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InvestMercados
19/08/2026
9 min

Casas Bahia: crise vai além de juros altos e consumo fraco, dizem especialistas

Pedido de recuperação judicial envolve R$ 17,3 bilhões em dívidas e expõe outros problemas, além da pressão do ambiente macroeconômico

Casas Bahia: crise vai além de juros altos e consumo fraco, dizem especialistas

O cenário de juros elevados, crédito restrito, endividamento das famílias e desaceleração do consumo ajuda a explicar a pressão sobre o varejo, mas não é suficiente, sozinho, para explicar a crise financeira que levou o Grupo Casas Bahia (BHIA3) a pedir recuperação judicial. As análises de especialistas e de bancos consultados pela EXAME apontam para um problema mais amplo.

A dimensão da crise ficou evidente nobalanço do 2° trimestre deste ano divulgado no último sábado, 15. A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 10,117 bilhões, impactado por eventos não recorrentes.

Com isso, entre janeiro e junho, o prejuízo acumulado chegou a R$ 11,181 bilhões. Em 30 de junho, o passivo circulante superava o ativo circulante em R$ 7,837 bilhões, enquanto o patrimônio líquido estava negativo em R$ 8,270 bilhões.

Um dia depois da divulgação dos resultados, a companhia varejista protocolou na Justiça de São Paulo um pedido de recuperação judicial para reorganizar R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas ao processo. Na petição, a empresa classificou a situação como a "pior crise financeira desde a sua fundação".

O movimento aconteceu depois de uma tentativa anterior de reestruturação. A companhia passou por uma recuperação extrajudicial, iniciado em 2024, e, agora, recorre à recuperação judicial como parte da segunda fase de seu plano de transformação. Para o grupo, o objetivo é reorganizar os passivos, preservar o caixa e reduzir a operação a um tamanho que possa ser sustentado pela própria geração de recursos.

Na avaliação de especialistas, porém, a recuperação judicial não deve ser analisada apenas como consequência de um ambiente macroeconômico adverso.

Juros e consumo são parte da explicação, mas não toda ela

A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, pondera que o ambiente macroeconômico é um fator importante de pressão sobre as empresas. Segundo a especialista, o país combina custo financeiro elevado, desaceleração da atividade e impactos sobre a geração de caixa.

"Basicamente podemos resumir num custo financeiro bastante elevado, uma atividade econômica em desaceleração e isso tudo impactando a capacidade de geração de caixa das empresas", afirmou.

No varejo, porém, a pressão é ainda maior, segundo Abdelmalack, porque o setor passou por mudanças estruturais nos últimos anos. Além dos juros e da alavancagem, a economista-chefe cita a transformação dos canais de venda, a ascensão dos marketplaces, a concorrência de empresas chinesas e a necessidade de adaptação dos modelos tradicionais.

"Então tem uma questão ali relacionada ao modelo de negócio, a maneira de trabalhar obsoleta, se faz sentido ou não", afirmou.

Abdelmalack diz que essa distinção é importante porque uma reestruturação financeira pode resolver um problema de alavancagem provocado por um choque temporário, mas não necessariamente corrige um modelo de negócio que deixou de funcionar adequadamente.

"A reestruturação, ela consegue resolver um problema de alavancagem em um choque temporário, mas ela não consegue resolver um problema econômico e de modelo de negócio".

A própria Casas Bahia reconhece que não está contando com uma melhora do ambiente econômico para sustentar sua estratégia. Em teleconferência com analistas, na segunda, 17, o CEO, Renato Franklin, afirmou que o plano foi dimensionado considerando um cenário ainda mais difícil para o próximo ano.  "Nós não trabalhamos com melhora do cenário macro", disse.

Segundo o executivo, a empresa considera 2027 pior do que 2026, com continuidade do endividamento das famílias e possibilidade de deterioração do crédito.

"Entendemos que o endividamento vai continuar, que algumas alavancas elas deram um fôlego pro consumo durante esse ano, como empréstimo consignado, por exemplo, mas que isso cria um passivo para o futuro e para os consumidores. Podemos ter sim ainda uma deterioração do cenário de crédito".

O CFO da companhia, Élcio Ito, também destacoua sensibilidade do negócio ao ciclo econômico. "Como atuamos muito na base da pirâmide, somos mais sensíveis aos ciclos econômicos: em um cenário macro pior, somos mais impactados; por outro lado, se a economia melhorar, também conseguimos capturar essa melhora de forma mais alavancada", afirmou o diretor financeiro.

O problema chegou ao caixa e à operação

Para Marco Túlio Dias, sócio do Abi-Ackel Advogados e especialista em Recuperação de Ativos e Insolvência, há sinais de uma crise estrutural de caixa. "Vejo sinais de um problema maior do que a queda do consumo, mas não há, até aqui, elementos públicos para falar em irregularidade", afirmou.

Entre março e junho, de acordo com o balanço da companhia, os estoques caíram de R$ 5,4 bilhões para R$ 4,2 bilhões, e os dias de estoque recuaram de 95 para 75. De acordo com informações do InvestNews, a deterioração começou antes da piora mais recente do cenário econômico. Desde 2023, fornecedores, bancos e seguradoras estariam reduzido sua exposição à Casas Bahia à medida que a confiança diminuía.

