Caso Master reforça influência de corrida presidencial na bolsa
Investidores avaliam os efeitos sobre os ativos e a corrida eleitoral

A quebra parcial do sigilo do caso do Banco Master está sendo acompanhada de perto pelo mercado financeiro. Na madrugada desta sexta-feira, 11, André Mendonça retirou o sigilo de 14 procedimentos, além do processo principal do Master, atendendo ao pedido de Edson Fachin antes da sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF) marcada para terça-feira, 15.
“E o material que saiu das sombras ajuda a explicar o tamanho da crise. O STF, portanto, entra no pregão como variável macroeconômica”, comenta Olivia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos.
Entre os nomes que aparecem na documentação, está Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, e dois servidores do Banco Central. Também há relatos de que pessoas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master, teriam obtido informações sigilosas de procedimentos do Ministério Público Federal por meio de logins funcionais de servidores (entenda mais abaixo).
“Quando onze ministros passam a disputar a atenção com onze indicadores econômicos, Brasília virou classe de ativo. Instituição forte reduz prêmio de risco; instituição em guerra cobra juros”, pontua Brás.
Isso chega a uma eleição já apertada: o último Datafolha mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 46% e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com 44% numa eventual segunda rodada. Já a pesquisa Futura, divulgada nesta quinta-feira, 11, mostrou Lula e o senador empatados no segundo turno. O parlamentar tem 45,4% das intenções de voto, contra 45% do petista.
Como o gringo vê tudo isso?
A crise institucional também pesa na percepção do investidor estrangeiro sobre o Brasil. Segundo Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, a incerteza em torno da segurança jurídica pode limitar a entrada de recursos internacionais.
“As coisas ainda são muito incertas em relação à segurança jurídica por aqui. Onde que entra a questão do STF? O STF hoje passa por uma grave crise institucional, aliás o Brasil passa por uma grave crise institucional em todos os poderes. E isso compromete a imagem perante o investidor internacional”, afirma Pletes.
Para ele, a forma como as instituições brasileiras lidarem com a crise pode influenciar diretamente essa percepção. “Se as instituições mostrarem que, em certa medida, se tem algum controle, alguma punição, o mercado reagiria de uma maneira positiva. Se o STF e as instituições em geral mostrarem que vão passar panos quentes em cima dessa situação, a imagem segue queimada perante o mercado internacional”, diz.
Na avaliação de Pletes, esse cenário pode fazer com que estrangeiros reduzam a parcela de recursos destinada ao mercado brasileiro. “Neste sentido, ao invés dos estrangeiros trazerem um dinheiro mais pesado para trabalhar no mercado por aqui, eles vão trazer uma parcela menor.”
O valuation, porém, pode compensar parte desse risco. “Ele tem sido tão atrativo para os gringos que esse recurso tem voltado para cá.”
E esse movimento já aparece nos fluxos recentes: houve uma entrada forte de capital estrangeiro nos últimos dez dias, em um movimento que também passou pelo EWZ. O ETF, negociado nos Estados Unidos, busca acompanhar o desempenho das principais ações brasileiras e é uma das formas pelas quais investidores estrangeiros se posicionam na bolsa brasileira sem precisar comprar diretamente cada ação na B3.
“Nós vimos também nessa semana uma posição sendo montada em calls, que são opções de compra do EWZ. O volume financeiro indica que os estrangeiros estão crendo que as ações brasileiras têm espaço para crescimento — talvez esperando uma alternância de poder no executivo brasileiro”, afirma Pletes.
No acumulado do mês até agora, a XP calcula entradas líquidas totais de R$ 10,8 bilhões, sendo R$ 3,9 bilhões no mercado à vista e R$ 6,8 bilhões em futuros.
STF pode mexer na eleição — e o mercado reage
Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, diz que, apesar de a crise envolver diferentes espectros políticos, o que interessa ao mercado neste momento é seu possível efeito sobre a corrida eleitoral. “O mercado assumiu uma preferência declarada e bastante explícita por uma candidatura”, afirma.
