Café brasileiro muda o tom: safra maior começa a esfriar preços após alta
Clima favorável melhora perspectiva de oferta, enquanto mercado reduz preocupação com falta de grãos após dois ciclos apertados, diz Rabobank

RESUMO | Os preços futuros do café arábica e robusta recuaram em agosto de 2026, enquanto o mercado passou a projetar recuperação da oferta brasileira na safra 2027/28, segundo o Rabobank. Chuvas maiores favoreceram as lavouras, e as exportações brasileiras atingiram recorde para agosto, embora a oferta de curto prazo ainda permaneça ajustada.
O mercado de café começou a rever as expectativas para os próximos meses diante dos sinais de recuperação da oferta brasileira na safra 2027/28. Após duas temporadas marcadas por problemas climáticos e menor disponibilidade de grãos, a melhora das condições das lavouras já influencia os preços futuros, que passaram por uma correção em agosto após atingirem níveis elevados, segundo o Rabobank.
No mês passado, o contrato de café arábica chegou próximo de 342 centavos de dólar por libra-peso, mas encerrou agosto em 311,50 centavos, queda de aproximadamente 8,8% em relação à máxima mensal.
No robusta, o movimento foi ainda mais intenso. As cotações recuaram de uma máxima próxima de US$ 3.884 por tonelada para US$ 3.529 por tonelada, uma queda de cerca de 9,1%.
Para Claudio Delposte, analista do Rabobank, a correção refletiu uma realização de lucros e uma redução das preocupações do mercado com a oferta de café. Segundo ele, a melhora das perspectivas de abastecimento contribuiu para aliviar parte da pressão que sustentava os preços.
Ao mesmo tempo, o analista avalia que o Brasil pode entrar em um novo ciclo de produção. “Com as condições climáticas favoráveis observadas até o momento, as expectativas para a safra 2027/28 permanecem positivas, com boa formação de frutos e desenvolvimento inicial da próxima produção”, afirma o analista.
A melhora no cenário ocorre após duas safras globais pressionadas por problemas climáticos. Brasil e Vietnã, dois dos maiores produtores mundiais, enfrentaram quedas de produção em meio a condições adversas nas lavouras.
Clima e café
A formação da safra2027/28 começa em um ambiente mais favorável para os cafezais brasileiros. No arábica, algumas regiões produtoras já registram as primeiras floradas, enquanto no conilon a floração já ocorreu e o pegamento foi considerado satisfatório.
A florada é uma das etapas mais importantes do ciclo do café, pois marca o início da fase reprodutiva da planta e influencia diretamente a formação dos frutos que serão colhidos no ciclo seguinte.
Na safra 2026/27, o cenário já apresentou uma melhora em relação aos ciclos anteriores. A expectativa de produção brasileira voltou a subir, com estimativas de mercado indicando um volume entre 73,3 milhões e 77,2 milhões de sacas de 60 kg.
O clima foi um dos principais fatores por trás dessa mudança de percepção. Entre setembro de 2025 e agosto de 2026, diversas regiões produtoras registraram volumes de chuva superiores aos observados no ciclo anterior.
Em Guaxupé (MG), a precipitação ficou 39,6% acima da safra passada. Em Manhuaçu (MG), o aumento foi de 24,4%; em Brejetuba (ES), de 23,2%; e em Linhares (ES), de 19%.
Segundo Delposte, essas condições favoreceram a reposição da umidade do solo, reduziram o estresse hídrico das plantas e contribuíram para o desenvolvimento vegetativo dos cafezais, etapa importante para a produção do próximo ciclo.
Na avaliação do Rabobank, o mercado começa a deixar de olhar apenas para o risco de falta de café e passa a acompanhar o potencial de recuperação da oferta brasileira.
Exportações de café
Apesar da expectativa de melhora da produção, a oferta disponível no curto prazo ainda segue ajustada. O comportamento das exportações brasileiras mostra que os produtores mantiveram uma postura mais cautelosa ao longo de boa parte do ano.
