Casas da Banha: o que aconteceu com a gigante do varejo que tinha 230 lojas e dominava o Brasil
A rede carioca fundada em 1955 inventou o primeiro hipermercado do Brasil, virou jingle na boca do povo e patrocinou o Chacrinha

Quem assistia ao Cassino do Chacrinha nos anos 1970 via a mesma cena se repetir: o Velho Guerreiro pegava um bacalhau e o arremessava para a plateia enlouquecida. O gesto virou uma das marcas registradas de Abelardo Barbosa. Mas começou como uma ação comercial.
O patrocinador do programa, e da ação, era uma rede de supermercados que, no auge, chegou a ter entre 220 e 230 lojas pelo Brasil. O nome da gigante: Casas da Banha.
A rede nasceu no Rio de Janeiro em 1955, criada pelo empresário Climério Veloso, que também era um dos donos do Jornal dos Sports. Ficou conhecida pela sigla CB e, principalmente, por um jingle que grudava no ouvido: "Vem fazer o tchá tchá tchá, corta os custos no CB".
A melodia tocava exaustivamente na televisão e virou daquelas coisas que o brasileiro cantava sem nem perceber.
A construção dessa popularidade passou por muitos rostos da TV brasileira. Além do Chacrinha, emprestaram imagem às propagandas da rede nomes como Marília Gabriela, Hebe Camargo, Diogo Vilela, Cecil Thiré e Tião Macalé. A Casas da Banha entendeu, antes de muita gente, que vender comida também era vender entretenimento.
Um esclarecimento que a própria lenda pede: por causa da associação constante com o Chacrinha, muita gente acreditava que o apresentador era dono ou sócio da rede. Não era. Ele era o garoto-propaganda mais visível, e a confusão colou, mas a empresa sempre foi da família Veloso.
Como foi o primeiro hipermercado do Brasil
Em 1972, a Casas da Banha inaugurou na Avenida Brasil, no bairro da Penha, aquele que é lembrado como o primeiro hipermercado do país.
O nome tinha uma honestidade quase cômica, e o prédio virou marco: uma torre com um relógio de quatro faces que servia de ponto de referência para quem cruzava a principal via expressa do Rio.
Era o auge de uma empresa que parecia não parar de crescer. Entre o fim dos anos 1970 e o começo dos 1980, a Casas da Banha acelerou a expansão comprando as filiais dos concorrentes Ideal e Merci, e se espalhou para além do Rio — chegou a São Paulo, Minas, Bahia, Brasília e até o Norte.
No auge, em meados dos anos 1980, os números eram de uma gigante: mais de 200 lojas em sete estados e no Distrito Federal, cerca de 22 mil funcionários e faturamento anual superior a US$ 700 milhões.
Oitenta por cento das lojas ficavam no estado do Rio, onde a rede era simplesmente a número um. Para muitas famílias fluminenses, fazer as compras no CB era rotina semanal.
Como foi a queda da Casas da Banha
A queda da Casas da Banha não se explica por um vilão único, mas por uma sequência de choques que atingiram em cheio justamente o tipo de negócio que ela era: um varejo de alimentos de margem apertada, volume enorme e produtos perecíveis.
O problema estrutural estava na própria expansão. A compra de Ideal e Merci e a aposta em lojas gigantes como o Porcão aumentaram o número de unidades, mas incharam a empresa.
Com mais pontos para administrar, estrutura pesada, e uma gestão financeira que não acompanhou o tamanho. A rede cresceu em lojas mais rápido do que cresceu em capacidade de se administrar.
Sobre essa fragilidade vieram os planos econômicos. Em 1986, o Plano Cruzado congelou os preços sem congelar os custos: a Casas da Banha, que operava com margens mínimas, ficou impedida de repassar a inflação e viu o caixa se corroer.
Segundo representantes da empresa na época, havia vários produtos em promoção quando o congelamento entrou em vigor.
Depois, o confisco de depósitos e poupanças nos anos 1990 secou de uma hora para outra a liquidez de que a rede precisava para pagar fornecedores e salários. Uma empresa que já estava enfraquecida simplesmente perdeu o fôlego financeiro.
Os números da derrocada são brutais. Em 1991, a Casas da Banha tinha 9 mil funcionários, metade do que empregava no início da década anterior.
Em 1992, das mais de 200 lojas, ao menos 149 já tinham sido vendidas ou devolvidas aos antigos donos como forma de pagar dívidas, e outras 75 estavam fechadas à espera de negociação.
Havia ainda a concorrência, que não esperou. Enquanto a CB encolhia, redes mais enxutas ocupavam o espaço.
O que sobrou
As lojas foram fechando ao longo dos anos 1990, e a Casas da Banha foi virando o que restava: um nome frequentando audiências na Justiça.
A empresa pediu a própria falência, e o decreto judicial definitivo saiu em março de 1999, encerrando formalmente uma história que, na prática, já tinha acabado anos antes. Climério Veloso morreu dois anos depois, em 2001, aos 74 anos.
Houve ainda uma tentativa curiosa de ressurreição. Em dezembro de 1999, a EXAME noticiou que a família Veloso queria trazer a marca de volta — desta vez apenas virtualmente. Uma pesquisa mostrava que mais de 60% dos cariocas ainda se lembravam da rede, e os antigos donos fecharam um acordo com uma empresa de tecnologia de Belo Horizonte para operar um supermercado online: a família cuidaria só das compras e das entregas. A memória da marca ainda valia alguma coisa. Mas o projeto não vingou.
