Camil ainda não virou o jogo — mas alta do arroz pode mudar o cenário
Após queda de 7,2% na receita e de 12,5% no EBITDA no 2º tri, BTG vê potencial de recuperação com alta do arroz e controle de despesas da companhia

RESUMO +
A Camil ainda enfrenta dificuldades financeiras, mas o BTG Pactual identifica sinais de recuperação para os próximos trimestres. A melhora dos preços do arroz, o controle de despesas e uma eventual queda dos juros podem favorecer os resultados da companhia. No segundo trimestre fiscal de 2026, a receita caiu 7,2%, para R$ 2,765 bilhões, enquanto o lucro líquido recuou 47,8%, para R$ 41 milhões. O banco mantém recomendação de compra para as ações, com preço-alvo de R$ 9 e potencial de valorização de aproximadamente 27%.
A Camil ainda não entregou a virada que os investidores esperam. Mas, para o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), algumas das peças necessárias para que isso aconteça começaram a se encaixar. Depois de trimestres pressionados por preços mais baixos do arroz, juros elevados e despesas acima das expectativas, a companhia começa a apresentar sinais de melhora, embora os resultados ainda não mostrem uma recuperação consolidada.
“Alguns desses ventos contrários estão começando a perder força”, escrevem os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, do BTG Pactual, em relatório publicado nesta sexta-feira, 9.
Na leitura do banco, a recuperação dos preços do arroz, a redução sequencial das despesas e uma eventual queda dos juros podem mudar a dinâmica dos resultados da Camil nos próximos trimestres.
O desafio é que essa melhora ainda não apareceu de forma consistente no balanço. No segundo trimestre do ano fiscal de 2026, a companhia registrou receita líquida de R$ 2,765 bilhões, queda de 7,2% na comparação anual e resultado 7,6% inferior aos R$ 2,992 bilhões projetados pelo BTG.
O EBITDA ajustado também decepcionou, com recuo de 12,5%, para R$ 212 milhões, ficando 5,5% abaixo da estimativa do banco. A margem, por outro lado, alcançou 7,7%, levemente acima dos 7,5% esperados.
Para os analistas, porém, o ponto de atenção está menos no trimestre que passou e mais no que pode acontecer daqui para a frente. É por trás dos números ainda irregulares que o BTG identifica os primeiros sinais de uma possível virada.
Preços do arroz
Durante os últimos trimestres, um dos principais problemas para a Camil esteve justamente no produto que ajudou a construir sua marca.
Segundo o BTG, os preços do arroz chegaram aos menores níveis em mais de cinco anos, reduzindo o espaço para reajustes e pressionando a rentabilidade da companhia. A queda ocorreu em razão do excesso de oferta da commodity no Brasil.
A produção brasileira de arroz na safra 2024/25 alcançou 12,8 milhões de toneladas, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Agora, esse cenário começou a mudar.
A recuperação dos preços da commodity, entretanto, ainda não apareceu de maneira relevante nos valores praticados pela empresa. No segmento brasileiro de alto giro, os preços médios avançaram apenas 1% em relação ao trimestre anterior, segundo a análise do banco.
Os volumes dessa operação recuaram 4,6% na comparação anual, para 336 mil toneladas. O número, porém, esconde uma distorção: no mesmo período do ano passado, a Camil havia exportado 41 mil toneladas de açúcar em uma operação pontual.
Quando esse efeito é retirado da comparação, o BTG estima que os volumes tenham crescido cerca de 8% em relação ao ano anterior.
Os produtos de maior valor agregado também ganharam espaço. O volume dessa divisão aumentou 14,1%, enquanto sua receita avançou 36,9% na comparação anual, indicando um desempenho mais favorável fora das categorias tradicionais.
Do lado negativo, o negócio internacional continuou pressionado. Os volumes recuaram 8,3%, sobretudo pelo desempenho do Uruguai, enquanto a receita internacional caiu 25,1%.
Para o BTG, a recuperação recente dos preços do arroz ainda precisa percorrer o caminho entre o mercado da commodity e as prateleiras. A expectativa é de que esse movimento comece a aparecer nos resultados a partir do terceiro trimestre fiscal de 2026.
É justamente esse intervalo entre a melhora do cenário e sua chegada ao balanço que sustenta a tese mais otimista do banco.
“Grande parte dessa melhora ainda não se materializou nos resultados”, afirmam os analistas.
Se os preços do arroz ainda não se traduziram em uma recuperação mais forte das receitas, outra frente começa a mostrar sinais mais concretos de melhora: o controle de despesas.
Os gastos com vendas, gerais e administrativos somaram R$ 542 milhões no segundo trimestre fiscal. Embora tenham aumentado 8,9% na comparação anual, ficaram abaixo dos R$ 576 milhões previstos pelo BTG e permaneceram praticamente estáveis em relação ao trimestre anterior.
O comportamento importa porque, segundo os analistas, as despesas administrativas vinham frustrando as expectativas do mercado de forma recorrente. A estabilização desses gastos pode ser um primeiro passo para recuperar a rentabilidade da companhia, especialmente se vier acompanhada de preços mais favoráveis para o arroz.
O lucro líquido também trouxe uma surpresa positiva em relação às projeções. A Camil encerrou o trimestre com R$ 41 milhões de lucro, quase o dobro dos R$ 21 milhões estimados pelo BTG.
Ainda assim, o resultado ficou 47,8% abaixo do registrado um ano antes, o que mostra que a melhora operacional ainda precisa ganhar consistência.
Dívida da Camil e o balanço
Nem todos os obstáculos desapareceram. A Camil segue com um balanço bastante alavancado, uma característica que se torna especialmente onerosa em períodos de juros elevados.
No segundo trimestre fiscal, o resultado financeiro negativo somou R$ 128 milhões, evidenciando o peso do endividamento sobre os resultados da companhia.
Houve, porém, algum alívio no caixa. A empresa liberou R$ 146 milhões em capital de giro depois de ter consumido R$ 1,2 bilhão no trimestre anterior. Com isso, a dívida líquida caiu R$ 120 milhões na comparação trimestral.
Ainda assim, a relação entre dívida líquida e EBITDA dos últimos 12 meses permaneceu em 5,6 vezes, segundo o BTG.
Esse é um dos motivos pelos quais uma eventual queda dos juros teria efeito que vai além do ambiente macroeconômico: poderia aliviar diretamente o peso das despesas financeiras da companhia.
O banco projeta uma desalavancagem gradual nos próximos anos. Em suas estimativas, a relação entre dívida líquida e EBITDA cairia para 3,5 vezes em 2026 e para 2,9 vezes em 2027.
A melhora operacional também aparece nas projeções. Para 2027, o BTG estima receita de R$ 13,7 bilhões, EBITDA de R$ 1,114 bilhão e lucro líquido de R$ 257 milhões — mais que o dobro dos R$ 122 milhões projetados para 2026.
É nesse cenário que o banco mantém recomendação de compra para os papéis da empresa. O preço-alvo é de R$ 9 por ação, ante R$ 7,08 considerados no relatório, o que representa potencial de valorização de aproximadamente 27%.
Para os analistas, a relação entre risco e retorno continua atrativa. A ação é negociada a cerca de nove vezes o lucro estimado para o ano fiscal de 2027, enquanto as projeções do banco consideram preços do arroz próximos dos níveis atuais.
No ano, as ações da Camil acumulam alta de 32,03%. Nos últimos 12 meses, a valorização chega a 53,64%.
