Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
03/07/2026
5 min

Carne bovina brasileira entra na mira dos EUA e pode enfrentar novas tarifas

Carne bovina brasileira entra na mira dos EUA e pode enfrentar novas tarifas

A indústria da carne dos Estados Unidos pediu ao presidente Donald Trump a imposição de tarifas e restrições amplas sobre todos os produtos bovinos do Brasil, sem exceções, incluindo carne, cortes e miúdos. O pedido foi feito pela United States Cattlemen’s Association (USCA) no âmbito da investigação da Seção 301 contra o Brasil.

A entidade, uma das principais do setor americano, afirma que o setor pecuário brasileiro opera com vantagens consideradas “injustas”, associadas a desmatamento, trabalho forçado e falhas de rastreabilidade e governança, e defende medidas comerciais mais duras contra o país.

Os EUA ameaçam impor novas tarifas de até 40% ao Brasil, por meio de uma investigação com base na lei chamada de Seção 301, pela qual acusam o país de práticas desleais no comércio exterior. Uma audiência sobre o tema será realizada na segunda-feira, 6, em Washington, e a decisão final será tomada até dia 15 de julho.

Segundo a USCA, o objetivo é restringir ou endurecer significativamente o acesso da carne brasileira ao mercado americano até que o país comprove avanços estruturais em rastreabilidade, meio ambiente, condições de trabalho e governança.

"Programas de monitoramento conduzidos por empresas no Brasil sofrem de limitações críticas, sobretudo pela incapacidade de rastrear fornecedores indiretos. Essa omissão torna inadequados os atuais sistemas de rastreabilidade, permitindo que agentes ocultem a verdadeira origem do gado”, alega a entidade.

O pedido da indústria da carne americana ocorre em meio à crise da proteína nos EUA. O país atravessa uma fase de contração do ciclo pecuário e devem registrar, neste ano, o maior déficit de proteína animal de toda a série histórica.

Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões, enquanto o rebanho bovino total atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os EUA perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.

Nesse contexto, o Brasil ganhou como fornecedor. Em 2025, mesmo com a tarifa imposta por Trump sobre a carne bovina brasileira, os EUA foram o segundo principal destino das exportações do produto, com 272 mil toneladas embarcadas, alta de 18% em relação a 2024, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

De janeiro a maio deste ano, os EUA já compraram 178 mil toneladas de carne do Brasil, alta de 15% em relação ao mesmo intervalo de 2025. E a tendência é de aumento uma vez que o rebanho americano deve levar entre 2 e 4 anos para se recompor.

Com menor oferta da proteína, o reflexo já aparece nos preços ao consumidor. A carne moída, principal matéria-prima dos hambúrgueres, atingiu o recorde de US$ 6,90 por libra-peso em abril, o maior valor da série histórica do Bureau of Labor Statistics (BLS), órgão responsável pelas estatísticas trabalhistas do país.

O valor representa quase o dobro do registrado há dez anos e uma alta de aproximadamente 20% em relação ao mesmo período do ano passado. Desde 2020, os preços da carne bovina nos EUA acumulam valorização de 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis.

Entenda o caso da Seção 301

O governo dos Estados Unidos anunciou, em 1º de junho, que o Escritório do Representante Comercial (USTR) determinou que o Brasil agiu de forma não razoável no comércio bilateral, como parte da investigação aberta por meio da Seção 301.

Por conta disso, o USTR propôs que os EUA passem a cobrar do Brasil uma tarifa extra de 25%, com algumas exceções. A medida, no entanto, ainda não foi aplicada e haverá espaço para mais negociações, até 15 de julho.

"O Representante Comercial dos Estados Unidos determinou, nos termos da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que certos atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas preferenciais desleais; combate à corrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal são irrazoáveis ​​e oneram ou restringem o comércio dos EUA, sendo, portanto, passíveis de ação judicial nos termos da Seção 301(b) da Lei de Comércio", disse o USTR, em comunicado.

No momento, ainda não foram anunciadas novas tarifas, mas a "proposição de ações corretivas para consulta pública, enquanto os Estados Unidos continuam a dialogar intensamente com o Brasil para buscar a resolução das preocupações americanas", disse o órgão.

Uma audiência sobre o tema foi proposta para o dia 6 de julho, que será aberta a depoimentos de interessados em se posicionar contra ou a favor do país.

Se os EUA mantiverem o entendimento de que o Brasil não adotou medidas corretivas, poderá implantar novas tarifas contra o país, além das que já estão em vigor. Uma decisão final sobre o caso será definida até 15 de julho.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
Distribuído por