Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOLCMDT
10/09/2026
8 min

Cafeteria sem funcionários: russo traz ao Brasil franquia de R$ 80 mil e quer abrir 600 lojas

Rede já tem 15 unidades em operação e mais de 35 em implantação; na Europa, Sergey Degtyarev abriu mais de 20 mil operações

Cafeteria sem funcionários: russo traz ao Brasil franquia de R$ 80 mil e quer abrir 600 lojas

Em 2022, Sergey Degtyarev encerrou um capítulo que havia começado apenas três anos antes. O empresário russo tinha ajudado a tirar do zero uma rede de cafeterias autônomas que se espalhava rapidamente pela Europa, e que chegou a ter mais de 20 mil pontos.

Após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, o projeto foi vendido. Sergey saiu do negócio, mas não abandonou a ideia.

Quatro anos depois, ele tenta repetir a fórmula a mais de 10 mil quilômetros dali.

O empresário escolheu o Brasil para lançar a Capipoint Coffee Business, uma rede de cafeterias que funciona sem barista, caixa ou gerente. O cliente escolhe a bebida, paga e recebe o café na própria máquina. O restante da operação pode ser acompanhado à distância.

A aposta começa pequena diante do tamanho do plano. A Capipoint tem cerca de 15 unidades em funcionamento e mais de 35 em implantação.

Até o fim de 2026, Sergey pretende chegar a 600 quiosques espalhados pelo Brasil. Cada unidade exige investimento a partir de 80 mil reais.

“O modelo não exige dedicação integral de tempo e pode ser introduzido junto com outro negócio ou do trabalho principal do investidor”, diz Sergey, em entrevista à EXAME.

Segundo ele, quem opera de uma a três unidades pode tocar o negócio sem funcionários. Em uma rede de 20 a 30 pontos, a conta prevista é de um funcionário para cuidar dos quiosques.

E 600 é apenas a primeira escala dessa aposta. O grupo planeja instalar 7 mil cafeterias autônomas na América Latina em três anos e chegar a 30 mil em cinco.

Para isso, terá de provar que uma experiência associada a balcão, barista e atendimento também pode funcionar quando praticamente não há ninguém do outro lado.

Da Rússia ao Brasil: qual a história de Sergey

Sergey trabalha com franquias na Rússia desde 2012. Ao longo desse período, participou do desenvolvimento de redes próprias e de parceiros em diferentes setores. Uma delas chegou a 55 países.

A experiência com café começou em 2019. Naquele ano, ele participou da criação, do zero, de um modelo de cafeterias autônomas. Em três anos, a operação passou de 5 mil pontos.

O negócio foi vendido em 2022, após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, e continuou crescendo até superar 20 mil unidades na Europa.

Foi essa experiência que Sergey decidiu transportar para o Brasil.

A Capipoint começou a instalar seus primeiros quiosques entre março e abril de 2026 e passou a trabalhar com franqueados a partir de maio. Em cerca de três meses, segundo a empresa, chegou a 15 pontos instalados e mais de 35 em implantação, em todo o país.

“A gente já tem essa expertise. Por isso, estamos falando do Brasil todo”, diz Sergey.

A escolha do país tem uma lógica evidente.

O café faz parte do consumo diário do brasileiro, enquanto modelos de autosserviço já avançaram em outros negócios. Lavanderias sem atendentes, minimercados de condomínio e vending machines, máquinas automáticas de venda, ajudaram o consumidor a se acostumar a comprar sem falar com ninguém.

Segundo levantamento da Opinion Box em parceria com a Payface citado pela empresa, 64% dos brasileiros já usaram algum tipo de autoatendimento no varejo físico. Entre eles, 85% avaliaram a experiência de forma positiva.

O passo que Sergey tenta dar agora é outro: transformar essa familiaridade com o autosserviço em uma cafeteria.

Mas isso é uma cafeteria ou uma máquina de café?

Essa talvez seja a principal pergunta que a Capipoint terá de responder para crescer.

Uma máquina de café em um escritório não é novidade. Uma cafeteria sem funcionário, porém, tenta ocupar outro espaço na cabeça do consumidor.

A empresa aposta justamente nessa distinção. As máquinas moem os grãos na hora e oferecem mais de 15 opções de bebidas em três tamanhos. O cardápio inclui cafés, cappuccinos, mocaccinos, chocolate quente e bebidas que podem receber xaropes.

“O que nos diferencia primeiramente é a qualidade do café”, diz Sergey. “A qualidade não depende somente do próprio café, do grão.”

A Capipoint afirma que as receitas foram desenvolvidas por baristas, profissionais especializados no preparo de café, e tenta se posicionar mais perto de uma cafeteria do que de uma vending machine.

Esse discurso esbarra em uma associação que a própria empresa reconhece: para parte do público, café feito por máquina ainda é sinônimo de produto inferior.

“Existe uma percepção de que café em máquina significa baixa qualidade. Nosso desafio é justamente mostrar que a automação não elimina a experiência”, afirma Irina Rybina, diretora de Desenvolvimento da Capipoint Coffee Business no Brasil.

