Bybit buscará licenças de corretora e banco no Brasil para criar superapp financeiro, diz CEO
Em entrevista exclusiva à EXAME, Ben Zhou afirmou que se tornar uma PSAV regulada no Brasil será apenas o primeiro passo e adiantou que a companhia busca parcerias para entrar no mercado dos EUA

Enquanto a discussão no mercado de criptoativos brasileiro é quem vai conseguir tirar a licença de operação junto ao Banco Central e quem vai ficar pelo caminho, a corretora Bybit está pensando em um desafio regulatório ainda maior. Em entrevista exclusiva à EXAME, o CEO global da exchange sediada em Dubai, Ben Zhou, disse que a empresa quer se tornar corretora e até eventualmente uma instituição financeira no país.
O objetivo, segundo Zhou, é ir além da oferta de ativos digitais e transformar a plataforma da Bybit em uma espécie de “superapp” de investimentos e outros serviços financeiros para brasileiros.“São diferentes passos. O primeiro é nos tornarmos corretora para ofertarmos valores mobiliários. Estamos nos perguntando: se queremos trazer um superapp, quais licenças precisamos? O que torna o Brasil interessante é que aqui há um caminho claro para fazer isso”, declarou.
Além disso, Zhou disse em primeira mão que a exchange também está de olho no mercado dos Estados Unidos, onde nunca operou e pretende entrar por meio de parceiros. “Já estamos em conversas com possíveis parceiros para os EUA”, afirmou.Leia abaixo a íntegra da entrevista
EXAME: A indústria cripto passou de uma fase de crescimento liderado pelo varejo para uma fase de institucionalização. Qual é, na sua visão, o próximo grande motor de crescimento do mercado?
Ben Zhou: Eu acho que há várias frentes em que o mercado está se desenvolvendo. Nos Estados Unidos está crescendo em stablecoins, especialmente após [a aprovação do projeto de lei de regulação de stablecoins] do Genius Act.
A segunda área é tokenização de diferentes ativos, como finanças tradicionais, ações e ETFs [fundos negociados em bolsa]. Você está quebrando uma barreira com essa tecnologia. Usuários da Nigéria e Índia estão adotando.
Além disso, o bitcoin está se tornando cada vez mais compreendido como algo que não é emitido ou controlado por um governo. Se você reside em um país como o Irã, ou se a sua própria moeda fiduciária não é flexível, não é estável, então o bitcoin está se tornando uma espécie de ouro virtual. Embora o preço do bitcoin tenha caído, acho que esse aspecto deve avançar.
EXAME: A Bybit é uma exchange global e estamos vivendo um momento em que diferentes países estão aprovando suas próprias regulamentações para criptoativos. Qual é o maior desafio para operar em um ambiente como esse? Como permanecer em conformidade com todos esses tipos diferentes de estruturas regulatórias?
Ben Zhou: Acho que a estratégia de longo prazo da Bybit é que precisamos estar em conformidade em todos os países em que operamos. Isso embora em alguns países seja difícil, porque você quase acaba sendo tratado de acordo com o padrão dos bancos em termos de KYC [política de conhecer o cliente].
Mesmo assim, ser regulado oferece muito mais portas de entrada. Você pode se conectar a bancos, pode oferecer legalmente seus produtos e serviços, o que acho que é fundamental para a adoção em massa.
Com múltiplas licenças, é interessante que, da nossa perspectiva, reguladores e até países estejam competindo uns com os outros. É essencialmente por isso que os EUA estão promovendo a adoção de stablecoins. É uma agenda de dominação do dólar americano.
Enquanto isso, há outros países que são mais conservadores, nos quais acho que a primeira agenda é controlar e reduzir os problemas de lavagem de dinheiro que as criptomoedas estão causando.Normalmente, vemos que a maioria dos países começa com essa postura, inclusive os EUA. Alguns anos atrás, com a administração [do ex-presidente Joe] Biden, eles eram muito duros com as criptomoedas. Mas depois que isso começa a ser mais compreendido e, gradualmente, as pessoas passam a enxergar isso como uma oportunidade, elas ficam cada vez mais liberais em relação ao tema.
Vejo isso acontecendo também no Brasil. Acho que uma coisa boa no Brasil é que é o Banco Central que está regulando as criptomoedas, o que é muito raro de se ver. A maioria dos países vê as criptomoedas como um tipo de valor mobiliário, então é a Comissão de Valores Mobiliários quem as regula. Mas o benefício de o banco central regular é que, no momento em que temos uma licença, podemos nos conectar aos bancos, o que é essencialmente tudo de que precisamos.
