Brasil veste o mundo com algodão. O desafio: conquistar o próprio brasileiro
Setor aposta em campanha com foco em meio-ambiente e saudabilidade em tentativa de aumentar o consumo da fibra no país

RESUMO | A Abrapa apresenta nesta quinta-feira, 24, a campanha Fim da Linha para ampliar o consumo de algodão no Brasil, estagnado em 750 mil toneladas há uma década. A meta é elevar o mercado doméstico em 33%, para cerca de 1 milhão de toneladas, enquanto os sintéticos respondem por 70% do consumo têxtil global, segundo a Abit.
BELO HORIZONTE (MG)* — O Brasil se tornou uma potência mundial do algodão, mas ainda enfrenta um desafio dentro de casa: convencer o consumidor a escolher mais a fibra natural. Enquanto o país lidera as exportações globais, o consumo doméstico permanece praticamente estagnado há uma década, em 750 mil toneladas, segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), pressionado pela concorrência dos tecidos sintéticos, principalmente o poliéster.
A disputa agora ganhou uma nova frente. Com a indústria sob pressão por práticas mais sustentáveis e consumidores mais atentos à origem dos produtos, o setor produtivo de algodão aposta em uma mudança de comportamento para ampliar o mercado das fibras naturais.
É nesse contexto que o setor produtivo tenta transformar a discussão ambiental em uma oportunidade de mercado. A iniciativa “Fim da Linha”, que será apresentada pela Abrapa na quinta-feira, 24, busca ampliar o debate sobre o uso de fibras naturais na indústria da moda.
A perda de espaço do algodão pelos sintéticos, como o poliéster, derivado do petróleo, envolve uma questão de preço. Por ter um custo mais baixo, o material ganhou espaço nas escolhas da indústria têxtil. Segundo dados apresentados pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), os materiais sintéticos ampliaram sua participação no mercado têxtil global e hoje representam cerca de 70% do consumo.
Segundo o setor produtivo, em determinadas condições de mercado, o material pode chegar a ser até 30% mais barato do que o fio de algodão.
“A gente é a favor do aumento de consumo de algodão no mundo. De alguma forma, quanto mais algodão e mais fibra natural forem consumidos, melhor será para a saúde e o meio ambiente”, diz Gustavo Piccoli, presidente da Abrapa.
O movimento acontece em um momento de expansão da produção brasileira. Na safra 2025/26, o país produziu 4,1 milhões de toneladas de algodão, alta de 1,4% em relação à temporada anterior, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Para o próximo ciclo, a expectativa é de manutenção desse volume, segundo a Abrapa, embora a entidade evite antecipar estimativas de produtividade diante dos efeitos do El Niño.
Em 2024, o Brasil também consolidou sua posição como maior exportador mundial da fibra, superando os Estados Unidos no comércio internacional de algodão, mostram dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
O desafio, porém, está no consumo. A meta do setor produtivo é elevar o mercado brasileiro de algodão em cerca de 33%, para aproximadamente 1 milhão de toneladas.
Em 2024, o Brasil produziu 207 mil toneladas de fibras sintéticas, das quais aproximadamente 95,5% foram destinadas ao consumo da indústria têxtil nacional, segundo dados da Associação Brasileira de Produtores de Fibras Artificiais e Sintéticas (Abrafas).
Para a cadeia do algodão, a disputa não envolve apenas preço, mas também uma mudança no comportamento do consumidor. A estratégia não é substituir completamente os materiais sintéticos, mas ampliar o espaço das fibras naturais no mercado.
“É uma campanha mais de valorização da fibra natural em detrimento das fibras sintéticas. As fibras sintéticas fazem parte da indústria e vão continuar existindo, mas precisam avançar em tecnologia diante das discussões ambientais”, afirma Piccoli.
Segundo ele, a própria cadeia do algodão também tem investido em tecnologia para aumentar a eficiência da produção. “Nós, na fibra natural, também cada vez usamos mais tecnologia em variedades e em produzir algodão”, diz.
