Briga entre pais e filhos e dívida de R$ 140 milhões: como a gigante Marabraz entrou em crise
Origem do problema passa pela forma como a família estruturou o patrimônio construído ao longo das últimas décadas

A crise de 140 milhões de reais da rede varejista Marabraz tem como origem um drama das empresas familiares brasileiras: problemas de sucessão.
A rede paulista de móveis, que chegou a ter 135 lojas e construiu sua marca principalmente entre consumidores de renda popular, pediu recuperação judicial após enfrentar uma combinação de restrição de crédito, disputa societária e deterioração das condições do varejo.
O passivo, de 140 milhões de reais, ainda pode sofrer alterações ao longo do processo, disseram fontes a par do assunto à EXAME.
O pedido ajuda a revelar uma crise que até agora aparecia para o consumidor principalmente pelo fechamento de unidades e pela redução da operação. Na petição, a própria Marabraz coloca uma ruptura familiar e societária no centro do problema: os administradores da operação perderam acesso aos imóveis que, durante anos, serviram como garantia para empréstimos bancários.
“As disputas societárias e familiares alteraram substancialmente o modelo de financiamento que, durante décadas, sustentou a operação”, afirma a Marabraz na petição de recuperação judicial. A informação também está na nota da varejista à imprensa.
Como foi a briga familiar que levou a Marabraz a uma recuperação judicial
A origem do problema passa pela própria forma como a família estruturou o patrimônio construído ao longo das últimas décadas.
A Marabraz nasceu de um negócio iniciado por Abdul Hamid Mohamad Fares, imigrante libanês que chegou ao Brasil na década de 1950 e abriu, em 1965, a Credi-Fares, na Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo.
Depois de sua morte, em 1978, os filhos, entre eles Nasser e Jamel, continuaram a operação. Em 1986, a família comprou a marca Lojas Marabraz, nome derivado de “Maravilhas do Braz”.
A rede cresceu nas décadas seguintes. Abriu dezenas de lojas, construiu centros de distribuição e transformou campanhas com Zezé Di Camargo & Luciano e o slogan “Lojas Marabraz, preço menor, ninguém faz” em parte de sua estratégia para alcançar o público popular. Virou uma gigante do varejo.
Ao mesmo tempo, parte do dinheiro produzido pelo negócio foi direcionada para imóveis. Segundo a petição, uma estrutura patrimonial separada da Marabraz passou a concentrar imóveis comerciais, centros de distribuição e outros ativos ligados à Marabraz.
Esses imóveis tinham uma segunda função: serviam de garantia para empréstimos.
Era uma peça importante da máquina financeira da varejista. A empresa precisava de capital para comprar mercadorias, carregar estoques e financiar sua operação. Ao negociar com bancos, conseguia reforçar essas operações oferecendo os imóveis como garantia.
Em resumo, o dinheiro que sobrava da operação da Marabraz era investido em imóveis não associados à empresa, mas que eram usados como garantia para tomar crédito no banco.
A estrutura funcionou durante décadas. Até a família se dividir.
Segundo apuração da EXAME, o conflito colocou de lados diferentes a geração que comandava o negócio e a geração dos filhos.
A holding patrimonial que reúne parte dos imóveis mais relevantes ficou sob controle da geração mais nova, formada por integrantes das duas famílias envolvidas no grupo.
Com o rompimento, esses imóveis deixaram de ficar disponíveis para garantir novas operações da Marabraz.
Em 2024, dois dos irmãos da segunda geração, Nasser e Jamel, foram à Justiça para processar filhos e sobrinhos e reaver as partes da holding que já tinham passado para os herdeiros. Ganharam em primeira instância em março de 2025. Em setembro, o Tribunal de Justiça de São Paulo reverteu a sentença.
Ou seja: os donos da Marabraz perderam o direito de usar os imóveis como garantia. E sem garantias, o crédito ficou mais caro.
Crise chegou aos bancos
A perda das garantias mexeu diretamente com o acesso da Marabraz acapital de giro. Segundo a companhia, bancos passaram a pedir novas garantias, reduziram limites, aumentaram o custo dos empréstimos e, em alguns casos, deixaram de renovar linhas de crédito.
Para uma varejista, o impacto é rápido. É preciso colocar dinheiro no estoque antes de receber pela venda. Também há despesas com aluguel, logística, funcionários, tecnologia e fornecedores.
