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12/08/2026
4 min

C919: o avião chinês que mira Boeing e Airbus entra na disputa global

Aeronave da estatal Comac estreia em rota internacional e busca espaço no mercado dominado por gigantes

C919: o avião chinês que mira Boeing e Airbus entra na disputa global

A China deu um passo importante para desafiar o domínio de Boeing e Airbus no mercado global de aviação. O C919, avião comercial desenvolvido pela estatal Commercial Aircraft Corporation of China (Comac), realizou seu primeiro voo internacional regular nesta quarta-feira, 12.

A operação da Air China foi entre Pequim e Ulan Bator, na Mongólia. A aeronave tem capacidade para até 174 passageiros e disputa o mesmo segmento de mercado de modelos como o 737 MAX, da Boeing, e o A320neo, da Airbus. A rota será operada diariamente.

A expansão internacional é, porém, uma aposta de longo prazo. A fabricante enfrenta limitações de produção, depende de fornecedores estrangeiros e ainda não obteve certificação dos principais reguladores de aviação dos Estados Unidos e da Europa. As informações são da CNBC.

C919 ainda depende de tecnologia estrangeira

Apesar de ser apresentado como símbolo da indústria aeronáutica chinesa, o C919 não é 100% produzido no país. Ela "ainda depende fortemente de fornecedores estrangeiros", na avaliação do analista do Mercator Institute for China Studies (Merics), Andreas Mischer, à CNBC.

Um dos principais componentes vem de empresas ocidentais. Os motores do C919 são fabricados pela CFM International, parceria entre a americana GE Aerospace e a francesa Safran Aircraft Engines.

A dependência externa é um dos obstáculos para a estratégia de Pequim de construir uma indústria aeronáutica capaz de competir globalmente. Para Mischer, a Comac também ficou abaixo da meta do programa "Fabricado na China 2025" (Made in China 2025), de conquistar 10% do mercado doméstico de grandes aeronaves de passageiros.

Ainda assim, a fabricante vem ampliando sua exposição internacional. O C919 e o C909, modelo menor da companhia, fizeram sua estreia no Dubai Airshow em novembro de 2025, quando a Comac afirmou que pretendia aprofundar relações com a indústria global de aviação.

Produção é o principal desafio

Apesar dos novos passos, as companhias aéreas chinesas continuam dependendo de Boeing e Airbus. Em maio, por exemplo, a China confirmou uma encomenda de 200 aviões da Boeing, além de motores e peças de reposição.

Mischer estima que a Comac havia entregue apenas 32 C919 até o fim de 2025. No mesmo ano, a Airbus entregou cerca de 100 aeronaves de fuselagem estreita apenas para clientes na China. No primeiro semestre de 2026, a Comac entregou outras oito unidades do C919.

A fabricante pretende chegar a uma produção de 200 aeronaves por ano até 2029. Só que a empresa ainda está "muito longe" dessa meta, de acordo com o analista do Mercator Institute for China Studies.

O que isso significa para Boeing e Airbus

O mercado de aeronaves comerciais não depende apenas da venda inicial do avião. As companhias aéreas precisam de uma fabricante capaz de fornecer peças, manutenção e suporte durante toda a vida útil da aeronave.

Analista de aviação aposentado, Rob Morris vê que o ritmo de desenvolvimento e produção da Comac ainda é lento demais para permitir uma competição efetiva com Boeing e Airbus.

O C919 pode, na sua visão, afetar as vendas das duas fabricantes na China, mas o impacto deve levar tempo para aparecer. A razão é que a Comac ainda precisa conquistar a confiança de companhias aéreas e passageiros.

Além de fabricar e entregar os aviões, a empresa terá de demonstrar que consegue manter uma estrutura de suporte ininterrupta, garantindo níveis de confiabilidade comparáveis aos de modelos já consolidados como o A320 e o 737.

Cadeia de suprimentos adiciona risco

Outro desafio está na complexidade da produção. A fabricação de aviões envolve milhares de componentes e uma cadeia de fornecedores espalhada por diferentes níveis. O diretor da consultoria AeroDynamic Advisory, Richard Aboulafia, relatou que, se faltar um componente pequeno, a aeronave pode deixar de ser entregue.

Os gargalos podem atingir desde motores e partes da fuselagem até peças fundidas, forjadas e elementos de fixação. Para Mischer, a Comac precisará fortalecer sua cadeia de fornecedores, aumentar significativamente a capacidade produtiva e ganhar escala para se igualar às competidoras.

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
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