BTG faz ajuste na carteira de renda fixa em julho: inflação resistente exige mudança na estratégia para o 2º semestre

Há alguns meses a principal pergunta dos agentes financeiros era até onde a taxa Selic poderia cair. Agora, a discussão mudou de indicador: até onde a inflação pode subir? Em termos de alocação de investimentos, os dois tópicos são essenciais para decidir a parcela de renda fixa e de ações.
Na avaliação do BTG Pactual, os riscos para a inflação estão maiores e exigem uma postura mais defensiva dos investidores. No relatório sobre alocações de julho, os analistas do banco indicaram o caminho: reduzir a exposição aos títulos indexados à inflação (IPCA+).
Entretanto, o segredo está no prazo. Álvaro Frasson, estrategista de macro que assina o relatório, afirma que os títulos atrelados à inflação de prazos maiores têm prêmios mais altos e vale o investimento.
A mudança acontece após uma sequência de revisões para cima das projeções para o IPCA, índice de preços oficial do país. O banco vê poucos fatores capazes de trazer surpresas positivas que desacelerem os preços nos próximos meses.
"O balanço de riscos para a inflação é assimetricamente altista, diante de uma postura dovish [de redução dos juros] da política monetária doméstica”, diz o relatório.
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O que fez o BTG mudar a rota
Segundo o banco, a economia brasileira continua mostrando mais força do que o esperado.
O mercado de trabalho segue aquecido, o consumo permanece resiliente e parte dos choques de preços que atingiram alimentos e bens industriais no começo do ano continua repercutindo na inflação atual.
Em paralelo, novos riscos entraram no radar:
- persistência dos choques de oferta observados no primeiro trimestre;
- possível impacto de um El Niño mais forte sobre a produtividade agrícola;
- resistência da atividade econômica e do mercado de trabalho;
- maior volatilidade cambial com a aproximação das eleições presidenciais.
Para Frasson, a combinação desses elementos reduz significativamente as chances de uma desaceleração mais rápida da inflação.
A projeção do BTG Pactual é de que o IPCA termine 2026 em 5,3%, acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central, de 4,5%.
Caso se concretize, será o maior nível para o IPCA no ano desde 2022, quando o índice de preços fechou em 5,78%, repercutindo a quebra na cadeia de fornecimento global durante a pandemia.
Em 2023, 2024 e 2025, o índice de preços se manteve abaixo de 5%.
Revendo a posição em renda fixa
IPCA+
Esse novo panorama para a inflação levou a equipe do BTG Pactual a mexer nas carteiras. A principal mudança ocorreu na parcela de renda fixa, nos títulos atrelados à inflação.
“Na parcela atrelada à inflação, voltamos a posição tática da duration de curto prazo ao neutro, mas mantendo a sobrealocação tática na duration longa, em razão dos elevados prêmios que se mantêm nestes ativos”, diz o relatório.
Traduzindo os jargões, a equipe de alocação do banco reduziu a exposição aos títulos indexados ao IPCA de prazo mais curto, que são mais sensíveis às mudanças de expectativa para juros e inflação nos próximos meses.
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Por outro lado, manteve uma posição acima da média nos papéis mais longos, avaliando que eles ainda pagam juros elevados o suficiente para compensar os riscos.
O resultado foi uma redução geral na alocação total da subclasse IPCA+, com uma clara preferência pelos vencimentos longos nos papéis que ficaram na carteira.
Prefixados e pós-fixados
No que diz respeito à renda fixa prefixada (taxa fixa) e pós-fixada (atrelados à Selic ou CDI), a alocação do BTG Pactual é neutra.
A visão é de que, com o cenário altista para a inflação local, travar taxas em títulos prefixados é mais arriscado.
“Mesmo com prêmios atrativos em relação a série histórica, o ambiente de incerteza acima do usual na política doméstica, dólar forte e potenciais choques de oferta demandam alocações com menor volatilidade”, diz o relatório.
Já os pós-fixados tem um cenário mais incerto à frente. O viés altista da inflação é negativo por corroer o poder de compra, porém se o corte de juros realmente se encerrar, esses títulos ficam mais atrativos.
Por ora, a escolha é se manter neutro.
As projeções do BTG para a economia
O cenário-base do banco para 2026 prevê:
- crescimento do PIB de 2%;
- inflação de 5,3%;
- Selic de 14% no fim de 2026; e
- dólar em R$ 5,20.
