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InvestMercadosACS
20/08/2026
9 min

Casas Bahia deve R$ 5 bi ao Bradesco: como isso pode afetar a recuperação do banco?

Bradesco está entre os maiores credores da varejista, que entrou em recuperação judicial para reorganizar R$ 17,3 bilhões em dívidas

Casas Bahia deve R$ 5 bi ao Bradesco: como isso pode afetar a recuperação do banco?

A recuperação judicial do Grupo Casas Bahia (BHIA3) colocou o Bradesco (BBDC4) diante de uma exposição de R$ 4,78 bilhões justamente quando o banco começa a mostrar sinais mais claros de recuperação. A cifra faz da instituição pelo Banco Digio, por ele controlado, um dos principais credores da varejista e levanta uma questão para os investidores sobre quanto desse valor pode efetivamente virar perda para o banco.

A resposta, porém, passa por uma distinção importante. Cerca de R$ 3,35 bilhões desse total estão classificados como créditos extraconcursais, ou seja, não estão submetidos às condições de pagamento que serão definidas no plano de recuperação judicial.

Isso reduz o risco potencial para o Bradesco, mas não elimina a necessidade de acompanhar de perto o caso, sobretudo em um momento em que a qualidade do crédito voltou a exigir mais provisões da instituição, de acordo com analistas que acompanham o papel.

Na avaliação de Iuri Franceschini, fundador da Acta Partners, essa característica ajuda a diferenciar o episódio do que ocorreu com a Americanas. No caso da varejista que entrou em recuperação judicial após a descoberta de inconsistências contábeis em janeiro de 2023, os bancos foram surpreendidos pela dimensão do problema. Com a Casas Bahia, segundo ele, a situação é diferente.

“Não estamos falando, até o momento, de uma fraude descoberta de forma inesperada. No caso de Casas Bahia, salvo se surgir algum fato novo fora do radar, a situação é bem diferente”, afirma.

Segundo Franceschini, as operações de crédito envolvendo a companhia já eram conhecidas pelas instituições financeiras e faziam parte da estrutura de financiamento da empresa, incluindo operações de risco sacado, antecipação de recebíveis, crédito junto a fornecedores e outras modalidades.

“Provavelmente, uma parcela relevante do risco já está refletida nos balanços dos bancos via o famoso provisionamento, é justamente por isso que ele existe”, diz.

Por essa razão, o especialista avalia que uma eventual deterioração adicional da Casas Bahia tende a ter impacto menor sobre o Bradesco do que o observadono caso Americanas, em que o banco era também um dos maiores credores.

“A grande diferença é justamente essa. Em Americanas, os bancos foram pegos de surpresa pela dimensão da fraude; em Casas Bahia, o risco de crédito já é conhecido e, em grande medida, vem sendo acompanhado e provisionado", afirmou.

Como fica a recuperação do Bradesco?

O comportamento das ações também reforça, na avaliação dele, a percepção de que o mercado não enxergou o episódio como um novo choque para os bancos. Desde queo pedido de recuperação judicial veio a público, as ações do Bradesco e do Banco do Brasil (BBAS3) acumulavam queda de cerca de 2%, sem movimentação ou volume considerados atípicos.

“Se fosse algo inesperado, o preço teria sofrido e veríamos grandes ajustes de posições. Nada disso aconteceu”, afirma. Para Franceschini, portanto, o caso “não deve impactar na recuperação do banco”. “Não atrapalha Bradesco. Não estamos falando de nada inesperado e muito fora do radar. Obviamente, não é notícia positiva, é algo ruim, mas não a ponto de mudar e atrapalhar a recuperação".

O episódio chega ao banco em uma fase particularmente importante de seu turnaround.

No balanço de segundo trimestre deste ano, divulgado na semana passada, o Bradesco registrou lucro líquido recorrente de R$ 7,05 bilhões, alta de 16,2% em um ano, e alcançou um retorno anualizado sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) de 16%. Foi o décimo trimestre consecutivo de melhora desde o início do plano de transformação.

O ROAE é o principal indicador acompanhado pelo mercado. No caso do Bradesco, ele chegou a ultrapassar o Santander Brasil, que encerrou o mesmo período com ROE de 12,5%, mas ainda ficou distante dos 24,3% registrados pelo Itaú Unibanco.

Mas é justamente essa recuperação de rentabilidade que leva os analistas a tratarem aCasas Bahia como um possível impacto pontual, e não como uma ameaça à tese de recuperação do Bradesco.

Para Pedro Gonzaga, da Mantaro Capital, o evento adverso da Casas Bahia “não desvia o banco de sua recuperação de resultados”, embora possa gerar “ruído em um trimestre isolado”. O tamanho efetivo da perda, ressalta, depende de quanto já havia sido provisionado pelo banco.

“Não é possível ter noção exata do tamanho do impacto porque isso depende de quanto o banco já tinha de provisão para esse crédito”, afirma.

Gonzaga observa que, caso o Bradesco não tivesse nenhuma provisão para a Casas Bahia, uma provisão de R$ 5 bilhões representaria menos de metade da provisão de um trimestre. Depois dos impostos, o impacto sobre o lucro líquido de um trimestre seria da ordem de 40%.

“Seria, em caso extremo, uma provisão que pesa em um trimestre, mas menos no resultado de um ano e menos ainda no filme de recuperação”, afirma.

