Casas Bahia agrava prejuízo do GPA; auditoria reforça risco de continuidade do negócio
Varejista provisionou os R$ 708 milhões que tinha a receber da antiga controlada e fechou o terceiro trimestre com prejuízo de R$ 731 milhões

O Grupo Pão de Açúcar (GPA, PCAR3) registrou prejuízo líquido de R$ 731 milhões no terceiro trimestre de 2026, revertendo o lucro de R$ 134 milhões do mesmo período do ano passado. No acumulado de nove meses, as perdas somam R$ 2,42 bilhões. O resultado veio acompanhado de um alerta da EY, auditoria que revisou o balanço, sobre a continuidade do negócio, mesmo depois de a Justiça ter homologado o plano de recuperação extrajudicial da varejista.
A conta da Casas Bahia
A maior parte do prejuízo veio das operações descontinuadas, que perderam R$ 511 milhões no trimestre. A companhia atribui esse número principalmente a um impacto de R$ 467 milhões ligado a uma provisão, sem detalhar a origem no relatório de resultados.
As notas explicativas mostram de onde veio a perda. O GPA tinha R$ 708 milhões a receber do Grupo Casas Bahia, empresa que já foi sua controlada e da qual se desfez em 2019. O valor se refere ao direito de reembolso de créditos tributários da antiga Globex, obtidos na disputa sobre a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da Cofins, relativos ao período de 2003 a 2010.
Com o pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, em 16 de agosto, esse crédito passou a ser tratado como concursal e ficou sujeito ao plano que a varejista vier a aprovar com os credores. O GPA diz discordar dessa classificação, mas, diante da incerteza sobre quanto e quando vai receber, provisionou o valor integral.
Nas operações continuadas, o prejuízo foi de R$ 220 milhões, contra lucro de R$ 142 milhões um ano antes. A empresa lembra que o terceiro trimestre de 2025 teve o reforço de um crédito tributário de R$ 418 milhões.
O alerta da auditoria
No relatório de revisão, a EY incluiu um parágrafo de "incerteza relevante relacionada à continuidade operacional". A auditoria cita o prejuízo acumulado no ano, o passivo circulante R$ 4,48 bilhões maior que o ativo circulante no consolidado e o patrimônio líquido negativo.
Segundo a EY, embora o plano de recuperação extrajudicial tenha sido homologado em 7 de outubro, com decisão publicada no dia 20, a companhia segue dependente do cumprimento das condições do plano e das demais medidas de reestruturação financeira e operacional. Para a auditoria, esses fatores indicam incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a capacidade do GPA de continuar operando. A conclusão da revisão não foi modificada, ou seja, o apontamento não é uma ressalva às contas.
A administração reconhece o risco na nota sobre continuidade operacional. Afirma que a homologação do plano, as iniciativas de reestruturação e a perspectiva de geração de caixa sustentam a premissa de que a empresa seguirá funcionando, mas admite que fatores futuros, inclusive macroeconômicos, trazem incertezas sobre o sucesso dessas medidas. A companhia diz ainda que avalia "alternativas adicionais" para fortalecer sua estrutura de capital.
Não é a primeira vez que o tema aparece nas contas do GPA. No balanço de 2025, auditado pela Deloitte, a própria administração já havia registrado condições que colocavam em dúvida a continuidade operacional.
Dívida concentrada no curto prazo
O balanço de setembro ainda não reflete os efeitos do plano. Entre o pedido de recuperação extrajudicial, em março, e a homologação, os contratos de dívida tiveram vencimento antecipado. Com isso, os R$ 4,46 bilhões de dívida bruta passaram integralmente para o curto prazo. Em dezembro, R$ 2,4 bilhões estavam no longo prazo.
O caixa encolheu de R$ 1,99 bilhão no fim de 2025 para R$ 678 milhões em setembro. A dívida líquida equivale a 3,7 vezes a geração de caixa operacional da empresa, ante 3,4 vezes um ano antes. O patrimônio líquido, que era positivo em R$ 2,12 bilhões em dezembro, ficou negativo em R$ 321 milhões.
Pelas estimativas da companhia, o plano alonga o prazo médio da dívida de 2,1 para 6,4 anos e reduz os pagamentos programados até 2028 de R$ 5,2 bilhões para cerca de R$ 400 milhões. O custo médio cai de CDI mais 1,8% para CDI mais 0,5% ao ano. Na conta pro forma, a alavancagem recua de 3,7 para 1,2 vez. O GPA ressalva que esses números ainda não incluem possíveis efeitos de valor justo, que estão em avaliação. Os títulos sujeitos ao plano estão bloqueados na B3 até a troca pelas novas debêntures.
Vendas ainda em queda
A receita líquida caiu 9,6% no trimestre, para R$ 4,12 bilhões. Parte da queda vem da decisão de encerrar operações pouco rentáveis, como o formato Aliados e a venda da Stix. Nas lojas abertas há mais de um ano, as vendas recuaram 1,4%, afetadas pela falta de produtos nas prateleiras desde o início da recuperação extrajudicial. Segundo a empresa, a ruptura melhorou em relação ao segundo trimestre, mas segue acima do nível anterior ao processo.
O corte de despesas sustentou o resultado operacional. O Ebitda ajustado subiu 16,9%, para R$ 482 milhões, com margem de 11,7%. O GPA diz ter capturado R$ 365 milhões em ganhos de eficiência em 2026, 88% da meta para o ano.
"Reconhecemos que desafios importantes permanecem, especialmente em relação à recuperação dos níveis de vendas", afirma o CEO, Alexandre Santoro, no relatório de resultados.
