Celulose a US$ 600? Suzano testa alta antes da nova oferta de 2027
Em relatório, BTG aponta mercado mais favorável no curto prazo, com estoques menores na China e risco de excesso de oferta no próximo ano

A recuperação dos preços da celulose ganhou força nas últimas semanas, sustentada por estoques menores na China, custos mais altos de madeira na Ásia e fechamento de capacidade de fibra longa. O movimento, porém, pode ter vida curta: a entrada de novas fábricas em 2027 deve aumentar a oferta em ritmo superior ao crescimento da demanda e voltar a pressionar o mercado.
É essa a leitura dos analistas Leonardo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo, do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), após encontro com Marcos Assumpção, diretor financeiro da Suzano, e Camila Nogueira, responsável por relações com investidores da companhia, durante conferência realizada pelo banco em Nova York.
Segundo os analistas, a Suzano conseguiu implementar o aumento de preços anunciado para setembro e já iniciou uma nova tentativa de reajuste em outubro. O objetivo é levar o preço da celulose de fibra curta para US$ 600 por tonelada na China, principal referência do mercado global.
Na avaliação dos analistas, o ambiente de curto prazo ficou mais favorável. “O encontro reforçou um cenário um pouco melhor para a celulose no curto prazo, mas também os desafios que permanecem para 2027”, afirmam.
A companhia também acumulou uma carteira de pedidos considerada saudável depois do aumento de setembro, o que aumenta a confiança na implementação do reajuste de outubro.
A melhora dos preços não decorre apenas de uma recuperação da demanda. Parte relevante do movimento está ligada à redução temporária da oferta e ao aumento dos custos de produção.
Os estoques de celulose nos portos chineses diminuíram, enquanto o projeto OKI II, da Asia Pulp & Paper, teve seu início adiado para 2027. Alguns participantes do mercado, segundo o relatório, ainda enxergam possibilidade de novos atrasos.
Ao mesmo tempo, cerca de 1,3 milhão de toneladas de capacidade de fibra longa foram fechadas de maneira permanente.
Outro componente importante está na madeira. O preço da matéria-prima importada pela China subiu para aproximadamente US$ 220 por tonelada, ante uma faixa de US$ 170 a US$ 180 alguns meses antes.
O aumento tornou menos competitiva a produção de algumas fábricas chinesas integradas. Segundo o relatório, produtores locais que normalmente utilizam a própria celulose passaram a comprar produto da Suzano, sinal de que, em determinados casos, produzir internamente ficou mais caro do que recorrer ao mercado.
O movimento ajuda a explicar por que os preços conseguiram avançar mesmo diante de uma economia chinesa que ainda exige cautela por parte do setor.
Os preços da celulose em 2027
Para os analistas, a principal preocupação está no próximo ano. A Suzano reconhece que 2027 deverá ser mais desafiador pelo lado da oferta. Projetos como OKI II, Sucuriú e novas capacidades integradas na China devem aumentar significativamente a quantidade de celulose disponível no mercado.
A demanda estrutural, por outro lado, cresce em um ritmo estimado entre 1 milhão e 1,5 milhão de toneladas por ano.
Isso significa que, se toda a nova capacidade entrar conforme planejado, a oferta pode crescer mais rapidamente do que o consumo — uma combinação que normalmente limita aumentos de preços ou força produtores menos competitivos a reduzir produção.
Para os analistas, o equilíbrio em 2027 dependerá cada vez mais de fatores como fechamento de fábricas, paradas comerciais de produção e possíveis atrasos nos novos projetos.
“A capacidade de fechamento, as paradas relacionadas ao mercado e potenciais atrasos de projetos se tornam cada vez mais importantes para reequilibrar o mercado”, afirmam os analistas.
A própria Suzano pode reduzir produção em ativos marginais caso o custo da madeira torne determinadas operações economicamente pouco atraentes.
Além disso, há ainda um fator estrutural que pode funcionar como piso para os preços no médio prazo: ficou mais caro construir uma fábrica de celulose.
Custos de construção, terra, florestas, madeira e financiamento subiram nos últimos anos. Segundo a administração da Suzano, um novo projeto de celulose na América Latina precisaria de preços de fibra curta acima de US$ 630 por tonelada para gerar retornos equivalentes aos historicamente obtidos pelo setor.
A conta ajuda a explicar por que a companhia demonstra pouco interesse em iniciar uma nova grande expansão de capacidade.
Na prática, preços muito baixos por longos períodos dificultariam não apenas a operação de produtores de maior custo, mas também a decisão de investir bilhões de dólares em novas fábricas.
Essa dinâmica pode limitar a oferta no longo prazo, embora não elimine o risco de excesso de capacidade em 2027.
Para a Suzano, a estratégia neste momento é menos sobre crescer em volume e mais sobre atravessar o ciclo preservando margens, reduzindo investimentos e dívida.