Entre abril e junho, contudo, o Bradesco apresentou certa pressão nos indicadores de crédito. A inadimplência acima de 90 dias terminou junho em 4,3%, alta de 0,1 ponto percentual no trimestre e de 0,2 ponto em um ano.

Ao mesmo tempo, a despesa de PDD expandida, de provisão para devedores duvidosos, chegou a R$ 9,985 bilhões, alta de 3,3% em relação ao primeiro trimestre e de 22,6% na comparação anual.

Apesar disso, a carteira de grandes empresas, que representa o atacado do banco, ainda apresenta indicadores comportados. O saldo da carteira de crédito expandida chegou a R$ 389,4 bilhões, enquanto a inadimplência acima de 90 dias ficou em 0,4%, ante 0,2% no trimestre anterior. A despesa de PDD do atacado, por sua vez, caiu de R$ 0,8 bilhão no primeiro trimestre para R$ 0,4 bilhão no segundo.

É justamente esse quadro que levou Flávio Conde, analista de investimentos e head de ações da Levante Ideias de Investimentos, a considerar pequeno o impacto da Casas Bahia sobre o Bradesco. “Não muda a tese de investimento sobre o Bradesco”, afirma. Segundo o especialista, a situação da varejista já era conhecida pelos bancos e, provavelmente, parte da exposição já havia sido provisionada.

Conde também diferencia o caso da Casas Bahia do episódio Americanas. “A Casas Bahia não é um problema de fraude contábil”, afirma.

Para o head da Levante, portanto, não há motivo para considerar quea recuperação judicial da varejista possa, isoladamente, comprometer o processo de recuperação de rentabilidade do Bradesco ou a carteira de atacado do banco. “O impacto tende a ser muito pequeno, porque eles já conheciam a situação e provavelmente já tinham provisionado boa parte".

O que significa ser extraconcursal

A classificação de parte relevante da dívida como extraconcursal é central para entender por que os R$ 4,78 bilhões de exposição do Bradesco e do Digio não representam, necessariamente, R$ 4,78 bilhões sujeitos às mesmas condições da recuperação judicial.

Segundo Fabiana Solano, sócia do Felsberg e especialista em recuperação judicial e reestruturação de empresas, o credor extraconcursal não está sujeito ao plano de recuperação judicial e às condições de pagamento propostas pela companhia.

“Esse credor ficará livre para executar as garantias e ver seu crédito pago”, afirma. No caso de recebíveis em cessão fiduciária, por exemplo, o credor pode se pagar à medida que os clientes da empresa realizam os pagamentos dos recebíveis.

No caso específico do Bradesco e do Digio, dos R$ 4,78 bilhões registrados na relação de credores, cerca de R$ 3,35 bilhões são classificados como extraconcursais. Em princípio, portanto, esses créditos não entram na negociação das condições de pagamento que será submetida aos credores no plano.

Há, contudo, uma ressalva importante, segundo a advogada. A possibilidade de cobrança depende da garantia vinculada ao crédito. Segundo Solano, se forem garantias fiduciárias sobre bens de capital considerados essenciais à Casas Bahia, o credor não poderá retirar esses bens da posse da empresa durante o chamado stay period — período de 180 dias, prorrogável por mais 180, em que os credores ficam impedidos de executar a companhia.

No caso de recebíveis, a situação é diferente. Como não se trata de bens de capital, a especialista afirma que, a rigor, o credor poderá ser pago. “Recebem o dinheiro nas condições contratadas originalmente”, diz Solano.

A diferença em relação aos créditos concursais é relevante. Os credores sujeitos à recuperação judicial ficam submetidos às regras do plano aprovado pela maioria. Já os extraconcursais mantêm uma relação bilateral com a companhia e podem celebrar outros acordos.

“Os credores concursais estão sujeitos à regra da maioria do plano. Já os extraconcursais estão livres para celebrar qualquer outro tipo de acordo que as partes combinem entre si”, afirma.

Na prática, isso reduz o risco de recuperação de uma parcela importante da exposição do Bradesco e do Digio, mas não significa, porém, que os R$ 3,35 bilhões estejam automaticamente livres de risco ou que serão integralmente recebidos, já que isso depende da natureza dos créditos, das garantias e das condições de cada operação.

O ponto central para o Bradesco é saber quanto da exposição já foi reconhecido no balanço e quanto eventualmente ainda poderia exigir novas provisões. No segundo trimestre, o banco já apresentava um cenário de maior pressão sobre o crédito. O índice de cobertura das operações vencidas há mais de 90 dias caiu para 152,3%, ante 161% no primeiro trimestre e 177,8% um ano antes.

Ao mesmo tempo, o banco afirma que o volume de provisões constituído permaneceu acima da geração de novos créditos em estágio 3, com índice de 101% no primeiro semestre.

O próprio Marcelo Noronha, CEO do Bradesco, reconheceu que o ambiente de crédito está mais pressionado. Segundo o executivo, o cenário para o mercado está “um pouco pior”, diante do aumento do comprometimento de renda e da manutenção de juros elevados. Mas Noronha afirmou que o banco trabalha com uma carteira considerada mais garantida e tem priorizado operações com maior retorno ajustado ao risco e colateralizada.

AutorClara Assunção
FonteExame
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