Brasileiros lideram busca por residência no Paraguai, que agora enfrenta crise política
Brasileiros responderam por cerca de 58% das residências concedidas pelo Paraguai em 2025; presidente do país renunciou após crise envolvendo banco

Os brasileiros são a principal nacionalidade entre os estrangeiros que buscam viver no Paraguai. Em 2025, receberam 23.526 autorizações de residência, cerca de 58% do total concedido no ano, segundo a Direção Nacional de Migrações (DNM) do Paraguai. A Argentina, segunda colocada, somou 4.366 concessões; a Alemanha, terceira, 1.652.
A liderança também aparece nos pedidos, segundo dados oficiais da DNM: brasileiros apresentaram 22.136 solicitações de residência entre janeiro e outubro de 2025, ou 57,89% das 38.236 recebidas pelo país no período. No primeiro semestre daquele ano, haviam sido 11.723 pedidos, cerca de 57% do total.
2026 bate recorde
A procura acelerou em 2026. De janeiro a setembro, o Paraguai recebeu 49.538 pedidos de residência de estrangeiros de todas as nacionalidades — 39.916 temporárias e 9.622 permanentes —, volume que já supera o registrado em todo o ano anterior, segundo a DNM.
O número de brasileiros cresceu entre as autorizações. No primeiro trimestre, os brasileiros receberam 9.195 residências, cerca de 64% das concessões, informou a DNM. No primeiro semestre, foram 22.628 residências aprovadas para brasileiros, segundo balanço do órgão. A DNM não divulgou, nos balanços consultados, quantos pedidos de 2026 foram feitos especificamente por brasileiros.
Segundo a DNM, o diretor do órgão, Jorge Kronawetter, atribui o crescimento a tributação favorável, custo de vida competitivo, localização estratégica, oportunidades de investimento e trâmites acessíveis, segundo a DNM. Cidadãos do Mercosul, como os brasileiros, podem solicitar residência temporária de dois anos. O país também criou em 2026 modalidades de visto de residência para investidores, a partir de US$ 70 mil, conforme já detalhou a EXAME.

Peña renuncia em meio a crise bancária
É nesse ambiente que o país vive sua maior crise institucional em anos. O presidente Santiago Peña anunciou nesta quinta-feira, 5, sua renúncia, enquanto a Câmara dos Deputados debate um processo de impeachment contra ele.
A crise começou com a intervenção do Ueno Bank, banco digital com o qual Peña manteve vínculos, que administrava US$ 850 milhões em recursos públicos e cujo fechamento deixou milhões de clientes sem acesso às contas. O Banco Central do Paraguai interveio e liquidou a instituição por grave insuficiência de capital. Peña foi acionista da holding do banco até o ano passado.
"Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar as nossas instituições democráticas", disse Peña em vídeo.
A saída ainda depende do Congresso. Pela Constituição, o Legislativo precisa aceitar ou rejeitar a renúncia, e o vice Pedro Alliana é o sucessor.
O teste para o "modelo Paraguai"
A crise atinge justamente os atributos que o governo destacava para atrair estrangeiros: estabilidade e previsibilidade econômica. A quebra do Ueno afetou quase 3 milhões de clientes, enfraqueceu a moeda nacional e gerou preocupação entre investidores internacionais.
Ainda não há dados que mostrem se a crise afetará o fluxo de brasileiros. Os balanços oficiais mais recentes vão até setembro, antes do colapso do banco. Também é cedo para medir se a turbulência mudará as regras ou a política tributária que tornaram o país atraente.
Os números de residência não indicam quantos brasileiros de fato se mudaram para o Paraguai: medem procedimentos migratórios, não mudanças efetivas nem pedidos de cidadania.
