Café, carne e peças de aeronave: por que Trump poupou esses produtos do tarifaço

O novo tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump atingirá cerca de 3 mil produtos brasileiros, segundo a Amcham, mas alguns setores ficaram de fora das novas sobretaxas. Entre os beneficiados estão café, carne bovina e aeronaves da Embraer.
Na avaliação de Vinícius Vieira, professor de Relações Internacionais da FAAP e da FGV, as exceções não representam uma concessão ao Brasil, mas refletem os interesses da própria indústria americana. São produtos que abastecem cadeias produtivas nos Estados Unidos ou passam por processos de transformação que geram valor e empregos no país.
"O critério é o interesse americano. São produtos que o Brasil exporta e que depois passam por etapas de transformação ou agregação de valor nos Estados Unidos. Tarifá-los significaria prejudicar empresas e consumidores americanos", afirma Vieira.
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Café e carne interessam aos EUA
O café é um dos exemplos mais claros dessa lógica.
Segundo Vieira, embora o Brasil exporte o grão, a maior parte do valor econômico é gerada nos Estados Unidos, onde empresas fazem torrefação, blends, distribuição e comercialização.
"Há estimativas de que, para cada dólar exportado pelo Brasil em café, a economia americana agregue dezenas de dólares em valor ao longo da cadeia, desde a indústria até cafeterias como a Starbucks", afirma.
O mesmo raciocínio vale para a carne bovina. Para o professor, o setor dificilmente ampliará sua participação no mercado americano, mas tende a preservar o espaço conquistado.
"A carne deve, no mínimo, manter sua participação. O desempenho também dependerá das tarifas aplicadas a concorrentes, como a Austrália."
Café: Há estimativas de que, para cada dólar exportado pelo Brasil em café, a economia americana agregue dezenas de dólares em valor ao longo da cadeia, segundo professor da FAAP (Carl de Souza/AFP/Getty Images)
Embraer também foi preservada
Outro caso emblemático é o da Embraer.
Segundo Vieira, a fabricante brasileira ocupa posição estratégica porque depende de componentes produzidos nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, abastece o mercado americano com aeronaves prontas.
"A Embraer importa peças dos Estados Unidos, monta os aviões no Brasil e vende de volta principalmente jatos regionais e executivos, segmento no qual é líder mundial."
Na avaliação do especialista, criar barreiras para esse fluxo acabaria afetando empresas americanas que fazem parte da cadeia de fornecimento da fabricante.
Fábrica da EMBRAER em São Jose dos Campos - SP (Leandro Fonseca/Exame)
Quem perde com o tarifaço
Enquanto alguns setores escaparam das novas tarifas, outros devem sentir um impacto mais intenso.
Vieira destaca que produtos como madeira, açúcar, aço e alumínio estão entre os mais prejudicados, seja porque competem diretamente com produtores americanos ou porque já eram alvo de tarifas específicas impostas anteriormente.
"O governo Trump mantém uma política bastante protecionista para setores considerados estratégicos, como metais e produtos florestais."
Uma exceção nesse cenário é a Gerdau. Embora seja uma empresa brasileira, a siderúrgica possui uma ampla operação industrial nos Estados Unidos, onde produz boa parte do aço que abastece o mercado local. Por isso, tende a sofrer menos os impactos das novas tarifas de importação.
“Nos EUA a indústria é defendida de fato”, disse Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, em entrevista à EXAME para o podcast “De frente com CEO”.
Fábrica de vergalhões da Gerdau, em Sapucaia do Sul/RS (Tamires Kopp/Exame)
Madeira e açúcar terão de procurar novos mercados
Para os setores atingidos, a alternativa passa pela diversificação dos destinos das exportações.
Na avaliação de Vieira, o acordo entre Mercosul e União Europeia abre uma oportunidade para ampliar vendas ao bloco europeu, além de mercados emergentes com crescimento da classe média.
"Madeira e açúcar terão de buscar novos mercados. A União Europeia é um caminho natural, assim como países emergentes que apresentam aumento do consumo e demanda crescente por esses produtos."
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Empresas brasileiras podem ganhar competitividade
Apesar das perdas em alguns segmentos, Vieira avalia que empresas cujos produtos ficaram fora do tarifaço podem até fortalecer sua posição internacional.
Isso porque continuam tendo acesso ao mercado americano sem enfrentar as novas barreiras impostas a outros produtos.
"As empresas brasileiras que foram preservadas podem manter ou até ampliar sua competitividade em relação a alguns concorrentes internacionais, justamente porque seus produtos continuam entrando normalmente nos Estados Unidos."
A as exceções, de acordo com Vieira, mostram que, mesmo em uma política comercial mais agressiva, Washington continua preservando setores considerados importantes para sua própria economia e para o funcionamento de cadeias produtivas estratégicas.
Entenda o anúncio das duas tarifas
O endurecimento das medidas comerciais dos Estados Unidos ocorreu em duas etapas. Primeiro, em 15 de julho, o governo americano anunciou uma sobretaxa de 25% sobre cerca de 3 mil produtos brasileiros, segundo a Amcham, como resultado de uma investigação conduzida com base na Seção 301 sobre práticas comerciais do Brasil. A medida entrou em vigor em 22 de julho e, segundo a Amcham Brasil, afeta mais de US$ 11 bilhões em exportações dos setores industrial e do agronegócio, colocando o Brasil entre os países com condições mais restritivas para acessar o mercado americano.
Poucos dias depois, em 23 de julho, Washington anunciou uma nova sobretaxa de 12,5% sobre parte dessas importações, desta vez como resultado de outra investigação da Seção 301 relacionada ao suposto uso de trabalho forçado na produção de determinados bens. A nova cobrança passou a valer em 24 de julho e alcança cerca de 3 mil produtos brasileiros, equivalentes a US$ 12,5 bilhões em exportações anuais para os Estados Unidos.
Segundo a Amcham Brasil, para 85,3% dessas vendas — o equivalente a US$ 10,7 bilhões — as duas tarifas são cumulativas, elevando a tributação total para 37,5%, um dos maiores níveis aplicados pelos Estados Unidos a parceiros comerciais.
Na avaliação da entidade, as medidas reduzem a competitividade dos produtos brasileiros, encarecem custos para empresas e consumidores americanos, pressionam cadeias produtivas integradas entre os dois países e podem desestimular novos investimentos bilaterais. Além disso, aprofundam a retração do comércio entre Brasil e Estados Unidos, que já registra queda de 13% neste ano.
"A reversão desse cenário passa necessariamente pela retomada das negociações entre os dois governos. O entendimento bilateral é o caminho mais eficaz para atender aos interesses de ambos os lados", afirma Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.