O setor produtivo aposta que uma maior conscientização pode influenciar a decisão de compra. Para Piccoli, muitos consumidores ainda desconhecem as diferenças entre os materiais usados na fabricação dos tecidos.
“Na hora que ele vai comprar sua roupa, seu tecido, ele olha a etiqueta e vê se tem fibra natural. Tendo algodão, ele está comprando um produto natural e biodegradável”, afirma.
No período entre agosto de 2024 e julho de 2025, janela comercial correspondente ao ano safra, o Brasil exportou 2,8 mil toneladas de algodão e gerou uma receita de US$ 4,8 bilhões.
Com produção de 4,25 milhões de toneladas na safra 2024/25, o Brasil exporta algodão para cerca de 30 países. Bangladesh, China e Coreia do Sul estão entre os principais destinos da fibra brasileira.
Algodão e taxa das blusinhas
A discussão sobre a valorização do algodão também ocorre em meio ao debate sobre a competitividade da indústria têxtil brasileira.
Para a Abrapa, a chamada taxa das blusinhas — que criou uma tributação sobre compras internacionais de baixo valor — faz parte de uma discussão mais ampla sobre a necessidade de fortalecer a produção nacional, mas não foi o ponto de partida da campanha pela fibra natural.
“A gente não avalia, não entra nesse campo. A gente só avalia com preocupação, porque é o movimento contra a industrialização do país. Nós gostaríamos muito que realmente se investisse mais na indústria têxtil nacional. O Brasil tem vocação para a indústria têxtil”, diz.
O movimento também tem uma dimensão internacional. O Brasil já ocupa a liderança global nas exportações de algodão, e o setor produtivo quer aproveitar o avanço das discussões sobre sustentabilidade na indústria da moda para fortalecer a posição da fibra natural no mercado.
Na Europa, a cadeia brasileira acompanha a implementação de novas exigências ambientais, incluindo a European Union Deforestation Regulation (EUDR), regulamento da União Europeia criado para restringir a entrada de produtos associados ao desmatamento e à degradação florestal.
“No próximo mês vamos participar de uma discussão dentro do Parlamento Europeu para fazer o nosso lobby do produto natural, para que os grandes nomes da moda no mundo comecem a valorizar mais a fibra natural”, afirma Piccoli.
* O repórter viajou a convite da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa)
Qual é a meta para o consumo de algodão no Brasil?
O setor produtivo pretende elevar o mercado brasileiro de algodão em cerca de 33%, das atuais 750 mil toneladas para aproximadamente 1 milhão de toneladas. Segundo a Abrapa, o consumo doméstico permanece praticamente estagnado há uma década.
Por que o algodão perdeu espaço para os tecidos sintéticos?
O algodão perdeu espaço principalmente pela diferença de preço. Segundo o setor produtivo, em determinadas condições de mercado, o material sintético pode custar até 30% menos do que o fio de algodão.
Quanto os materiais sintéticos representam no mercado têxtil mundial?
Os materiais sintéticos respondem por cerca de 70% do consumo têxtil global, segundo dados apresentados pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit).
O que é a campanha Fim da Linha?
A Fim da Linha é uma iniciativa que será apresentada pela Abrapa na quinta-feira, 24, para ampliar o debate sobre o uso de fibras naturais na indústria da moda. A estratégia busca valorizar o algodão sem propor a substituição completa dos materiais sintéticos.
Quanto algodão o Brasil produziu na safra 2025/26?
O Brasil produziu 4,1 milhões de toneladas de algodão na safra 2025/26, alta de 1,4% sobre a temporada anterior, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Qual é a posição do Brasil nas exportações mundiais de algodão?
O Brasil consolidou-se em 2024 como o maior exportador mundial de algodão, após superar os Estados Unidos, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). O país exporta a fibra para cerca de 30 mercados, com Bangladesh, China e Coreia do Sul entre os principais destinos.