Na avaliação do economista, notícias que possam fortalecer ou enfraquecer a candidatura da oposição podem alterar as expectativas dos investidores. “Elas podem agredir a popularidade do Flávio Bolsonaro, assim como foi quando saiu o áudio em maio entre Vorcaro e Flávio. Então a questão é por esse lado: o impacto que isso tem do ponto de vista eleitoral.”
O ponto central, segundo Perri, é que o mercado deve continuar acompanhando essa relação entre fatos políticos e pesquisas eleitorais até a definição da disputa.
Na prática, ele observa uma reação dos ativos conforme o cenário eleitoral muda. “Tudo que favorece as candidaturas de oposição, a bolsa sobe, o dólar cai. E quando ele não está bem na pesquisa ou tem algo que favorece o Lula, a gente vê o movimento contrário: curva de juros abrindo, dólar subindo e bolsa caindo.”
José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, também vê no caso Master um possível reflexo sobre a corrida eleitoral. Um dos pontos de atenção, segundo ele, é a origem dos recursos usados para financiar o filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Se esse filme foi efetivamente e totalmente financiado por dinheiro privado, que é o que o Flávio tem dito sistematicamente, não teria nenhuma novidade. O que pode ser um problema é como esse dinheiro foi enviado para o exterior, quem assumiu o controle e como foi efetivamente utilizado”, afirma Camargo.
Para ele, se ficar comprovado que o filme foi financiado apenas com recursos privados, o episódio não deve alterar a percepção do mercado sobre o candidato. “Se for realmente dinheiro privado usado para financiar o filme, acho que não vai ter nenhum efeito sobre o mercado e a oposição continua sendo a favorita, porque a reação dos eleitores não deve mudar.”
O cenário muda, porém, se houver participação de dinheiro público. “O grande problema é se parte do dinheiro for público, em especial vindo de emendas parlamentares de deputados do PL; aí pode ser que tenha algum efeito negativo sobre as intenções de voto no Flávio.”
Quais foram os últimos desdobramentos do Banco Master?
A divulgação de novos documentos ampliou as frentes de investigação sobre as relações do Banco Master e de seu controlador, Daniel Vorcaro, com autoridades e instituições públicas. Entre os materiais está um contrato assinado em 2024 que previa pagamentos de R$ 131 milhões, ao longo de três anos, entre o banco e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo Brás, o acordo previa serviços de compliance e consultoria estratégica perante órgãos como Polícia Federal (PF), Banco Central, Receita Federal e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O escritório afirma que não havia impedimento legal para a contratação e que Alexandre de Moraes nunca julgou ações envolvendo o Banco Master.
Outro conjunto de documentos aponta que Vorcaro teria custeado viagens internacionais e despesas de dois servidores do Banco Central investigados pela PF sob suspeita de favorecer o banco. Em um dos casos, os investigadores apontam pagamentos que chegariam a R$ 3,8 milhões sob outra justificativa contratual. As defesas dos envolvidos negam irregularidades.
A investigação também apura uma possível obtenção de informações sigilosas de procedimentos do Ministério Público Federal por pessoas ligadas a Vorcaro, que teriam utilizado logins funcionais de servidores para acessar os dados.
Na frente política, o ministro André Mendonça, do STF, abriu, a pedido da PF, um inquérito para investigar o senador e presidenciável, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A decisão foi tomada em 22 de julho, de forma sigilosa, e veio a público na noite desta quinta-feira, 10.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestou favoravelmente à abertura do inquérito e apontou um “repasse de montante expressivo (de Daniel Vorcaro), sem contrapartida financeira conhecida, mediante sofisticada blindagem patrimonial e atuação de interpostas pessoas” como indício relacionado ao suposto financiamento do filme.
Segundo a PGR, Vorcaro teria classificado o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro como “o mais importante disparado”. O empresário também teria obtido, às vésperas da deflagração da fase ostensiva da Operação Compliance Zero, a “promessa de apoio ou interferências do próprio senador (Flávio Bolsonaro)”.
