Carro da Apple segue na geladeira, mas empresa volta ao setor automotivo com a Ford

A Apple tenta de novo entrar no mercado automotivo, dois anos depois de enterrar seu projeto de carro elétrico próprio. Desta vez, sem fabricar veículos: a empresa anunciou nesta quinta-feira, 23, que vai licenciar tecnologia de navegação e dados de mapeamento para montadoras, e a Ford será a primeira cliente.
O produto é o MapKit for Automotive, um kit de desenvolvimento que será embarcado nos painéis da futura plataforma de veículos elétricos da Ford. A Apple também fornecerá dados de vias para o BlueCruise, o sistema de direção assistida da montadora americana, que permite dirigir sem as mãos no volante em trechos mapeados.
O movimento aprofunda a presença da Apple dentro dos carros. Até aqui, sua atuação se limitava ao CarPlay, o sistema de infoentretenimento que espelha o iPhone na tela do veículo há mais de uma década. Agora, a empresa passa a alimentar funções ligadas à própria condução.
"Estamos levando o Maps para mais perto do dia a dia dos motoristas", afirmou Eddy Cue, vice-presidente sênior de serviços da Apple. Jim Farley, CEO da Ford, classificou o acordo como um dos anúncios mais importantes da companhia. O acerto foi revelado inicialmente pelo New York Times.
O que sobrou do Project Titan
Sob o comando de Tim Cook, que deixa o cargo de CEO em setembro, a Apple gastou bilhões de dólares por mais de uma década no Project Titan, o esforço sigiloso para construir um carro elétrico, encerrado em 2024. À época, a empresa estava sob pressão para recuperar terreno em inteligência artificial generativa, uma cobrança que segue de pé para John Ternus, seu sucessor.
Parte da tecnologia desenvolvida ali, porém, sobreviveu: sistemas autônomos e chips próprios de aceleração de tarefas de IA seguem em produtos da companhia. Os dados de mapeamento são outro ativo remanescente, e talvez o mais valioso para o setor.
Por que mapas valem tanto na corrida dos carros autônomos
Dados detalhados sobre ruas e rodovias são insumo crítico para veículos autônomos, e a Apple é uma das poucas empresas do mundo com cobertura extensa de mapeamento próprio. Concorrentes como a Waymo, da Alphabet, precisam rodar com carros pelas cidades coletando informações antes de lançar serviço de robotáxi em cada nova praça.
A relação entre montadoras tradicionais e o Vale do Silício, no entanto, sempre foi ambígua. Executivos do setor resistem a entregar a experiência do usuário a empresas de tecnologia que podem, no futuro, virar concorrentes diretas, mas desenvolver software confiável e fácil de usar segue sendo um ponto fraco das fabricantes.
Há ainda um fator regulatório a favor da Apple. Na China, gigantes como Xiaomi e Huawei avançaram fortemente sobre o setor automotivo. Nos Estados Unidos, regras que proíbem software chinês em carros conectados começam a valer para os modelos 2027, que chegam às concessionárias neste segundo semestre, o que abre espaço para alternativas americanas.
