Bukele troca Bitcoin por IA e cria política extrema para o uso da tecnologia
Depois de zerar a violência a um custo alto para a democracia, um presidente com cerca de 90% de aprovação aposta no Grok, de Elon Musk, e no Google para reinventar escola e saúde. Os primeiros resultados animam, mas a conta, os dados e o controle ficam concentrados

RESUMO +
El Salvador está usando inteligência artificial em larga escala como parte da estratégia do governo de Nayib Bukele para transformar serviços públicos. Em 171 escolas, o Grok, da xAI, é usado como tutor de matemática, ciências e leitura, enquanto o aplicativo DoctorSV usa IA para fazer a triagem inicial de pacientes. Os programas apresentam resultados iniciais positivos, mas ainda não há avaliações independentes que comprovem o impacto da tecnologia. A experiência também levanta questões sobre custo, demissões de professores e profissionais de saúde, concentração de dados pessoais e o controle direto dos projetos pelo palácio presidencial.
Na saída da escola Mercedes Quintero, em San Salvador, os pais que esperam os filhos no fim da tarde repetem um mesmo tipo de elogio. Antes, a rotina era livro, livro e livro. Agora, as crianças chegam em casa animadas. Como mostrou a revista britânica The Economist, o responsável pela mudança não é um professor novo. É o Grok, o chatbot da xAI, a empresa de inteligência artificial de Elon Musk.
A escola é uma das 171 que, desde o ano passado, participam de um programa-piloto do governo de El Salvador que usa o Grok como tutor de matemática, ciências e leitura. O sistema se ajusta ao ritmo de cada aluno, e um professor acompanha a aula. Experiências parecidas existem em outros lugares, a Colômbia testou chatbots da Meta em áreas rurais —, mas o governo salvadorenho diz ser o primeiro a tentar levar a ideia à rede nacional inteira. O programa já está em expansão.
Por trás da aposta está Nayib Bukele, o presidente de 45 anos que transformou um país de 6 milhões de habitantes numa espécie de laboratório político. Bukele não quer ser lembrado como mais um líder que concentrou poder na América Latina. Quer ser visto como o homem que reinventa sociedades, e que exporta a fórmula. A inteligência artificial é a nova ferramenta dessa vitrine, e seus alvos são a escola e o hospital.
Bukele não precisa da IA para ganhar a próxima eleição, marcada para fevereiro. Desde que chegou ao poder, em 2019, encheu de aliados a Sala Constitucional da Suprema Corte, acabou com o limite de mandatos presidenciais, reduziu o número de municípios de 262 para 44, encolheu o Legislativo de 84 para 60 cadeiras e redesenhou os distritos eleitorais. Tudo a seu favor. E segue genuinamente popular, com aprovação na casa dos 90%.
O trunfo é a segurança. Bukele suspendeu garantias constitucionais e prendeu quase 2% da população, muitas vezes com base em pouco mais do que a suspeita de ligação com gangues. Os homicídios já caíam quando ele assumiu, mas a queda foi vertiginosa: de 38 por 100.000 habitantes em 2019 para 1,3 em 2025. Para uma geração de pais, a diferença é concreta. Os filhos crescem sem precisar calcular em qual ponto de ônibus é seguro descer.
O problema é que o sucesso elevou a régua. Com a violência resolvida, o salvadorenho passou a esperar do presidente a mesma eficácia em todo o resto. Numa pesquisa da Universidade Centro-Americana (UCA), em maio, mais de 70% dos entrevistados apontaram a economia como principal preocupação. Só 2% citaram o crime. O PIB deve crescer cerca de 5% neste ano, segundo a maioria das projeções, mas os ganhos ficam concentrados em quem tem contratos com o governo, e o investimento estrangeiro direto não decolou.
Bukele também carrega um precedente incômodo em apostas tecnológicas. Em 2021, fez de El Salvador o primeiro país a adotar o bitcoin como moeda oficial. A população não encontrou utilidade para a criptomoeda, o projeto murchou e ninguém sabe que destino terá a reserva do país quando o presidente deixar o cargo. A IA é, em boa medida, a chance de mostrar que a próxima aposta será diferente.
Um médico a um toque
Na saúde, o parceiro é o Google. Em novembro do ano passado, o governo lançou o DoctorSV, um aplicativo que coloca o paciente em contato com um médico em poucos toques. A IA faz a triagem inicial; depois, os médicos diagnosticam, receitam remédios e pedem e analisam exames, tudo sem custo. Segundo o governo, 1,5 milhão de salvadorenhos já se cadastraram e 2 milhões de receitas eletrônicas foram emitidas. Bukele promete que o sistema será o melhor do mundo.
A principal vantagem apontada é a velocidade: do mal-estar ao exame e ao remédio, sem pagar nada. O Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF), que financia o projeto, afirma que o país construiu um sistema de saúde universal e sustentável baseado em tecnologia de ponta. Uma avaliação independente, porém, ainda não existe.
Na educação, os números iniciais também impressionam. No Pisa, a prova internacional que mede leitura, matemática e ciências entre jovens de 15 anos, os alunos voluntários das escolas-piloto tiveram desempenho semelhante à média de estudantes da Alemanha e da Suécia em 2022, segundo o Banco Mundial, um dos financiadores do programa. O banco classificou os resultados como surpreendentes e muito animadores. Há uma ressalva importante: nada indica que o desempenho se deva à IA. Alunos que se voluntariam, em escolas selecionadas, tendem a ter notas mais altas de qualquer forma.
Tudo passa pelo palácio
É cedo para julgar. Mas o jeito de governar já diz muito. Os dois programas são tocados diretamente do palácio presidencial. No Ministério da Educação, a burocracia foi deixada de lado e tem pouco acesso às escolas-piloto. Muitos professores foram demitidos. Especialistas em educação lembram que o caminho comprovado para melhorar o ensino é formar professores, não distribuir aparelhos, e citam o caso da Suécia, que começou a tirar telas das salas de aula e a trazer os livros de volta.
A conta também é nebulosa. A xAI não divulgou valores do acordo com o governo. A Assembleia Nacional aprovou, sem debate relevante, empréstimos de 576 milhões de dólares para o programa de educação e para a segunda fase do DoctorSV.
A maior preocupação, no entanto, é outra. Bukele tem histórico de usar políticas públicas para acumular poder, e há quem tema que o experimento sirva para concentrar dados pessoais, de crianças e de pacientes, nas mãos do governo e das empresas de tecnologia.
Muita gente, dentro e fora de El Salvador, torce para que os programas deem certo. Um país pobre que usa IA para dar tutor a cada aluno e médico a cada cidadão seria um exemplo para o mundo em desenvolvimento, Brasil incluído. Mas o benefício da dúvida, Bukele já gastou.
