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Sacre Investimentos
Mundo
12/09/2026
7 min

Brics na Índia: por que o dólar está no centro da disputa entre os países do bloco

O BRICS emergiu em 2006 como um desafio à ordem ocidental, fornecendo uma alternativa financeira e diplomática para o Sul Global. 20 anos depois, quais foram os resultados?

Brics na Índia: por que o dólar está no centro da disputa entre os países do bloco

A Índia sediará, a partir deste sábado, 12, a décima oitava cúpula do bloco BRICS, que contará com líderes e representantes de 11 nações — incluindo a anfitriã Índia, a China, a Rússia, o Brasil, a África do Sul, os Emirados Árabes Unidos (EAU), o Irã e a Arábia Saudita, que participará como convidada, entre outros. O encontro vai até domingo, 13.  Na mesa de discussão, o dólar deve ser um dos principais temas, segundo o Financial Times.

Criado em 2006, o BRICS ganhou corpo no contexto da crise financeira de 2008 e do fracasso da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), negociações que buscavam reformar o sistema comercial internacional em favor dos países do Sul Global.

Nesse contexto, o grupo passou a defender maior autonomia diplomática e econômica, além de maior influência para as economias emergentes.

A criação do grupo, portanto, representou um questionamento à ordem internacional liderada pelo Ocidente, já que seus integrantes buscavam mais espaço em instituições que consideravam excessivamente dominadas pelos Estados Unidos e pela Europa — a demanda por reforma e autonomia continua sendo um dos principais pontos de convergência do bloco.

Representando quase metade da população mundial, 40% da produção global em termos de paridade de poder de compra, 44% da produção de petróleo e cerca de um quarto do comércio mundial, os países do BRICS compartilham, principalmente, o interesse em ampliar seus ganhos no comércio internacional e em reduzir as pressões ocidentais sobre temas diplomáticos.

O objetivo, porém, não seria substituir a ordem liberal existente, mas sim oferecer uma alternativa mais favorávelaos países em desenvolvimento.

Com isso,o bloco busca criar caminhos alternativos para o comércio, os investimentos e o financiamento que atendam às prioridades de desenvolvimento de seus integrantes, especialmente a redução da pobreza e a expansão econômica.

O apoio chinês sem condicionalidades e os mecanismos brasileiros de troca de moedas entre bancos são exemplos dessa estratégia. O movimento ajudou a ampliar as relações e os desempenhos econômicos não apenas no BRICS, mas também entre diferentes países do Sul Global.

Contudo, apesar de representar uma parcela expressiva da economia mundial, o bloco ainda enfrenta dificuldades para transformar esse peso em poder coletivo.

BRICS e o dólar: interesse coletivo, motivações individuais

Apesar de interesses em comum, cada membro do BRICS também tem sua própria motivação para se afastar do dólar, mas bloco age com cautela

No cerne das propostas estão o dólar e um desejo de diversificar as economias dos países membros para longe da moeda americana, favorecendo moedas locais e  inclusive uma possível 'moeda BRICS', que já foi alvo de críticas do presidente dos EUA, Donald Trump, quando ameaçou impor tarifas de 100% ao bloco caso criasse uma moeda rival ao dólar em 2024.

A chamada "desdolarização" é um tema importante para o bloco, e pauta central de muitas cúpulas.

Todavia, não é um fenômeno uniforme entre os países-membros: cada ator tem suas próprias motivações distintas — e às vezes, contraditórias — para querer se distanciar do dólar, indo de segurança contra sanções, custos de transações, e até mesmo orgulho nacional, o que demanda um entendimento individual de cada ator em vez de uma análise geral do bloco.

Na prática, a redução da dependência do dólar tem ocorrido sobretudo por necessidade, e não por uma estratégia coordenada do bloco, aponta um artigo da Modern Diplomacy. A Rússia, por exemplo, já liquida cerca de 95% do comércio com a Índia e 99% das transações com a China em moedas nacionais, principalmente rublos e yuans.