É um obstáculo importante. Tirar os funcionários reduz uma parte relevante da estrutura de uma cafeteria, mas também elimina justamente a figura que costuma representar esse tipo de negócio, o barista atrás do balcão.

Como funciona uma cafeteria sem funcionários

Na prática, o cliente chega ao quiosque, escolhe a bebida, faz o pagamento e retira o café sem precisar de atendimento.

Do outro lado, o franqueado acompanha a operação por uma plataforma. O sistema mostra o desempenho da máquina, indica quando os insumos precisam ser repostos e emite alertas em caso de problemas técnicos.

Em alguns pontos, segundo a empresa, o responsável pode comparecer apenas uma vez por semana para reposição e manutenção.

A lógica muda quando o investidor acumula mais unidades.

“Se o investidor tem de uma a três unidades, não precisa de funcionários. Caso queira criar uma rede de 20 a 30, precisa de um funcionário para 20 ou 30 quiosques”, diz Sergey.

Locais de maior circulação também podem receber câmeras com inteligência artificial para acompanhar a operação e reduzir problemas como vandalismo.

A ausência de uma equipe fixa é uma das principais armas comerciais da franquia. Uma cafeteria tradicional precisa combinar atendimento, caixa, preparo das bebidas, limpeza e gestão do ponto. No modelo de Sergey, boa parte desse trabalho é concentrada na máquina e no monitoramento remoto.

A empresa também tenta aproveitar outro problema do varejo: a contratação.

Segundo a Pesquisa Global de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, citada pela Capipoint, 80% das empresas brasileiras dizem encontrar dificuldade para preencher vagas. A média global é de 72%.

Para a franquia, quanto mais difícil e caro fica manter uma equipe presencial, maior é o espaço para vender um negócio que promete operar com pouca mão de obra.

Quanto custa abrir uma Capipoint

O investimento informado pela empresa é de 80 mil reais para pagamento à vista. No parcelamento, o valor total sobe para 95 mil reais.

O formato também reduz uma das barreiras mais conhecidas de quem tenta abrir uma cafeteria, encontrar um imóvel. Sergey argumenta que um quiosque precisa de menos espaço e consegue entrar em ambientes onde uma loja convencional dificilmente caberia.

“Se você está procurando abrir uma cafeteria padrão em São Paulo, vai ter várias milhares de pessoas procurando aquele mesmo local para outros negócios”, diz.

Hoje, a rede busca pontos em universidades, academias, supermercados e clínicas. Também vê espaço em hospitais, centros empresariais, aeroportos, estações de transporte, cartórios e shopping centers.

A empresa afirma que pretende instalar unidades no metrô e desenvolve um protótipo específico para esse tipo de operação.

O modelo é pensado para o chamado coffee to go, café comprado para consumo durante o deslocamento, em vez da permanência dentro da loja.

Essa característica ajuda a explicar por que a Capipoint não está tentando competir diretamente com uma cafeteria de bairro em todos os seus usos. A tese funciona melhor nos lugares em que o consumidor quer café rápido e onde manter uma loja completa pode não fechar a conta.

Qual é o plano de expansão

O tamanho da ambição, porém, coloca pressão sobre a execução. A empresa saiu de cerca de 15 quiosques em funcionamento para uma meta de 600 até o fim de 2026. É uma multiplicação de 40 vezes em poucos meses.

Há mais de 35 unidades em implantação, mas ainda existe uma distância grande entre o estágio atual e o objetivo anunciado.

Para chegar lá, a companhia decidiu não limitar a expansão a São Paulo ou ao Sudeste. “O plano é o Brasil todo”, diz Sergey.

A franqueadora também terá de encontrar centenas de pontos, instalar as máquinas, abastecer a rede e manter o padrão do café à medida que a distância entre as unidades aumenta.

Há ainda um desafio comercial. O formato precisa convencer dois públicos ao mesmo tempo. O primeiro é o consumidor, que precisa aceitar uma cafeteria sem atendente.

O segundo é o franqueado, que precisa acreditar que a economia com funcionários e aluguel compensa o risco de investir em uma categoria ainda pouco conhecida no país.

Qual é o plano de longo prazo

Se 600 unidades já parecem uma meta agressiva, Sergey trabalha com números maiores para a etapa seguinte. O objetivo declarado é chegar a 7 mil quiosques na América Latina em três anos e a 30 mil em cinco.

A empresa também projeta ultrapassar 5 milhões de reais em faturamento mensal da rede até o fim de 2026. Para preparar a entrada no Brasil, a Franch.Global, empresa responsável pela Capipoint em que Sergey é CEO, diz ter investido cerca de 500 mil dólares.

A partir daqui, o crescimento dependerá menos da história que Sergey construiu na Europa e mais da capacidade de repetir a fórmula em um mercado diferente.

A tecnologia resolve parte da equação. Ela reduz funcionários, permite monitoramento à distância e coloca uma cafeteria onde uma loja tradicional talvez não coubesse. A outra parte continua sendo decidida pelo consumidor.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
Distribuído por