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Mundo
17/09/2026
5 min

Canadá na União Europeia? Entenda como possibilidade muda a geopolítica

Convite da presidente da Comissão Europeia ocorre em meio aos desafios comerciais enfrentados pelo bloco e pelo Canadá diante de EUA e China

Canadá na União Europeia? Entenda como possibilidade muda a geopolítica

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, endossou e defendeu nesta quarta-feira, 16, uma aproximação inédita entre a União Europeia e o Canadá, propondo que Ottawa se torne o primeiro “membro associado” do bloco. A ideia busca fortalecer a relação bilateral em meio às pressões comerciais e geopolíticas dos Estados Unidos e da China, mas enfrenta resistência entre os governos europeus.

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, vem defendendo que países emergentes se unam para preservar o sistema multilateral e reduzir a dependência das grandes potências.

A proposta ganhou força diante da guerra comercial e da imposição de altas tarifas pelo presidente americano Donald Trump sobre seus aliados históricos, afetando tanto a Europa quanto o Canadá, bem como de sua postura mais confrontadora em relação à Otan, entidade que garante a segurança do bloco.

Ao discursar no Parlamento Europeu, com Carney presente, von der Leyen afirmou que Bruxelas pretende levar a relação com Ottawa ao “nível mais alto possível”. Segundo ela, os dois lados deveriam avançar de um acordo comercial para uma “aliança para o futuro”, com maior integração econômica e estratégica.

A proposta incluiria cooperação em manufatura avançada, tecnologia, inteligência artificial, computação quântica, cibersegurança, energia, minerais críticos e baterias. A presidente da Comissão também mencionou a possibilidade de transformar o Ártico em um projeto conjunto e de integrar as bases industriais de defesa de ambos os lados.

Resistência

Prédio da Comissão Europeia em Bruxelas, com a Bandeira da União Europeia

Prédio da Comissão Europeia em Bruxelas, com a bandeira da União Europeia: nem todos os países do bloco estão propensos a aceitar a associação canadense (./Divulgação)

A iniciativa, porém, não conta com respaldo institucional imediato. A medida é inédita e a União Europeia não tem uma categoria formal de “membro associado”, o que significa que qualquer novo arranjo exigiria a aprovação unânime dos 27 países do bloco. Diplomatas europeus ouvidos pelo Financial Times indicaram que várias capitais consideram pouco realista conceder a Ottawa um status especial.

Parte da resistência está relacionada aos Estados Unidos. Governos europeus que dependem fortemente da proteção da Otan diante da Rússia, especialmente os países bálticos, temem que uma aproximação muito mais profunda com o Canadá possa provocar uma reação de Trump e criar novas tensões com Washington, o que, por sua vez, prejudica diretamente sua segurança.

Carney chegou à Europa propondo, inicialmente, justamente uma relação diferenciada, mas moderou a ideia durante sua passagem pelo continente e passou a defender uma “aliança única”.

Mesmo assim, os governos europeus argumentam que seria mais viável aprofundar os acordos já existentes do que criar um novo regime de acesso ao mercado europeu.

O principal deles é o Ceta, tratado de livre-comércio entre o Canadá e a União Europeia, assinado em 2017.

Embora esteja em aplicação provisória e já tenha reduzido tarifas, estabelecido regras alfandegárias e ampliado o acesso a mercados de bens e serviços, dez países do bloco ainda não concluíram a ratificação, entre eles França, Itália e Polônia.

A falta de ratificação tornou-se um obstáculo central à ambição de uma aproximação mais profunda.

Com eleições previstas para o próximo ano em alguns desses países, as perspectivas de aprovação do acordo são incertas, e autoridades europeias defendem que a implementação completa do Ceta deveria ocorrer antes de novas concessões a Ottawa.

Também existem barreiras estruturais ao aumento do comércio. A União Europeia representa menos de 6% das exportações canadenses de bens, enquanto divergências regulatórias dificultam uma integração mais ampla.

O comércio de carne bovina é um exemplo: o Canadá possui uma cota com tarifas reduzidas, mas não exporta carne para o bloco porque seus produtores utilizam hormônios proibidos pelas regras europeias.

Outras disputas permanecem abertas. Bruxelas quer que Ottawa reduza tarifas sobre produtos europeus, como aço e pregos, além de revisar políticas de incentivo à produção doméstica conhecidas como “Buy Canadian”.

O Canadá, por sua vez, contesta a política industrial europeia de “Made in Europe” e algumas normas ambientais que podem elevar os custos das exportações canadenses, como as de madeira e alumínio.

Apesar das divergências, há espaço para uma aproximação mais pragmática. Autoridades europeias reconhecem interesse em ampliar a cooperação com fabricantes de armamentos canadenses e com empresas de mineração de minerais críticos, enquanto ambos os lados trabalham para concluir um acordo de comércio digital antes de uma cúpula prevista para os dias 29 e 30 de outubro, em Montreal.

A expansão da relação, portanto, tende a avançar primeiro em áreas específicas de interesse estratégico, em vez de assumir imediatamente a forma de uma nova categoria institucional.

Para Bruxelas e Ottawa, a parceria ganha importância diante da disputa entre os Estados Unidos e a China, mas as diferenças comerciais, regulatórias e políticas ainda limitam o alcance de uma aliança mais ampla.

O movimento representa, assim, uma tentativa de transformar a relação entre a União Europeia e o Canadá em uma parceria que vá além do comércio, incorporando defesa, tecnologia, energia e segurança econômica.

A proposta de von der Leyen sinaliza a dimensão dessa ambição, enquanto a cautela das capitais europeias mostra os limites para convertê-la em um novo acordo formal no curto prazo.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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