Então estou bastante otimista em relação ao futuro do Brasil e à regulamentação. Inicialmente, eu realmente acho que ela é muito rigorosa, há muitos requisitos e vai ser muito difícil obter uma licença, mas essas exigências podem funcionar.
EXAME: Temos realmente um marco regulatório que está ficando cada vez mais rigoroso aqui no país. A Bybit pretende se tornar uma prestadora de serviços de ativos virtuais (PSAV) regulada aqui no país? E em que estágio está o processo? Já é agora em outubro que vocês precisam entregar o pedido completo para o BC para se tornarem uma entidade autorizada.
Ben Zhou: Sim. Novamente, queremos ser regulados em todas as regiões e, para a América Latina, acho que o Brasil é nossa prioridade número um. É provavelmente o maior mercado e um dos países com maior adoção. E o fato de vocês terem uma regulamentação sendo estabelecida é uma notícia extremamente boa. Então estamos totalmente preparados. Estamos nos preparando para essa licença há dois anos.
Recentemente, estabelecemos nosso escritório em São Paulo e acabamos de injetar o capital exigido, que agora é de cerca de US$ 8 milhões para a licença. Então estamos totalmente prontos para solicitar em 30 de outubro.
No entanto, eu vejo que uma licença só talvez não seja suficiente. Você precisa de mais do que ser apenas uma PSAV. Provavelmente precisa de uma licença de corretora, talvez até de uma licença de instituição financeira.
Então nosso objetivo é continuar investindo, obter mais licenças, e a visão de longo prazo é apresentar o aplicativo da Bybit no Brasil de maneira regular, mas tornando-o uma espécie de superapp, que possa fazer tudo para investimentos e para as necessidades bancárias do cliente.EXAME: Ao dizer que vocês vão investir na obtenção de mais licenças no Brasil, você está falando sobre se tornar uma corretora DTVM, um banco?
Ben Zhou: Acho que isso acontece em etapas diferentes. O próximo passo, obviamente, acho que é uma licença de corretora, que nos permitirá oferecer aos clientes mais produtos, como valores mobiliários, até mesmo futuros.
Então acho que o objetivo final seria uma licença bancária. Mas, novamente, estamos apenas explorando. Estamos nos perguntando: se queremos oferecer a eles um superapp, que pode fazer tudo, provavelmente precisamos das três licenças — licença bancária, licença de corretora e licença de cripto — para oferecer tudo em um único aplicativo.
Novamente, não apenas no Brasil, mas na União Europeia e em muitos outros países, estamos explorando a mesma coisa. O que torna o Brasil interessante é que existe um caminho. Em muitos países, não existe um caminho regulatório para alcançar isso de maneira legal.
EXAME: E vocês então acabaram de abrir um escritório em São Paulo?
Ben Zhou: Nós já temos um. Conforme aumentarmos nossos investimentos no Brasil, estamos planejando até expandir o escritório atual e a sede das operações no país.
EXAME: Quais são as oportunidades que enxergam no Brasil?
Ben Zhou: Historicamente, o Brasil tem sido nosso maior país em termos de adoção. Acho que, até hoje, temos mais de 200 mil usuários ativos no Brasil.
Então é óbvio que, conforme o marco de licenciamento está surgindo, precisamos solicitar a licença. Mas, comparado ao potencial real do Brasil, 200 mil usuários ativos não são nada, certo?
O Brasil é, para muitas das pessoas de cripto que conhecemos, um país muito interessante, porque também é um país muito avançado em trading. A B3 foi uma das primeiras bolsas de valores a oferecer futuros de bitcoin no mundo.
Então, combinando esse potencial, a taxa de adoção de criptoativos e o tipo de status legal e a preparação regulatória, o Brasil realmente está se tornando um dos países número um para qualquer participante de cripto.
Acreditamos que o futuro das criptomoedas é que elas vão revolucionar a maneira como o dinheiro funciona. Isso significa que, quando um cliente quiser fazer qualquer coisa com dinheiro, seja investimento, seja usá-lo como banco, seja usá-lo para pagamento, para cartão, para entrega de automóveis, acreditamos que tudo vai migrar para uma economia cripto ou uma economia digital.
É por isso que queremos investir mais no Brasil e participar dessa economia digital. A licença de PSAV é apenas o primeiro passo. Vamos explorar e potencialmente obter mais licenças no Brasil para alcançar esse objetivo de uma economia digitalizada.