Sem as linhas que tradicionalmente financiavam esse intervalo, uma parcela maior do caixa produzido pelas lojas passou a ser usada para pagar obrigações financeiras de curto prazo.
A empresa descreve na recuperação um ciclo de deterioração: menos crédito provocou menor liquidez; a falta de liquidez elevou a percepção de risco dos bancos; e o risco maior dificultou ainda mais a obtenção de dinheiro.
Crise no varejo
A disputa aconteceu em um momento ruim para depender mais de bancos.
Na recuperação judicial, a Marabraz cita juros elevados, retração do consumo, aumento da inadimplência e avanço do comércio digital entre os fatores externos que pressionaram a atividade. Desafios que têm pressionado outras varejistas, como a Casas Bahia, que protocolou nesta segunda-feira, 17, um pedido de recuperação judicial com dívida na casa dos 17 bilhões de reais.
A companhia sustenta, porém, que esses fatores não explicam sozinhos a crise. O argumento central é que a piora do ambiente econômico ocorreu quando a empresa já havia perdido parte de sua capacidade histórica de acessar crédito.
Isso tornou mais caro financiar estoque e operação num período em que o próprio varejo precisava de mais caixa.
O cenário também atingiu outras redes de móveis e bens duráveis nos últimos anos. Empresas do setor convivem com uma combinação difícil: o consumidor é sensível à parcela, enquanto o varejista precisa pagar juros maiores para financiar estoque, antecipar recebíveis e sustentar vendas parceladas.
Na Marabraz, a pressão chegou ao ponto de provocar fechamento de unidades e demissões antes do pedido de recuperação.
Segundo apuração da EXAME, a estratégia apresentada agora não é de uma nova rodada de encolhimento, mas de tentativa de retomada da operação.
Um pedido de falência veio antes da recuperação judicial
A recuperação também foi apresentada sob outra pressão: uma das empresas responsáveis pela operação da Marabraz já enfrentava um processo de falência.
A Comercial de Móveis Jordanésia, sociedade que desde 2017 concentra as operações desenvolvidas sob a marca, foi alvo de um pedido de falência distribuído em 2025. A existência desse processo é relevante porque determinou inclusive onde a recuperação judicial foi protocolada: a 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, que já analisava o caso anterior.
Quem está cuidando da reestruturação da empresa é o escritório Campana Pacca.
A situação avançou além do pedido. Segundo a própria inicial, houve decisão decretando a falência da Jordanésia. A empresa recorreu.
A 1ª Câmara de Direito Empresarial do TJ-SP concedeu efeito suspensivo ao recurso, interrompendo os efeitos da decretação enquanto o caso é analisado.
Foi nesse intervalo que cinco empresas ligadas à Marabraz — Jordanésia, SVC Jaraguá Comercial, Comercial Móveis das Nações, Comercial Zena Móveis e Monta Móveis — apresentaram conjuntamente o pedido de recuperação judicial.
Quem são os credores
Além de créditos trabalhistas, o grupo tem dívidas com bancos, fornecedores e outros credores. Segundo a apuração da EXAME, as instituições financeiras concentram alguns dos maiores valores individuais, enquanto a relação de fornecedores é pulverizada e em maior volume.
O montante inicialmente sujeito à recuperação gira em torno de 140 milhões de reais.
Esse número não deve ser tratado como definitivo. A lista de credores pode mudar com pedidos de habilitação, divergências de valores e decisões tomadas durante o processo.
A tese apresentada pela Marabraz ao Judiciário é clara: a empresa tenta caracterizar sua crise como financeira, e não operacional.
Na inicial, a companhia afirma que a restrição de crédito não decorreu de “perda de capacidade operacional”, “problemas de gestão”, redução da força da marca ou falta de demanda. A marca ainda conserva apelo entre consumidores de renda popular e as lojas continuam apresentando capacidade de giro de mercadorias.
A recuperação judicial vai colocar à prova uma estrutura construída durante décadas.
Por anos, operação e patrimônio familiar funcionaram como partes de um mesmo sistema: as lojas geravam receita, o patrimônio imobiliário reforçava as garantias e os bancos forneciam o dinheiro necessário para manter o ciclo. A disputa entre gerações rompeu esse arranjo justamente quando o crédito ficou mais caro.
Agora, a Marabraz precisa mostrar que consegue manter as lojas funcionando sem depender da mesma arquitetura financeira que ajudou a financiar sua expansão.
