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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
14/08/2026
6 min

Centro de inovação em Recife troca de CEO e prepara transformação de R$ 27 milhões com IA

Após 23 anos na instituição, Karla Godoy assume o comando com a missão de mudar processos, integrar educação e pesquisa e levar a receita a R$ 500 milhões em 2026

Centro de inovação em Recife troca de CEO e prepara transformação de R$ 27 milhões com IA

O centro de inovação CESAR, de Recife, acaba de iniciar um novo ciclo, marcado pela mudança de CEO. Quem assume o cargo agora é Karla Godoy, que estava há 23 anos na instituição. Ela comandava a operação como COO e chega ao posto com uma missão que vai além de manter o crescimento: preparar o CESAR para as mudanças causadas pelainteligência artificial.

A mudança ocorre em um momento de expansão. Em 2025, o CESAR registrou cerca de R$ 435 milhões em receita, 20% acima de 2024, e chegou a mais de 1.500 colaboradores, cerca de 5.000 alunos na CESAR School e mais de 130 projetos de alta complexidade por ano. Para 2026, a meta é alcançar R$ 500 milhões em receita.

“Depois de um período de forte crescimento, o desafio agora não é apenas continuar crescendo, mas preparar a organização para uma transformação profunda do nosso setor, principalmente provocada pela inteligência artificial”, afirma Karla.

30 anos, o CESAR funciona como uma ponte entre empresas, universidades e o mercado. A instituição desenvolve projetos de tecnologia para resolver problemas de empresas e governos, forma profissionais e transforma parte do conhecimento gerado em novos negócios. Agora, o foco é investir em inteligência artificial e acelerar a geração de novos negócios. Para isso, a instituição prevê cerca de R$ 27 milhões em investimentos para 2026.

A construção de uma instituição AI-Native

A principal mudança será transformar o CESAR em uma organização AI-Native, termo usado para empresas que incorporam inteligência artificial à operação, aos processos e à tomada de decisões desde a origem.

Para Karla, isso não significa apenas colocar ferramentas de IA à disposição dos funcionários. O objetivo é redesenhar processos, mudar a maneira como a organização aprende e toma decisões e encontrar novas formas de transformar conhecimento em receita.

A mudança parte de uma pressão econômica. Durante anos, projetos de tecnologia foram dimensionados em boa medida pelo esforço necessário para executá-los, considerando variáveis como horas trabalhadas, tamanho das equipes e prazo.

Com a inteligência artificial reduzindo parte desse esforço, esse modelo pode perder relevância. O CESAR quer, então, capturar mais valor pelo conhecimento acumulado em seus projetos.

“O profissional que precisamos formar não é apenas aquele que sabe escrever código, ele também sabe formular problemas, trabalhar com outras pessoas, avaliar criticamente o que a tecnologia produz e orquestrar três dimensões de inteligência: a individual, a social e a artificial”, diz Karla.

O novo momento também deve ser marcado por um empreendedorismo que atravesse toda a organização.

A estratégia é transformar aprendizados e soluções desenvolvidos em cada trabalho em ativos que possam ser reutilizados. Dessa forma, um conhecimento produzido para um projeto pode gerar aplicações em outros projetos ou até dar origem a novos produtos e empresas.

Onde serão investidos os R$ 27 milhões

Para este ano, a instituição vai investir R$ 27 milhões em quatro frentes principais. A primeira é a transformação para um modelo AI-Native, incluindo a CESAR School. A proposta é incorporar a inteligência artificial ao processo de aprender, pesquisar e desenvolver, e não tratá-la apenas como uma disciplina isolada.

A segunda frente é a cibersegurança. O CESAR atua no segmento por meio do CISSA, Centro de Competência Embrapii em Segurança Cibernética. Em setembro, Recife sediará um dos seis hubs regionais do Exercício Guardião Cibernético, coordenado pelo Comando de Defesa Cibernética do Exército Brasileiro.

“Recife passa a integrar uma rede nacional que conecta Forças Armadas, governo, academia e empresas na proteção de infraestruturas críticas do país”, diz Karla.

A terceira é o Laboratório de Experimentação, Aprendizagem e Performance, criado para acelerar o aprendizado sobre inteligência artificial e testar novos modelos de negócio.

A quarta envolve a expansão da educação e da pesquisa e a integração entre a CESAR School e o centro de inovação.

A meta financeira acompanha o investimento. O CESAR espera chegar a R$ 500 milhões em receita em 2026, crescimento de cerca de 15% sobre o resultado do ano anterior.

Uma sucessão com continuidade, mas sem repetição

A escolha de Karla representa uma sucessão interna. Ela entrou no CESAR em 2003, na área financeira, quando a organização ainda tinha uma escala muito menor.

Ao longo dos anos, passou pela controladoria, assumiu a diretoria administrativo-financeira e, em 2018, chegou ao C-Level como COO. Nesse período, liderou operações, finanças, pessoas e governança.

A experiência financeira deve pesar em uma instituição sem fins lucrativos que precisa sustentar pesquisa, educação e novos negócios com os recursos gerados pela própria operação.

“Conheço essa casa por um lado que não costuma aparecer em entrevistas, que é o do custo, da margem, da folha, dos contratos. Isso me deu uma compreensão muito profunda de como a organização funciona”, afirma.

O Conselho de Administração optou por manter o conhecimento interno na transição. Sérgio Soares, presidente do Conselho do CESAR, afirma que Karla já vinha conduzindo a organização e tem a confiança do colegiado para liderar a nova etapa.

A continuidade, porém, não significa manter o modelo atual. A própria Karla coloca a mudança como condição para o próximo ciclo. “Eu conheço profundamente a operação, a cultura e o modelo econômico do CESAR, mas a continuidade não significa fazer tudo da mesma forma”, afirma.

De Recife para o mercado global

A história do CESAR começou com um problema muito diferente do atual. Em 1996, Recife formava profissionais de tecnologia, mas muitos deixavam Pernambuco para encontrar oportunidades.

Um grupo de professores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) criou o CESAR para tentar reter esses talentos. O que nasceu como uma iniciativa ligada à formação de profissionais se transformou em um centro de inovação independente e sem fins lucrativos.

Cinco anos depois, o CESAR foi uma das instituições-âncora na criação do Porto Digital. O parque tecnológico reúne atualmente 541 empresas e mais de 24 mil profissionais. Em 2025, movimentou R$ 7,4 bilhões.

O próprio CESAR também deixou de depender apenas da atuação em Recife. Hoje mantém um hub em Manaus voltado à Indústria 4.0 e exporta tecnologia para os Estados Unidos.

Trinta anos depois da fundação, o problema original mudou. Recife passou de um lugar que perdia profissionais para um polo capaz de atrair empresas e talentos. Agora, o desafio de Karla é preparar o CESAR para uma transformação que pode mudar justamente o mercado que ajudou a construir.

“Talvez o maior desafio seja não deixar o sucesso atual nos tornar lentos. Uma organização de inovação precisa ser capaz de questionar o próprio modelo antes que o mercado faça isso por ela”, afirma Karla.

AutorBianca Camatta
FonteExame
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