BrasilAgro (AGRO3) está ‘sempre pronta’ para compra imperdível — e não conta com fazenda ‘not for sale’
Para uma empresa que ganha dinheiro comprando, desenvolvendo e negociando propriedades rurais, não há ativos intocáveis nem oportunidades excepcionais que possam ser ignoradas. É assim que a BrasilAgro (AGRO3) encara seu portfólio. Em entrevista ao Money Times, o CEO André Guillaumon afirmou que a companhia está preparada para agir dos dois lados do mercado sempre […]

Para uma empresa que ganha dinheiro comprando, desenvolvendo e negociando propriedades rurais, não há ativos intocáveis nem oportunidades excepcionais que possam ser ignoradas.
É assim que a BrasilAgro (AGRO3) encara seu portfólio. Em entrevista ao Money Times, o CEO André Guillaumon afirmou que a companhia está preparada para agir dos dois lados do mercado sempre que os preços forem atraentes.
“Se aparecer uma fazenda imperdível para comprar, assim como uma venda irrecusável, as duas a gente vai fazer”, afirma.
Ana Paula Zerbinati, diretora de Relações com Investidores da BrasilAgro, que também participou do bate-papo, reforça a mensagem: “Nós estamos sempre prontos para comprar”.
A filosofia reflete o próprio modelo de negócios da empresa. Em vez de tratar as fazendas como patrimônio permanente, a BrasilAgro vê suas propriedades como ativos capazes de gerar valor por meio de investimentos em produtividade, infraestrutura e conversão de áreas. Depois de capturada essa valorização, os recursos podem ser direcionados a novos projetos.
Isso não significa que a companhia esteja à procura de compradores para qualquer propriedade. Algumas áreas ainda têm potencial de desenvolvimento e valor a ser extraído. Ainda assim, nenhuma delas tem uma etiqueta de “not for sale”.
“Se alguém chegar e colocar o dinheiro que a gente está esperando lá na frente a valor presente, a gente vende, não tem problema nenhum. Não há nenhuma fazenda da BrasilAgro com a plaquinha ‘invendável’”, disse o CEO.
Em outras palavras, se uma oferta refletir hoje o valor que a empresa espera capturar apenas anos adiante, a venda antecipada pode ser a decisão mais racional.
A lógica é simples: adquirir uma área, investir em sua transformação, capturar a valorização criada e reciclar esse capital em novos ativos.
E há espaço para comprar na BrasilAgro?
A disposição para aproveitar oportunidades surge em um momento de aumento da alavancagem. O indicador saltou de 0,04 vez no terceiro trimestre de 2025 (3T25) para 1,82 vez no 3T26, mas Guillaumon considera o nível confortável.
Segundo ele, a análise do endividamento precisa levar em conta uma característica importante do negócio: os recebíveis provenientes da venda de fazendas. “O trabalho nosso é continuar transformando terra para continuar vendendo terra para manter nesses níveis.”
Para o CEO, um dos melhores indicadores de risco está no custo de captação da própria companhia. Hoje, a BrasilAgro consegue captar recursos a cerca de 92% do CDI, faixa que, segundo ele, permanece entre 90% e 93% há quatro ou cinco anos.
“A melhor proxy que você pode ter para dizer qual que é o seu nível de alavancagem é o percentual sobre o CDI que a companhia consegue se endividar.”
Na avaliação do executivo, uma deterioração relevante da percepção de risco apareceria imediatamente nas condições de financiamento.
Por isso, a dívida não é vista pela administração como um obstáculo para novas aquisições. O principal desafio está no custo do dinheiro em um ambiente de juros elevados.
‘Acertar o timing da compra é quase impossível’
Guillaumon afirma que há áreas no portfólio que podem ser vendidas nos próximos meses, mas lembra que a estratégia da companhia é atuar de forma anticíclica.
“Temos que aproveitar os ciclos bons e ser uma empresa muito vendedora, e aproveitar os ciclos mais difíceis e ser uma empresa compradora. Nosso negócio é girar portfólio agrícola e nós vamos vender porque há áreas que entendemos que atingiram sua maturação e é preciso sair delas no momento exato.”
O executivo reconhece que o mercado de terras atravessa um período de menor liquidez, mas destaca que a diversificação geográfica construída ao longo dos anos ajuda a mitigar esse problema. A BrasilAgro possui propriedades na Bahia, Maranhão, Piauí, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais.
Enquanto o mercado de terras em Mato Grosso segue mais travado, outras regiões como Maranhão, Piauí e Bahia ainda apresentam alguma capacidade de absorção transações. “Se tivéssemos apenas fazendas em Mato Grosso para vender, não iríamos conseguir fazer nenhum negócio”.
A meta de longo prazo continua sendo reciclar cerca de 10% do portfólio anualmente, embora o ritmo possa variar de acordo com as condições de mercado.
Se vender no momento adequado é importante, identificar o ponto perfeito de entrada é uma tarefa praticamente impossível, afirma Guillaumon.
Por isso, a empresa se preocupa menos com oscilações de curto prazo no preço das terras e mais com a capacidade de geração de retorno ao longo dos anos.
“Você pode comprar uma terra por 100 hoje e amanhã ela estar valendo 90. A nossa questão é: mesmo que eu compre o ativo por 100, eu vou conseguir rentabilizá-lo no médio e longo prazo? Se o negócio viabilizar uma taxa interna de retorno operacional (TIR), nós tomamos a posição”, destaca.
Historicamente, a BrasilAgro busca uma TIR operacional entre 7% e 8% ao ano em dólar. Essa visão de longo prazo permite à companhia atravessar momentos desfavoráveis do ciclo agrícola sem alterar sua estratégia.
“Os nossos projetos são de duration de médio e longo prazo. Eu não posso ter uma visão de um ano. Se eu acredito que a soja terá preços ruins nos próximos cinco ou seis anos? Óbvio que não. Esse cenário vai se inverter por oferta, demanda ou frustração climática. Quando inverter, vamos vender. Mas hoje a nossa visão é mais compradora do que vendedora”, afirma.
Juro alto ainda segura a expansão
Apesar de captar abaixo do CDI, a BrasilAgro enfrenta o mesmo desafio observado em boa parte do agronegócio: juros elevados aumentam a exigência de retorno para qualquer novo investimento.
Quanto mais caro o capital, maior precisa ser o potencial de ganho de uma propriedade para justificar sua aquisição. E é justamente aí que está a insatisfação de Guillaumon: “Nós gostaríamos de pagar 90% do CDI, mas com um juro de 10% e não de 14%.”
Atualmente, a companhia desembolsa entre R$ 80 milhões e R$ 90 milhões por ano com o serviço da dívida.
O resultado é um paradoxo. Justamente quando o mercado de terras começa a oferecer oportunidades mais interessantes para compradores, o custo de financiar essas aquisições continua elevado.
Para Guillaumon, essa equação ainda limita a velocidade de expansão. Mas não muda a direção da empresa: se surgir uma propriedade com retorno adequado, a BrasilAgro continuará pronta para comprar. E, se aparecer uma proposta capaz de antecipar hoje o valor que espera capturar amanhã, também estará disposta a vender.
