e iniciativas para levar compradores a conhecer a produção brasileira. O objetivo é apresentar sabor, origem e práticas de produção e ampliar a presença das frutas tropicais na rotina dos europeus. Para Souza, influenciadores digitais ligados à alimentação podem ajudar a mostrar como consumir produtos ainda pouco familiares a parte do público.
A adaptação precisa considerar diferenças entre os países. Segundo a Euromonitor, 55,8% da fruta vendida no varejo alemão é embalada, ante 9,1% na França.
