BTG inicia cobertura da SpaceX com compra e vê potencial de alta de 40% nas ações

O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) iniciou a cobertura das ações da SpaceX com recomendação de compra e preço-alvo de US$ 225 para os próximos 12 meses, de acordo com relatório do banco divulgado nesta terça-feira, 7. O total representa um potencial de valorização de aproximadamente 40% em relação ao preço de mercado de US$ 160,42 considerado no documento.
Na visão dos analistas, a companhia reúne uma combinação rara de um mercado potencial gigantesco com uma vantagem competitiva difícil de ser replicada.
"Toda tese que escrevemos acaba se resumindo a duas perguntas: qual é o tamanho do prêmio e até que ponto a reivindicação da empresa sobre ele é defensável. A SpaceX é um caso raro em que ambas as respostas se situam no limite absoluto do que é possível", afirmaram. Para o banco, o mercado endereçável da empresa é "literalmente todo o espaço".
A companhia fundada por Elon Musk levantou cerca de US$ 75 bilhões com sua estreia na Nasdaq, em 12 de junho, em uma operação que mais do que dobrou o recorde anterior da Saudi Aramco, que captou US$ 29,4 bilhões em sua abertura de capital, em 2019, e entrou para a história do mercado financeiro como a maior maior oferta pública inicial de ações (IPO) já registrada.
A empresa vendeu 555,6 milhões de ações ao preço de US$ 135 cada. Com a precificação, a SpaceX passou a valer aproximadamente US$ 1,77 trilhão em bolsa, ou cerca de US$ 1,8 trilhão em valor totalmente diluído, considerando opções e ações restritas concedidas a funcionários.
Logo no primeiro dia de negociação, contudo, a companhia subiu mais de 19% e ultrapassou a marca de US$ 2 trilhões em valor de mercado no mercado secundário.
O principal diferencial apontado pelo BTG está na tecnologia de foguetes reutilizáveis. Segundo o relatório, a capacidade da SpaceX de recuperar e reutilizar os propulsores reduziu drasticamente os custos de lançamento e criou uma barreira de entrada praticamente intransponível para concorrentes.
"O principal avanço foi a capacidade da SpaceX de recuperar e reutilizar rotineiramente o primeiro estágio do Falcon 9. É importante notar que a reutilização não é um marco binário, mas uma curva de aprendizado cumulativa", diz o documento.
O banco destaca que a empresa passou de 13 missões em 2019 para 165 voos da família Falcon em 2025 e avalia que, mesmo que um concorrente desenvolvesse hoje uma tecnologia semelhante, ainda estaria "pelo menos uma década atrás" da SpaceX em experiência operacional.
Para os analistas, essa liderança faz com que a companhia detenha um "quase monopólio tecnológico" sobre o acesso ao espaço. "Tendo colocado em órbita mais de 80% da massa mundial nos últimos anos, a SpaceX detém, na prática, um quase-monopólio tecnológico no acesso ao espaço", afirmam os analistas no documento.
O BTG ressalta, porém, que os foguetes representam apenas a infraestrutura para negócios muito maiores. "Os foguetes são um meio, não um fim", ressaltam. A avaliação considera dois grandes motores de crescimento além da atividade de lançamentos: conectividade e inteligência artificial.
Na área de conectividade,a Starlink já conta com mais de 10 milhões de assinantes em mais de 160 países, apoiada por uma constelação de cerca de 10 mil satélites, equivalente a aproximadamente 75% dos satélites ativos em órbita. O banco estima que a operação alcançará 135 milhões de assinantes de banda larga até 2031.
O relatório também chama atenção para opotencial da empresa em infraestrutura para inteligência artificial. Além dos atuais centros de processamento em solo, os analistas acreditam que a SpaceX poderá desenvolver centros de dados em órbita, aproveitando sua liderança em lançamentos espaciais para atender ao crescimento da demanda global por capacidade computacional.
Receita da SpaceX pode atingir US$ 1 tri até 2031
Com esse cenário, o BTG projeta que a receita da companhia poderá atingir US$ 1 trilhão em 2031. A estimativa considera, entre outros fatores, uma capacidade média instalada de computação de 62 GW, monetizada a US$ 11 por watt, além daexpansão da Starlink para 135 milhões de assinantes de banda larga e 832 milhões de usuários de serviços móveis.
"Uma empresa cuja razão de ser é reduzir o custo de chegar a outro planeta nunca para. É por isso que o custo por quilograma continua caindo muito tempo depois que qualquer concorrente comum já teria declarado vitória", diz um trecho do relatório ao explicar que a missão da empresa de "tornar a vida multiplanetária" sustenta um ciclo contínuo de reinvestimentos e inovação.
A avaliação do banco utiliza a metodologia de Fluxo de Caixa Descontado (DCF), que resultou no preço-alvo de US$ 225 por ação. Segundo o banco, a divisão de inteligência artificial responde por 59% da avaliação, seguida por conectividade (37%) e pelo negócio espacial (4%).
Mas há riscos no radar
Apesar da recomendação de compra, os analistas também destacam riscos relevantes para os investidores. Um deles é a forte dependência de Elon Musk, que controla aproximadamente 48,7% do capital da companhia e, por meio da estrutura de ações com direitos de voto diferenciados, mantém o controle efetivo das decisões estratégicas.
O relatório afirma que uma eventual saída inesperada de Musk poderia provocar uma destruição de valor sem precedentes para a empresa. Os analistas também alertam para possíveis conflitos de interesse decorrentes da crescente integração entre empresas ligadas ao empresário, como Tesla, xAI e X.
Outro ponto de atenção é o cronograma de vencimento do período de lock-up. Segundo o BTG, o volume de ações que será liberado para negociação ao longo dos próximos 12 meses equivale a cerca de 20 vezes o free float inicial. O primeiro grande evento ocorrerá dois dias após a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026, quando mais de 10% das ações totais poderão ser negociadas no mercado, volume superior ao dobro das ações atualmente disponíveis para negociação.
