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08/08/2026
6 min

CEO do Assaí alerta para bets e juros: ‘Não era para estarmos nesse nível de endividamento’

Belmiro Gomes afirma que juros altos e avanço das apostas pressionam o orçamento das famílias e já afetam o varejo, com queda no consumo entre a população de menor renda

CEO do Assaí alerta para bets e juros: ‘Não era para estarmos nesse nível de endividamento’

O Brasil vive um cenário que chama a atenção de Belmiro Gomes, CEO do Assaí: mesmo com a taxa de desemprego em patamares baixos, o nível de endividamento da população continua elevado.

Para o executivo, a combinação de juros altos por um período prolongado e o avanço das apostas esportivas ajuda a explicar a pressão sobre o orçamento das famílias, principalmente entre os brasileiros de menor renda.

“Mesmo com uma taxa de desemprego baixa, não era para nós estarmos no nível de endividamento da população”, afirma Gomes em entrevista ao De Frente com CEO, programa da EXAME.

A preocupação parte da visão privilegiada que o executivo tem sobre o consumo. O Assaí recebe aproximadamente 40 milhões de pessoas por mês em suas lojas e atende consumidores de diferentes classes sociais, além de cerca de 1 milhão de micro e pequenos empreendedores.

Na avaliação de Gomes, o endividamento das famílias de menor renda é hoje um dos principais desafios para o varejo.

“O endividamento das classes sociais mais baixas é um dos maiores desafios. Anos seguidos de juro muito elevado têm cobrado um preço”, diz.

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Juros pesam mais sobre a baixa renda

Para o CEO do Assaí, a manutenção dos juros elevados tem efeitos diferentes sobre as classes sociais e pode aprofundar a desigualdade.

De um lado, Gomes afirma que está a parcela da população que possui recursos investidos e se beneficia da elevada remuneração da renda fixa. Do outro, estão milhões de brasileiros endividados que precisam pagar juros altos.

“Você tem os 80% da população altamente endividado, pagando uma das maiores taxas de juro do mundo. O que acontece no fim, quando o juro fica elevado por um tempo maior, ele começa a aumentar a desigualdade social”, afirma.

Segundo ele, o efeito dos juros já aparece de maneira clara no comportamento do consumidor.

Gomes afirma que, no quarto trimestre de 2025, formatos do varejo alimentar voltados à população de maior renda registraram crescimento nominal de 4%, enquanto aqueles mais expostos aos consumidores de baixa renda tiveram queda de 9%. A diferença chegou, portanto, a 13 pontos percentuais.

“Esse delta a gente não via há muitos anos. Então, óbvio que quando você tem o ciclo de juro elevado, você vai ter a classe mais baixa sofrendo mais, mas nessa medida ele tem sido inédito”, afirma.

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E onde entram as bets?

Gomes também chama atenção para o crescimento das apostas esportivas no país.

“Quando a gente olha para os números dos dados econômicos, taxa de desemprego, uma série de outras, não era para estar com a maioria da população endividada”, afirma.

É nesse contexto que o CEO coloca as bets na discussão. Segundo Gomes, existem estudos e reportagens relacionando parte do problema ao hábito das apostas.

“Parte disso tem várias matérias, vários estudos mostrando. Tem a ver com o hábito das apostas, que acho que o brasileiro, até por gostar tanto de futebol, acaba sendo seduzido por isso e está disponível no smartphone 24 horas por dia”, diz.

Na avaliação do executivo, a combinação pode ser particularmente prejudicial para quem já está com o orçamento pressionado.

“Na medida que o juro aperta, de um lado, a pessoa tem uma expectativa com a aposta, do outro. Isso tem levado a um aumento do endividamento”, afirmou.

A relação apontada por Gomes é uma avaliação do executivo. Na entrevista, ele não apresenta um levantamento próprio do Assaí que mensure quanto do endividamento dos brasileiros pode ser atribuído às apostas.

Pequenos negócios também sentem os juros

O impacto do crédito caro também aparece entre os clientes empresariais do Assaí. Cerca de 40% do faturamento da companhia vem de pessoas jurídicas, grupo que reúne desde mercadinhos e padarias até restaurantes, pizzarias, escolas e hotéis.

Segundo Gomes, alguns pequenos empreendedores estão evitando formar grandes estoques diante do custo elevado do dinheiro. Com isso, aumentam a frequência de visitas às lojas para comprar apenas o necessário para manter o negócio funcionando.

O cliente do setor de serviços chega a frequentar as unidades do Assaí, em média, 172 vezes por ano.

“Como o juro está elevado, ele não consegue formar estoque, então ele acaba usando a nossa loja como um ponto de estoque”, afirma.

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Juros também frearam investimentos do Assaí

A Selic elevada não afeta apenas os clientes. O próprio Assaí precisou rever seus planos de expansão para acelerar a redução da dívida.

Em 2021, a companhia comprou 70 pontos comerciais do Extra, em um investimento da ordem de R$ 7 bilhões. Naquele momento, segundo Gomes, a taxa básica de juros estava em 2% e as projeções indicavam juros futuros próximos de 7%.

O cenário acabou sendo muito diferente.

“Quando me perguntam qual série estou assistindo, brinco: estou assistindo à série de terror chamada Selic,” diz o CEO.

Segundo o executivo, o Assaí desembolsou cerca de R$ 7 milhões por dia em juros em 2025, incluindo sábados, domingos e feriados. O montante ficou em aproximadamente R$ 2,3 bilhões no ano. Ainda assim, a companhia conseguiu reduzir a dívida líquida em R$ 1,2 bilhão, segundo Gomes.

Para continuar diminuindo a alavancagem, a rede decidiu pisar no freio nos investimentos.

“O Assaí está investindo menos do que nós gostaríamos de investir, do que nós poderíamos investir, para poder reduzir a dívida”, afirmou.

Para 2026, a estratégia é priorizar a redução do endividamento e a manutenção das margens, ainda que isso signifique crescer em ritmo menor.

Mas, para Gomes, o impacto mais preocupante dos juros elevados não está no balanço das grandes empresas. Está no bolso dos brasileiros.

“Se o juro permanecer por muito mais tempo mais elevado, talvez impacte menos o Assaí, que gera mais caixa do que a dívida, mas a questão é o quanto de custo social isso vai ser cobrado na linha do tempo.”

AutorLayane Serrano
FonteExame
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