EXAME: Nesta semana, uma grande corretora de criptomoedas lançou negociação de ações e ETFs dos EUA na sua plataforma para usuários brasileiros. Isso também é um plano para a Bybit?
Ben Zhou: Sim. Acho que não são apenas os participantes de cripto que vão oferecer ações tradicionais e valores mobiliários. Os participantes tradicionais também estão entrando em cripto para oferecer criptomoedas a seus clientes.
O futuro de uma economia digital é ter tudo em um único aplicativo. Seja você vindo do lado cripto ou vindo do lado bancário, como Itaú, Nubank ou XP. Em dez anos, todos terão um aplicativo no qual o dinheiro poderá fazer tudo. Isso é banco de varejo, isso é cripto e isso é qualquer ativo que esteja conectado.
A tokenização desses ativos é apenas o meio para alcançar esse objetivo: mover esses ativos que tradicionalmente não estão disponíveis no mesmo aplicativo para blockchain. Se você olhar para Robinhood, Revolut, eles estão muito envolvidos em criptoativos e estão usando a tecnologia cripto para trazer todos os ativos para um único aplicativo.
EXAME: O mercado cripto brasileiro é famoso por ser extremamente competitivo, com grandes corretoras internacionais concorrendo com players nacionais bem estabelecidos e com bases consolidadas de clientes. Somando-se a isso, os bancos estão entrando nesse mercado agora. Como a Bybit se diferencia desses outros players?
Ben Zhou: Nossa vantagem é que somos nativos de cripto. Temos a sorte de que o mundo está caminhando em direção à tecnologia de criptoativos. Por sermos nativos, o que podemos oferecer é inovação baseada em blockchain. E isso pode representar uma oportunidade melhor do que, digamos, se a XP ou o Itaú estiverem entrando.
Vou dar um exemplo: podemos talvez fazer uma stablecoin baseada em real que ofereça aos clientes um rendimento de 15% a 20% ao ano. Se um cliente estiver usando nosso aplicativo e colocar suas economias reguladas aqui, ele poderá ter um rendimento flexível de 15%, que não conseguiria obter em um banco.
Mas também somos muito abertos a parcerias. Queremos trabalhar com esses participantes tradicionais para oferecer a eles aquilo em que podemos inovar.
EXAME: A Bybit pretende fazer algumas parcerias aqui? E outro aspecto interessante é que perto desse prazo final de pedido de autorização do BC vemos muitas empresas menores do setor de criptomoedas fechando. Você vê isso como uma oportunidade? Porque talvez vocês possam comprar algumas dessas empresas para obter as vantagens que elas já construíram aqui no Brasil.
Ben Zhou: Sim, acredito que haverá consolidação. Mesmo desde o ano passado, vimos que a exigência para a licença de PSAV aumentou dramaticamente. Então só podemos ver os requisitos e o peso de compliance continuando a aumentar daqui para frente. Portanto, participantes menores provavelmente não conseguirão obter a licença.
Mas, na minha perspectiva, obter uma licença de PSAV é apenas um ingresso para entrar. Não é um ingresso para vencer. Acreditamos firmemente em parcerias. Não achamos que podemos chegar ao Brasil e simplesmente ser grandes e conquistar o Brasil. Acho que precisamos de muitas dessas parcerias locais para nos ajudar a crescer.
Vocês têm ativos muito bons no Brasil, que provavelmente fazem sentido levar para fora do país. Vocês têm um rendimento de títulos do Tesouro muito alto em comparação com muitos outros países. Talvez alguns participantes estrangeiros queiram ter acesso, mas não conseguem. E é o que podemos oferecer, porque temos acesso a mais de 80 milhões de usuários globalmente.
No fim das contas, o que o blockchain oferece é acesso a ativos, é como o que a internet fez com a informação.
EXAME: Você acha que existe no mundo uma concentração excessiva de liquidez e usuários em apenas um punhado de grandes exchanges de cripto, ou acha que o mercado é mais aberto? Porque acho que estamos entrando em um espaço muito concentrado atualmente no mundo inteiro.
Ben Zhou: Isso acontece em qualquer indústria. Você tem uma espécie de era de surgimento e depois concentração. Eu diria que, de 2017 a 2021, vimos muitas exchanges globais surgindo. Depois de alguns mercados de alta e de baixa, a consolidação aconteceu.
Hoje, temos um estado consolidado, em que você tem o maior participante, a Binance, e depois um punhado de exchanges menores. A Binance tem cerca de 50% da participação de mercado, e a segunda é a Bybit ou a OKX, cada uma com cerca de 10% a 12%. E o restante está abaixo de 5%.