O Brasil exportou 3,03 milhões de sacas de café em julho de 2026, volume praticamente estável em relação ao mês anterior e 10% superior ao registrado em julho de 2025. No acumulado de janeiro a julho, porém, os embarques somaram 20,7 milhões de sacas, queda de 6,4% na comparação com o mesmo período do ano passado.
Segundo o Rabobank, parte desse desempenho pode ser explicada pela decisão dos produtores de segurar vendas. "Parte desse desempenho pode ser explicada pela postura mais cautelosa dos produtores, que seguem retendo estoques diante dos preços e da baixa liquidez observada no mercado físico", afirma o relatório.
Esse cenário, no entanto, começou a mudar com a entrada de uma maior disponibilidade de café da nova safra. Em agosto, as exportações brasileiras registraram o melhor desempenho da história para o mês, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).
Foram embarcados 4,155 milhões de sacas de 60 kg de todos os tipos de café, volume 31% superior ao registrado em agosto de 2025. A receita cambial alcançou US$ 1,331 bilhão, alta de 19,8% na comparação anual, também o maior valor já registrado para o mês.
Segundo Márcio Ferreira, presidente do Cecafé, o resultado foi impulsionado pela maior disponibilidade de cafés arábicas da atual safra e, principalmente, pelo avanço dos embarques de cafés conilon e robusta, que registraram o melhor desempenho para meses de agosto.
"Esse movimento reforça a evolução da qualidade dos cafés canéforas brasileiros, que passam a ganhar mais espaço no mercado global", afirma.
A combinação dos dados mostra um mercado em transição: enquanto os produtores mantiveram uma postura mais restritiva no início do ano, a entrada da nova safra começa a ampliar a disponibilidade para exportação.
Para os próximos meses, o principal indicador acompanhado pelos agentes do mercado será a evolução da safra 2027/28 diante de um El Niño no radar, que deve chegar ainda este mês. A confirmação de uma produção maior pode aliviar a pressão sobre os preços, que nos últimos ciclos foram sustentados por preocupações com a oferta.
Por que o preço do café caiu em agosto de 2026?
A queda refletiu uma realização de lucros e a redução das preocupações com a oferta de café, segundo Claudio Delposte, analista do Rabobank. A melhora das perspectivas de abastecimento ajudou a aliviar a pressão sobre os preços.
Quanto caíram as cotações do café arábica e robusta?
O arábica encerrou agosto em 311,50 centavos de dólar por libra-peso, cerca de 8,8% abaixo da máxima mensal próxima de 342 centavos. O robusta caiu aproximadamente 9,1%, de quase US$ 3.884 para US$ 3.529 por tonelada.
Qual é a expectativa para a safra brasileira de café 2027/28?
As perspectivas para a safra 2027/28 são positivas, segundo Claudio Delposte, analista do Rabobank. As condições climáticas favoráveis contribuíram para a boa formação de frutos e o desenvolvimento inicial da próxima produção.
Quanto o Brasil pode produzir de café na safra 2026/27?
A produção brasileira pode ficar entre 73,3 milhões e 77,2 milhões de sacas de 60 kg na safra 2026/27, conforme estimativas de mercado citadas na matéria.
Como as chuvas favoreceram os cafezais brasileiros?
Segundo Claudio Delposte, as chuvas ajudaram a repor a umidade do solo, reduziram o estresse hídrico e favoreceram o desenvolvimento vegetativo dos cafezais. Entre setembro de 2025 e agosto de 2026, a precipitação aumentou 39,6% em Guaxupé, 24,4% em Manhuaçu, 23,2% em Brejetuba e 19% em Linhares ante o ciclo anterior.
Quanto o Brasil exportou de café em agosto de 2026?
O Brasil exportou 4,155 milhões de sacas de 60 kg em agosto de 2026, recorde para o mês e alta anual de 31%, segundo o Cecafé. A receita cambial alcançou US$ 1,331 bilhão, avanço de 19,8% e também o maior valor já registrado para agosto.