O movimento representa uma substituição concreta do dólar, mas não necessariamente uma tendência que envolva todo o BRICS.

No caso russo, a mudança está diretamente ligada ao isolamento financeiro provocado pelas sanções ocidentais e à exclusão do sistema SWIFT, o que restringiu o acesso do país aos mecanismos tradicionais de pagamento internacional.

O mesmo ocorre com o Irã, que também passou a buscar alternativas ao dólar diante das sanções. Como resumiu o presidente do Parlamento iraniano, para o Teerã essa mudança é uma necessidade. No BRICS, a desdolarização avança mais como resposta às circunstâncias de cada país do que como resultado de uma estratégia econômica comum.

A ideia de desdolarização no Brics reúne duas dinâmicas diferentes: de um lado, países submetidos a sanções que passaram a realizar parte do comércio em moedas nacionais por falta de alternativas, movimento que pode ser observado nos dados bilaterais de comércio.

De outro, estão as propostas anunciadas em cúpulas do grupo para criar moedas comuns e novos sistemas de pagamentos. Embora essas iniciativas avancem em declarações de princípio, elas ainda enfrentam dificuldades para sair do papel e têm sido sucessivamente adiadas.

Para os líderes do BRICS, essas propostas também funcionam como instrumento de pressão e de barganha nas relações com os Estados Unidos.

Na prática, porém, a distância entre o anúncio de uma alternativa ao dólar e sua efetiva implementação ainda é grande, o que limita o alcance da desdolarização como projeto coletivo do bloco.

A dependência da moeda americana é apontada por analistas como uma das principais limitações à autonomia econômica do BRICS.

Apesar da retórica em favor da desdolarização, a maior parte do comércio entre os integrantes ainda é realizada em dólar, enquanto muitos mantêm reservas significativas nessa moeda.

A China e a Arábia Saudita têm buscado ampliar o uso do yuan e de outras moedas em transações bilaterais, mas o dólar ainda não enfrenta um concorrente relevante no sistema internacional.

Um bloco de contradições

A foto mostra o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian (à esq.), o presidente da Rússia, Vladimir Putin (segundo à esq.), o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi (ao centro), o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, na cúpula do BRICS de 2026

A expansão do BRICS, em 2024, reforçou seu peso em setores estratégicos, sobretudo com a entrada de grandes produtores de petróleo como Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes Unidos.

Investimentos chineses e projetos ligados à Iniciativa do Cinturão e Rota também ampliaram as alternativas de financiamento para economias emergentes fora das instituições liberais ocidentais.

Ao mesmo tempo, o crescimento do grupo expôs as divisões internas. Em maio, os ministros das Relações Exteriores do BRICS não chegaram a um consenso sobre a guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irã, em um episódio que evidenciou a dificuldade de transformar interesses comuns em uma posição política unificada.

Para analistas, essa contradição está no centro do BRICS: o grupo reúne países que desejam maior influência global, mas preservam ampla liberdade de agir individualmente. A entrada de novos integrantes ampliou a representação do Sul Global, mas também tornou mais difícil construir posições consensuais sobre conflitos e temas estratégicos.

Assim, o BRICS se apresenta menos como um bloco geopolítico tradicional e mais como uma plataforma de autonomia.

Sem moeda única, tarifa comum ou compromisso militar, o grupo não funciona como uma aliança convencional, mas oferece alternativas de comércio, financiamento e articulação para países que buscam reduzir sua dependência das potências ocidentais.

Seu principal desafio, portanto, não é necessariamente derrubar a ordem internacional liderada pelo Ocidente, mas ampliar o espaço de manobra de seus integrantes.

Nesse sentido, o BRICS pode estar menos interessado em substituir Washington e seus aliados do que em tornar mais difícil que países individuais sejam pressionados por eles.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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