C&A tem lucro recorde de R$ 130 milhões no 2º tri, mas Copa do Mundo freia vendas
Receita de vestuário da varejista cresceu 5,6%, enquanto SSS desacelerou para 4,1% no trimestre

A C&A (CEAB3) encerrou o 2° trimestre de 2026 com o maior lucro líquido ajustado já registrado para o período, impulsionada pelo avanço das vendas de vestuário, pela aceleração do comércio eletrônico e pela melhora das operações financeiras. Ainda assim, a varejista avalia que a Copa do Mundo reduziu o fluxo de consumidores nas lojas, especialmente em shopping centers, e impediu que os resultados fossem ainda mais robustos.
Entre abril e junho, olucro líquido ajustado, que desconsidera efeitos não recorrentes, como ganhos ou despesas extraordinárias registrados apenas naquele período somou R$ 130,1 milhões, uma alta de 4,3% em relação ao mesmo período do ano passado e recorde para um segundo trimestre de acordo com balanço divulgado na noite desta terça-feira, 4.
Com o resultado, o lucro líquido ajustado encerrou o primeiro semestre da varejista em R$ 138,1 milhões, o que representa um avanço de 8,5% sobre os R$ 127,3% do mesmo período de 2025.A margem líquida ajustada no trimestre avançou de 6,1% para 6,2% na comparação trimestre contra trimestre, e de 3,5% para 3,7% nos seis primeiros meses do ano passado para esse.
Já a receita líquida consolidada cresceu 1,2%, para R$ 2,08 bilhões. Oprincipal motor continuou sendo o vestuário, cuja receita avançou 5,6%, para R$ 1,89 bilhão, sustentada por coleções de inverno, campanhas sazonais e maior rentabilidade.
Segundo o CEO da companhia, Paulo Correa, a empresa também registrou uma margem bruta recorde na divisão de roupas, de 59,1%.
"Considerando o fator Copa do Mundo, tivemos um bom trimestre. O período da Copa prejudicou o fluxo nas lojas dos shopping centers, mas conseguimos compensar parte desse impacto com uma coleção de inverno muito forte e um bom desempenho no Dia das Mães e no Dia dos Namorados", disse o executivo à EXAME.
O efeito Copa: margens pressionadas e desaceleração do SSS
Apesar do lucro recorde, o balanço mostrou sinais de desaceleração operacional. O Ebitda ajustado caiu 0,6%, para R$ 435,9 milhões, enquanto a margem Ebitda recuou 0,4 ponto percentual, para 20,9%. Segundo a companhia, o resultado foi pressionado pela desmobilização da operação de telefonia e pelo encerramento da parceria com o Bradescard.
O indicador de vendas mesmas lojas da companhia (SSS, na sigla em inglês), aquele que mede o desempenho de vendas em lojas ativos há mais de 13 meses, também indicou uma perda de ritmo. Entre abril, maio e junho, o SSS de vestuário ficou em 4,1% queda de 12,9 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2025, quando o indicador fechou em 17%.
No semestre, o SSS da C&A também caiu de 16,1%, no ano passado, para 4,4% entre janeiro e junho. O indicador de mercadorias de maneira geral também recuou para 0,4% nesse segundo trimestre ante 15% no 2° trimestre do ano passado. Em relação ao primeiro semestre, o SSS ficou em 0,6% nos primeiros meses deste ano, sendo que, em 2025, ele estava em 14,1%.
Embora a empresa não veja deterioração estrutural da demanda, Correa destaca que a Copa do Mundo afetou diretamente a circulação de consumidores.
"Essa é a minha sexta Copa do Mundo na C&A. Historicamente, sempre há queda de fluxo nos dias de jogos do Brasil. Desta vez, os horários das partidas coincidiram com o funcionamento dos shoppings, havia mais jogos, mais seleções e a Copa estava no celular de todo mundo. Isso reduziu ainda mais o fluxo", afirmou.
O executivo aponta que o comportamento fica evidente ao comparar o período antes, durante e depois da competição. "O fluxo pré-Copa e pós-Copa voltou ao normal. Foi o período da Copa que ficou abaixo do esperado. Se não fosse isso, certamente teríamos um resultado ainda melhor".
O CEO também ressalta que a comparação precisa levar em conta uma base elevada. No segundo trimestre do ano passado, as vendas de vestuário haviam crescido 17%. Neste ano, o avanço foi de 5,6%, o que representa um crescimento acumulado próximo de 24% em dois anos.
Além da desaceleração das vendas em mesmas lojas, outras categorias também tiveram desempenho mais fraco, como eletrônicos e beleza, reduzindo parte do impulso proporcionado pelo vestuário. De acordo com o balanço, o segmento teve uma redução de 37,1% na receita, impactado pelo fim da venda de celulares, mudanças tributárias em produtos de beleza em São Paulo e um cenário setorial com menos lançamentos.
Vendas online avançam na C&A
Por outro lado, um destaque positivo do 2° trimestre da varejista foi o digital. As vendas online cresceram mais de 33% na comparação anual e passaram a responder por quase 8% da receita da companhia.
Na visão de Correa, a evolução reflete investimentos em inteligência artificial, personalização da jornada do cliente e ferramentas como o assistente virtual de compras ("personal shopper"), que têm elevado a taxa de conversão do e-commerce.
"O online vem apresentando uma performance cada vez mais forte desde o início do ano. A combinação de mais tráfego e maior taxa de conversão trouxe um impacto muito relevante para o trimestre", afirmou.
Caixa menor, mas dívida continua caindo
No segundo trimestre deste ano a C&A também registrou queda da geração de caixa. O fluxo de caixa livre ajustado recuou 65,6%, para R$ 63,6 milhões, enquanto o caixa operacional caiu 44,5%, para R$ 148,8 milhões.
Segundo a companhia, o movimento decorre do maior consumo de capital de giro, após reforço dos estoques para a coleção de inverno e preparação para a expansão da rede.
Correa afirma que o resultado também sofre influência de uma base de comparação atípica. No ano passado, a companhia encerrou o inverno com estoques muito baixos e ainda operava o negócio de telefonia, cujo giro era mais acelerado.
"Nos preparamos de forma mais robusta para o inverno deste ano e também esperava um segundo trimestre mais forte. Talvez não tivéssemos dimensão do impacto que a Copa teria sobre o fluxo nas lojas", disse.
Apesar disso, a posição financeira continuou evoluindo. A dívida líquida caiu 40,6% em um ano, para R$ 170,2 milhões, enquanto a dívida bruta recuou 26,2%, para R$ 952,2 milhões. Com isso, a alavancagem caiu de 0,3 vez para 0,2 vez o EBITDA.
Para o restante do ano, a companhia mantém uma visão otimista. A estratégia passa pela reforma de 20 lojas para o novo conceito "Energia", abertura de mais dez unidades, expansão do e-commerce e reforço dos investimentos em marketing durante as comemorações dos 50 anos da marca.
