Bússola Vôzes: O futebol não pode pagar essa conta, mas as mulheres podem?
Enquanto clubes e federações se mobilizam para blindar patrocínios bilionários das casas de apostas, são as brasileiras que arcam com o endividamento, a violência doméstica e o silêncio dentro de casa

Por Juliana Barros*
Na noite do dia 17 de setembro de 2026, clubes e federações de futebol de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia divulgaram um manifesto conjunto contra a possibilidade de o governo federal editar uma Medida Provisória (MP) restringindo o setor de apostas esportivas online no Brasil.
A articulação surgiu de uma reunião na sede da Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj), reunindo inicialmente Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, São Paulo, Santos, Palmeiras e Cruzeiro, e depois se espalhou para outros clubes e federações estaduais. O documento intitulado "O fim do futebol brasileiro" argumenta que mudanças bruscas na regulação colocariam em risco desde grandes equipes até divisões de acesso, futebol feminino e categorias de base. A frase que resume o tom da nota é direta: "O torcedor não pode pagar essa conta. Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é quem acaba." Será?
A resposta veio nas redes sociais de forma clara: isso é uma vergonha! Um levantamento do Portal 91, perfil especializado em ciência de dados aplicada ao futebol e análise de sentimento de torcidas, mapeou 90.123 interações no X e no Instagram sobre o manifesto. Em 31.761 delas, foi possível identificar uma posição clara em que 88% criticaram o posicionamento dos clubes e apenas 5,1% apoiaram. A palavra mais usada nas manifestações contrárias foi "vergonha".
Quase um quinto das respostas (19,6%) apontou a dependência financeira dos clubes como motivação real por trás do texto, e 13,5% citaram diretamente os impactos sociais das apostas (vício, endividamento, efeitos sobre famílias). O discurso institucional do futebol não convenceu nem a própria torcida e o motivo é simples, pois o público já sabe o preço social que essa conta tem cobrado e ele não é abstrato. Ele tem endereço, e na maior parte das vezes esse endereço é uma casa administrada por uma mulher.
Quem é afetado pelas apostas esportivas? As mulheres!
Um levantamento divulgado dias antes, no dia 17 de agosto de 2026, pelo estúdio Clarice em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto Ideia, deu números a essa realidade. 42% das brasileiras já apostaram ou ainda apostam em plataformas online, e mais da metade sente algum efeito direto das bets na própria rotina ou nas relações familiares. 67% das mulheres ouvidas afirmam que as apostas estão destruindo as famílias brasileiras, percentual maior que os 59% registrados entre os homens.
Entre elas, o padrão de uso também difere. Muitas delas apostam na tentativa de administrar despesas essenciais como boletos, comida, itens dos filhos e boa parte joga escondida da família, por vergonha. A pesquisa registrou ainda um dado que não pode ficar em nota de rodapé: 23% dos entrevistados conhecem ou presenciaram situações de violência doméstica ligadas a apostas, e são justamente as mulheres impactadas as que mais percebem essa violência.
Esse custo social já havia sido reconhecido pelo próprio Estado. Em nota técnica de 2024, o Banco Central (BC) apontou que, em um único mês, 5 milhões de pessoas de famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões via Pix para plataformas de apostas, com valor médio de R$ 100 por beneficiário e 70% desses apostadores eram os próprios titulares do benefício, que no Brasil são majoritariamente mulheres.
O BC não deixou dúvida sobre o diagnóstico e, em nota, pontuou que "esses resultados estão em linha com outros levantamentos que apontam as famílias de baixa renda como as mais prejudicadas pela atividade das apostas esportivas."
O governo tentou reagir e, desde outubro de 2025, um sistema de bloqueio por CPF impede beneficiários do Bolsa Família e do BPC de abrir ou manter contas em casas de apostas licenciadas. A medida chegou a ser parcialmente suspensa pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro e só voltou a valer por completo em agosto deste ano, quando o governo já contabilizava mais de 3 milhões de pessoas barradas pelo sistema.
É um avanço real, mas o controle é feito por CPF do titular, não pela origem do dinheiro, por isso nada impede que o valor do benefício seja simplesmente repassado a outra pessoa da casa para apostar em nome dela. A política pública correu atrás do problema e o problema segue maior que a política.
A pressão popular pode mudar o rumo dessa conversa
É nesse ponto que o manifesto do futebol soa deslocado, irreal e irresponsável. Ele fala em proteger empregos, categorias de base, futebol feminino, mas há um efeito em cascata documentado, mensurado, contado por milhares de mulheres em entrevista: o das dívidas com agiotas, das brigas em casa, da vergonha de admitir que apostou o dinheiro do boleto.
Clubes e federações têm o direito de defender seus contratos. O que não têm é o direito de fazer isso como se essa fosse a única conta em disputa.
O que esse episódio mostra, na verdade, é que a pauta já tem força de pressão popular. Bastaram menos de 24 horas entre a publicação do manifesto e uma reação que reuniu 90 mil interações e uma reprovação de 88%, sem qualquer convocação institucional por trás.
Foi essa mesma lógica de gente comum, e sobretudo de mulheres, recusando-se a aceitar o silêncio em torno das bets, que empurrou o tema para o centro do debate no Congresso e no Judiciário nos últimos dois anos, resultando em bloqueios de CPF, discussões sobre publicidade e, agora, numa MP em curso.
A conta de que o manifesto fala já está sendo paga há anos, dentro de casa, muitas vezes pelas mulheres. O que os últimos dois dias provam é que, quando essa pressão se organiza e se repete, ela muda o rumo da conversa e pode mudar o rumo da política também.
Precisamos acabar com as apostas esportivas.
Nota de transparência: a produção deste artigo utilizou ferramentas de inteligência artificial como apoio na revisão do texto e no levantamento das fontes e referências. O conteúdo, as análises e a edição final são de responsabilidade da autora.
*Juliana Barros é jornalista, mestranda em Comunicação Digital e Cultura de Dados e Gerente de Comunicação da Elas no Poder.
