CEO da Casas Bahia diz que fechamento de 298 lojas foi 'onda única' e descarta novos
Com cenário macro desafiador e 2027 visto como pior que 2026, companhia afirma usar recuperação judicial para reorganizar passivos e preservar uma "operação autofinanciável"

A Casas Bahia (BHIA3) decidiu concentrar em uma única rodada o fechamento de 298 lojas consideradas menos rentáveis e não prevê novos cortes da rede, segundo afirmou o CEO do grupo, Renato Franklin.
Em teleconferência com analistas nesta segunda-feira, 17, após anunciar mais cedo um pedido de recuperação judicial e obalanço do 2° trimestre deste ano no final de semana, o executivo destacou que o fechamento das lojas faz parte da segunda fase do plano de transformação e tem como objetivo reduzir o tamanho da operação até um nível que a empresa consiga financiar com a própria geração de caixa.
“Optamos por fazer em uma onda única”, afirmou Franklin. Segundo o CEO, embora a execução tenha trazido dificuldades operacionais, a administração considerou que concentrar os fechamentos seria a melhor forma de evitar novas incertezas e ansiedade sobre eventuais ajustes. “Você resolve de uma vez, não gera aquela ansiedade por mais ajustes”, disse.
As lojas escolhidas para o fechamento são as de menor rentabilidade e apresentam menor penetração de crediário. Com a redução, a companhia pretende preservar uma estrutura mais enxuta e concentrar a operação nos negócios com maior capacidade de geração de caixa.
O movimento representa quase 30% das lojas da companhia. Segundo Franklin, o corte também reduz cerca de 30% dos custos, enquanto as unidades fechadas representavam aproximadamente 14% da receita. A Casas Bahia, porém, pretende manter infraestrutura suficiente para recuperar crescimento no futuro, embora não trabalhe com essa possibilidade nos próximos anos.
A lógica, segundo o CEO, mudou. O objetivo agora não é crescer ou preservar determinado tamanho, mas encontrar uma estrutura capaz de se sustentar financeiramente. “O tamanho é consequência, não é objetivo”, afirmou.A decisão de fazer o ajuste de uma só vez está ligada justamente à tentativa de encerrar um ciclo de mudanças graduais. Franklin disse que a companhia fez as contas previamente para entender como ficaria o fluxo de caixa depois dos impactos de curto prazo e dimensionou a operação para que ela fosse autofinanciável.
A Casas Bahia também está mexendo na rentabilidade do canal digital. Segundo Franklin, a companhia identificou operações com custos elevados e menor rentabilidade e decidiu reduzir essas linhas.
O CEO citou diferenças entre vendas orgânicas, vendas pagas e vendas comissionadas e afirmou que os marketplaces podem ser utilizados como uma alternativa mais eficiente quando a manutenção de determinadas operações próprias deixa de fazer sentido econômico.
O ajuste das lojas e dos canais digitais faz parte de um plano mais amplo, que inclui redução de custos corporativos, revisão de contratos, corte de investimentos e mudanças na gestão dos estoques. O CAPEX, segundo a companhia, será reduzido em quase 40%.
Casas Bahia não espera melhora do cenário econômico
Depois de detalhar o corte das lojas, Franklin foi questionado pelo Bank of America (BofA) sobre o cenário de consumo e se a empresa já havia incorporado em seu plano uma eventual piora da economia.
O CEO afirmou, contudo, que "nós não trabalhamos com melhora do cenário macro".
"Nós dimensionamos essa fase dois, considerando um 2027 pior do que 2026. Entendemmos que o endividamento vai continuar, que algumas alavancas elas deram um fôlego pro consumo durante esse ano, como empréstimo consignado, por exemplo, mas que isso cria um passivo para o futuro e para os consumidores. Podemos ter sim ainda uma deterioração do cenário de crédito", afirmou.
Na avaliação de Franklin, o consumidor enfrenta três pressões principais: juros elevados, endividamento das famílias e uma disputa cada vez maior pelo orçamento disponível com parte dele sendo desviado, inclusive, para as apostas online, as chamadas bets. O efeito é mais forte entre consumidores de menor renda, que dependem mais do crédito para comprar bens duráveis, como móveis e eletroeletrônicos.
“Todos os dias sai um número diferente sobre o consumo das famílias. As bets, por exemplo, estão consumindo parte do dinheiro das famílias e atrapalhando o consumo que circula na indústria. Isso fica claro quando comparamos as lojas físicas com o online: nas classes mais altas, o consumidor é mais resiliente, e esses bens são quase essenciais. Já nas classes mais baixas, mais dependentes de crédito, o problema é maior", afirmou.
O CFO do grupo varejista, Élcio Ito, acrescentou que a carteira de crédito da companhia continua resiliente em termos de inadimplência e perdas, mas que a concessão passou a ser feita de forma muito mais disciplinada e rigorosa.
" Como atuamos muito na base da pirâmide, somos mais sensíveis aos ciclos econômicos: em um cenário macro pior, somos mais impactados; por outro lado, se a economia melhorar, também conseguimos capturar essa melhora de forma mais alavancada", disse o diretor financeiro.
'Decisão dura para tornar operação mais rentável', diz CEO
A mudança de estratégia foi descrita por Franklin como uma decisão necessária para preservar os avanços operacionais obtidos pela companhia, diante de uma estrutura de passivos que ainda pesa sobre os resultados.
“Resolvemos aqui tomar uma decisão dura de desmontar essas bicicletas para deixar a companhia mais saudável, mais rentável no médio prazo”, afirmou.
No segundo trimestre, a receita líquida cresceu 1,6% na comparação anual, enquanto o GMV, o volume bruto de mercadorias, chegou a R$ 10,5 bilhões, com avanço de 15,3% no canal online. O Ebitda ajustado foi de R$ 518 milhões, com margem de 4,4%.
Apesar da evolução operacional, oGrupo Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,117 bilhões, impactado por eventos não recorrentes. No primeiro semestre, o prejuízo líquido acumulado chegou a R$ 11,181 bilhões.
Em 30 de junho, o passivo circulante superava o ativo circulante em R$ 7,837 bilhões no balanço consolidado. O patrimônio líquido estava negativo em R$ 8,270 bilhões.
Para Franklin, o número mostra que a operação ainda não gera resultado suficiente para carregar todos os passivos da companhia.
Recuperação judicial é instrumento do plano, segundo o grupo
É nesse contexto que a recuperação judicial aparece como parte da estratégia. Segundo a administração, o processo não muda o destino pretendido para a companhia: uma operação saudável, rentável e autofinanciável. A recuperação judicial seria o instrumento para reorganizar os passivos e preservar o caixa enquanto os demais ajustes são executados.
A Casas Bahia entrou nesta segunda-feira com um pedido de recuperação judicial envolvendo R$ 17,3 bilhões em dívidas. A companhia também busca proteger a continuidade da operação e organizar a negociação com os credores.
"A recuperação judicial faz parte da segunda fase do nosso plano de transformação, mas ela não é o destino da companhia. O objetivo continua sendo construir uma operação saudável e rentável. A recuperação judicial é apenas o instrumento que vamos usar para resolver os passivos estruturais da companhia, mantendo a mesma estratégia", disse o CEO.
Segundo Franklin, a empresa tentou resolver os passivos sem recorrer à recuperação judicial desde 2023, mas a mudança do ambiente macroeconômico e a restrição de crédito tornaram essa estratégia insuficiente.
