Carros elétricos em Marte? Quais as chances de Musk fundir a Tesla e a SpaceX

Pouco mais de uma semana depois de estrear na Nasdaq na maior oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) da história, a SpaceX já entrou na pauta de outra possível movimentação bilionária: a fusão com a Tesla.
A especulação não é nova, mas ganhou força concreta nas últimas semanas, com analistas de bancos como JPMorgan e Wedbush Securities, investidores institucionais e até a própria presidente da SpaceX dando declarações que alimentam a tese — enquanto outros, como a Oppenheimer, mantêm ceticismo sobre o momento e a lógica da operação.
O que disparou a especulação
Segundo a CNBC, um funcionário da Tesla e outras pessoas a par do assunto revelaram no fim de maio que as duas empresas avaliavam uma fusão, e que Elon Musk já havia discutido com colegas a possibilidade de unificar as operações.
Segundo a mesma reportagem, um funcionário da Tesla disse que o tema é discutido abertamente dentro da companhia, com muitos trabalhadores esperando que a transação aconteça eventualmente.
As duas empresas já compartilham engenheiros e colaboram rotineiramente em desafios ligados à energia e à capacidade computacional.
A presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell, alimentou a especulação no próprio dia do IPO.
Segundo a CNBC, ela disse que uma fusão "poderia tornar a vida de Elon um pouco mais fácil" e afirmou que "não há dúvida de que existem sinergias entre Tesla e SpaceX em nosso futuro", embora tenha evitado detalhar quais sinergias específicas existem hoje, e ressaltado que seu foco imediato era "manter as luzes acesas" na SpaceX recém-listada.
O "santo graal", segundo Dan Ives
Dan Ives, analista da Wedbush Securities e um dos investidores mais otimistas em relação a Musk, é a voz mais ativa por trás da tese de fusão. Ives estima entre 80% e 90% de probabilidade de uma combinação entre as duas empresas, projetando que o evento aconteça na primeira metade de 2027, após a SpaceX completar sua oferta pública.
Em nota a clientes, ele descreveu a operação como o "santo graal" para Musk — o mesmo empresário que, no discurso de abertura de capital da SpaceX, prometeu "levar você à Lua, levar você a Marte e, no fim das contas, além" —, argumentando que ela permitiria ao empresário "controlar mais do ecossistema de inteligência artificial".
Parte da lógica de Ives se apoia em movimentos que já aconteceram: em janeiro, a Tesla investiu US$ 2 bilhões na xAI; um mês depois, quando a SpaceX adquiriu a própria xAI em uma transação totalmente em ações avaliada em US$ 250 bilhões, a participação da Tesla se converteu em quase 19 milhões de ações da SpaceX, uma posição que, ao preço de IPO de US$ 135, vale cerca de US$ 2,56 bilhões, segundo o prospecto S-1 arquivado na SEC.
O que JPMorgan, Wolfe Research e outros analistas dizem
O JPMorgan não emitiu uma previsão direta sobre a fusão, mas sua mudança de postura sobre a Tesla chamou atenção.
O analista Rajat Gupta elevou a recomendação da ação de "underweight" para neutra e disparou o preço-alvo de US$ 145 para US$ 475 — um aumento de 228% —, justificando a mudança pela redefinição da Tesla como uma empresa de "IA física" e robótica, e não mais como simples fabricante de automóveis.
Segundo a Bloomberg, a atualização aconteceu na manhã seguinte a um evento em que o CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, entrevistou Musk no auditório da sede do banco para promover oIPO da SpaceX, coincidência que, segundo o estrategista-chefe de mercado da Miller Tabak, Matt Maley, "provavelmente vai levantar algumas sobrancelhas".
Segundo a TradingKey, o analista da Wolfe Research, Emmanuel Rosner, identificou três motores principais que sustentam a expectativa de fusão entre investidores institucionais: a consolidação do controle de votos de Musk (que excederia 50% numa empresa combinada), o potencial de sinergia em inteligência artificial ao combinar os dados do mundo real da Tesla com a capacidade computacional da SpaceX, e a criação de uma base de capital mais robusta.
Segundo Rosner, "a possibilidade de uma eventual fusão entre SpaceX e Tesla tornou-se cada vez mais um consenso entre instituições, com algumas já citando isso como justificativa primária para manter ações da Tesla".
Os números que tornam a fusão complicada
Nem todo analista compra a tese — e os números explicam por quê.
Segundo a Fortune, o CEO da consultoria New Constructs, David Trainer, calculou que, para justificar seu valuation de IPO de US$ 1,75 trilhão usando fluxo de caixa descontado, a SpaceX precisaria entregar US$ 248 bilhões em lucro líquido e US$ 1,1 trilhão em receita até 2035 — uma receita 50% maior do que a Amazon registrou nos últimos quatro trimestres, e um lucro US$ 90 bilhões maior do que o melhor resultado já alcançado pela Alphabet no mesmo período.
"Esses números estão realmente fora deste mundo", disse Trainer.
Uma fusão com a Tesla, segundo o mesmo cálculo, mais que dobraria esse desafio: os acionistas originais da SpaceX passariam de deter 100% da empresa combinada para cerca de 52%, em troca de incorporar os pouco menos de US$ 4 bilhões em lucro atual da Tesla, um número também inflado por vendas consideradas pontuais pelos críticos.
O ceticismo de Oppenheimer e de Eisman
Em nota de 11 de junho, analistas da Oppenheimer rebateram diretamente a especulação crescente, argumentando que manter as duas empresas separadas serviria melhor às ambições de longo prazo de Musk em inteligência artificial.
Segundo a casa, a visão de Musk "é mais bem servida por acesso diversificado e flexível a capital", e "ter duas moedas públicas apoia essa estratégia de forma mais eficaz".
A Oppenheimer reconheceu que uma combinação "permanece plausível", mas não espera uma fusão no curto prazo, preferindo apostar na expansão das sinergias de cadeia de suprimentos entre as duas empresas, especialmente no negócio de armazenamento de energia da Tesla, que a casa vê como beneficiária direta das necessidades de energia e computação dos data centers da SpaceX.
O pano de fundo: Musk já é o homem mais rico da história
Musk se tornou o primeiro trilionário da história em 12 de junho, dia da estreia da SpaceX na Nasdaq, com a empresa precificada a US$ 135 por ação.
A SpaceX hoje representa quase 80% do patrimônio de Musk, enquanto sua participação na Tesla soma aproximadamente US$ 165 bilhões — cerca de um quinto do total.
Caso a fusão se concretize, analistas calculam que a empresa combinada poderia valer mais de US$ 3 trilhões, ultrapassando companhias como Amazon e Microsoft, embora Musk já tenha deixado claro que seu próximo objetivo, de qualquer forma, está em outra escala inteiramente, falando abertamente em se tornar quadrilionário.
Os obstáculos jurídicos e de governança
Segundo a CNBC, especialistas jurídicos avaliam que uma fusão entre SpaceX e Tesla provavelmente não geraria problemas antitruste, mas levantaria questões relevantes entre os acionistas das duas companhias, entre elas, qual empresa seria a controladora, como uma troca de ações aconteceria, e quem determinaria o preço justo da operação.
Umfator que reduz a complexidade do lado da SpaceX: Musk detém 85% do poder de voto na empresa, o que praticamente elimina qualquer resistência do conselho.
Do lado da Tesla, ele detém hoje cerca de 13% de participação, mas um pacote de remuneração bilionário aprovado pelos acionistas em novembro pode elevar essa fatia para cerca de 25%, caso ele atinja uma série de metas financeiras e operacionais ambiciosas ao longo da próxima década.