Mas o que vejo de interessante é que, no nível local, isso pode mudar. Na Tailândia, o maior participante é a Bitkub. E, na Indonésia, o maior participante é a Indodax. Na Turquia, é a BtcTurk.
Então, quando você realmente aproxima o foco, começa a ver o surgimento de participantes locais, porque eles têm a vantagem do licenciamento, da compreensão local, e da localização.
Não importa quão grande sejam Binance ou Bybit, eu não tenho uma equipe de 500 pessoas na Tailândia.
EXAME: Você acha que existe hoje uma narrativa de cripto que está superestimada? E qual seria? E qual você acha que está subestimada agora?
Ben Zhou: Como hoje o mercado está em baixa, não acho que exista nenhum hype. Acho que todo o hype está em inteligência artificial. Talvez a narrativa da IA com cripto. O que sobreviveu ao atual mercado de baixa, são realmente poucas coisas.
Por outro lado, acho que exchanges descentralizadas, como a Hyperliquid, estão mostrando uma forte resiliência e estão subestimadas. Stablecoins também estão mostrando uma forte resiliência ao sair de todo o ciclo.
Enquanto isso, as memecoins praticamente morreram. Elas vão voltar, porque vão continuar surgindo. Aparecendo e desaparecendo, mas não é algo que fará a economia crescer.
Definitivamente, haverá muito mais foco em stablecoins e muito mais foco em exchanges descentralizadas no próximo ciclo. E talvez tokenização de ativos reais, com diferentes classes de ativos.
EXAME: Você mencionou IA e sabemos que pagamentos agênticos estão crescendo e os especialistas dizem que eles são mais eficientes quando usados em uma economia com o trilho de blockchain. Qual é a visão da Bybit sobre isso? A Bybit pretende entrar nesse negócio de pagamentos agênticos?
Ben Zhou: Para nós, como exchange, somos a camada de infraestrutura. Então precisamos garantir que estamos conectados a todos os protocolos nos quais pagamentos agênticos possam acontecer. Acredito firmemente que o futuro do dinheiro é agêntico. Bancos programáveis e exchanges programáveis são o futuro.
EXAME: A Bybit não opera nos Estados Unidos neste momento. Você acha que isso seria possível caso o projeto de lei de regulação de criptoativos, o Clarity Act, fosse aprovado e com toda a regulamentação favorável às criptomoedas que está sendo feita nos Estados Unidos neste momento?
Ben Zhou: Queremos preservar a oportunidade de entrar no futuro. A Bybit, entre todas as exchanges, nunca teve nenhum problema com a regulamentação americana. Temos uma situação limpa. Podemos entrar quando quisermos.
Ao mesmo tempo, você tem Coinbase, Robinhood, Kraken, muitos grandes participantes que já estão lá. Acho que precisamos encontrar um parceiro local e criar uma boa parceria e então entrar dessa maneira. É isso que estamos fazendo e também estamos acompanhando e monitorando.
EXAME: Você está dizendo que já está procurando um parceiro para entrar lá?
Ben Zhou: Estamos procurando sim.
EXAME: O que vocês fazem na Bybit em termos de cibersegurança? Com os ataques hackers gigantescos que aconteceram, isso é uma grande preocupação. E hoje especialmente, porque estamos tendo muitas conversas sobre computação quântica e como ela pode ser prejudicial para o mercado cripto.
Ben Zhou: Acho que o computador quântico vai acontecer e espero que a indústria se reúna e faça uma espécie de votação e provavelmente atualize o protocolo do Bitcoin e o do Ethereum para uma configuração resistente à computação quântica.
Aparentemente, usar um computador quântico para realmente atacar uma carteira de Bitcoin também é muito caro e é algo que somente um Estado poderia iniciar. Pelo menos por enquanto. Mas, se chegarmos ao nível em que alguém com um computador pessoal possa fazer isso, tenho certeza de que a indústria vai se reunir e fazer uma pequena atualização.
Do lado da Bybit, fizemos muito mais medidas de cibersegurança nos últimos dois anos. E uma das perguntas que fizemos a nós mesmos foi: o que podemos fazer para ajudar a indústria? Estamos publicando muitos artigos sobre nossa segurança.Mantivemos um site que iniciamos depois de sofrermos aquele ataque hacker [de US$ 1,5 bilhão] em 2025 para ajudar as vítimas a rastrear os fundos, chamado lazarus.com. E, ao mesmo tempo, internamente estamos tomando muitas medidas para ajudar nossos usuários a evitar serem hackeados.