Segundo Dias, a queda superior a 20% dos estoques, combinada à busca por novos recursos para repor mercadorias, mostra que a dificuldade financeira chegou à operação das lojas.

A leitura também aparece na análise do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME). Para o banco, a recuperação judicial mostra que a questão central deixou de ser apenas a rentabilidade e passou a ser a liquidez.

"O pedido subsequente de recuperação judicial altera significativamente a dimensão financeira da história da Casas Bahia e confirma que os desafios vão além da fraca rentabilidade recorrente", disse o banco em relatório.

A análise do BTG considera que a segunda fase do plano pode resultar em uma Casas Bahia menor e mais concentrada no fluxo de caixa. Ao mesmo tempo, aponta três obstáculos à recuperação operacional, em primeiro, a demanda fraca por categorias cíclicas, como eletrônicos e eletrodomésticos; a forte concorrência no comércio eletrônico; e, por fim, os juros elevados, que pressionam tanto a demanda quanto as despesas financeiras.

"O processo poderia, em última instância, proporcionar à Casas Bahia uma estrutura de capital mais sustentável, mas também gera uma incerteza considerável em relação às negociações com credores, às relações com fornecedores, ao acesso a financiamento de capital de giro e ao ritmo em que a empresa poderá normalizar suas operações", afirmou.

Os números do 2° trimestre mostram por que a empresa estápriorizando a geração de caixa. Nesse período, a receita líquida cresceu 1,6% na comparação anual, enquanto o GMV, o volume bruto de mercadorias. chegou a R$ 10,5 bilhões, alta de 15,3% no canal online. O Ebitda ajustado foi de R$ 518 milhões, com margem de 4,4%.

Ainda assim, o resultado operacional não foi suficiente para compensar a estrutura de passivos da companhia.

Governança entra no debate

A discussão sobre governança também aparece nas análises. Para Letícia Málaga, sócia do Urbano Vitalino Advogados e especialista em Direito Empresarial e Governança Corporativa, o ponto de atenção está na política de remuneração e na forma como os mecanismos de controle e monitoramento funcionaram durante a deterioração financeira.

Em 2025, quando a companhia já estava em processo de reestruturação e havia encerrado 2024 com prejuízo próximo de R$ 1 bilhão, a administração propôs remuneração global de até R$ 69,8 milhões para administradores, dos quais R$ 58,7 milhões seriam destinados à diretoria estatutária. Para os diretores, a proposta representava aumento de aproximadamente 30% em relação ao valor proposto no ano anterior. Os acionistas rejeitaram o aumento e mantiveram a remuneração nos níveis de 2024.

Para a advogada, a discussão não é se uma empresa deficitária pode remunerar bem seus administradores, — o que é possível, como destaca —, mas quais métricas sustentam a remuneração variável e se há alinhamento entre os incentivos,a geração de caixa, o endividamento e a criação de valor.

Málaga também observa que, em paraleo à aprovação do pedido de recuperação judicial, houve a saída do diretor jurídico e a renúncia de dois conselheiros, sendo que um deles integrava o Comitê de Auditoria Estatutário e o Comitê de Finanças.

"Portanto, eu diria que o cenário macroeconômico foi certamente um fator de agravamento, talvez até um importante gatilho da crise de liquidez, mas não parece suficiente para explicar sozinho a situação atual", afirmou.

"O conjunto formado por sucessivos prejuízos, necessidade de duas reestruturações financeiras em pouco mais de dois anos, revisões expressivas de ativos e provisões, dependência crescente de fornecedores e financiamento para capital de giro, redução acelerada de estoques, mudanças relevantes na administração e discussões sobre remuneração em período de destruição de valor aponta para uma questão mais ampla de governança e de estrutura financeira", acrescentou.

Mercado já acompanhava a deterioração

A percepção de que a Casas Bahia enfrentava dificuldades não surgiu com o pedido de recuperação judicial. Em janeiro de 2022, quando a companhia ainda se chamava Via Varejo, analistas da XP Investimentos já relatavam queinvestidores questionavam a possibilidade de uma recuperação judicial.

Naquele momento, porém, a avaliação da XP era de que o pedido era improvável, de acordo com reportagem da Bloomberg Línea na época. Os analistas destacavam que a empresa havia renegociado os vencimentos das dívidas, com 78% delas no longo prazo, contra 40% no fim de 2020, e mantinha uma posição de caixa considerada sólida, de R$ 1,6 bilhão.

Um gestor de uma grande casa ouvido pela EXAME também afirmou que o caso já era conhecido pelo mercado havia bastante tempo. Na avaliação dele, porém, a questão específica da Casas Bahia não está principalmente relacionada à governança, mas ao modelo de negócios e ao endividamento. "Já era sabido faz tempo", afirmou.

A Casas Bahia afirma que a recuperação judicial faz parte da segunda fase do nosso plano de transformação, mas que ela "não é o destino da companhia". O objetivo, segundo a empresa, continua sendo construir uma operação saudável e rentável. "A recuperação judicial é apenas o instrumento que vamos usar para resolver os passivos estruturais da companhia, mantendo a mesma estratégia", disse o CEO.

AutorClara Assunção
FonteExame
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