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Sacre Investimentos
EmpresasACS
05/08/2026
6 min

CEO do Itaú (ITUB4) liga sinal amarelo para a economia: “O olhar é de cautela” — e problema vai além do Brasil

Mesmo após entregar mais um trimestre sólido, Milton Maluhy vê riscos no horizonte; veja os fatores que exigem atenção dos investidores, segundo o executivo

CEO do Itaú (ITUB4) liga sinal amarelo para a economia: “O olhar é de cautela” — e problema vai além do Brasil

Itaú Unibanco (ITUB4) fez a lição de casa. Entregou mais um trimestre em linha com as expectativas, manteve a rentabilidade em patamar elevado e voltou a mostrar uma carteira de crédito resiliente. É por isso que, para o maior banco privado do país, os próximos desafios já não estão dentro de casa. 

Depois de divulgar os resultados do segundo trimestre de 2026 (2T26), o CEO Milton Maluhy Filho adotou um discurso bem mais cauteloso ao olhar para o horizonte.  

Guerra no Oriente Médio, juros elevados por mais tempo nos Estados Unidos, desaceleração da economia brasileira, incertezas eleitorais e, principalmente, o rumo das contas públicas passaram a ocupar o centro das preocupações do banco. 

Em entrevista coletiva nesta quarta-feira (5), o executivo repetiu que o momento exige prudência, apesar da boa fase operacional do Itaú. 

"O olhar é de cautela, não só pelo cenário local, mas especialmente pelo cenário global", afirmou. 

O risco, na visão do Itaú, está muito além do Brasil 

Na avaliação de Maluhy, o ambiente internacional continua sendo um dos principais focos de atenção. 

A combinação entre os conflitos no Oriente Médio, uma economia ainda resiliente nos EUA e a possibilidade de o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) manter os juros elevados por mais tempo segue alimentando pressões inflacionárias no mundo — e isso acaba chegando também ao Brasil. 

Por aqui, embora a inflação de curto prazo tenha dado sinais de acomodação e a atividade econômica comece a perder ritmo, o CEO avalia que o aperto monetário ainda está longe de mostrar todos os seus efeitos. 

"Juros muito altos por tempos prolongados geram, sem dúvida, pressão sobre a atividade econômica e sobre o endividamento, tanto das empresas quanto das famílias", afirmou. 

Questionado sobre as eleições de 2026, Maluhy reconheceu que o processo tende a elevar a volatilidade dos mercados, mas deixou claro que sua maior preocupação continua sendo outra: a situação fiscal

"O social e o fiscal têm que andar juntos. Tão importante quanto o social é um fiscal organizado, porque, se ele anda desordenado, traz inflação, reduz o poder de compra das famílias e limita a capacidade do próprio governo de investir." 

Cautela do Itaú já aparece no guidance 

O discurso mais conservador do Itaú não ficou restrito às projeções para a economia. Ele também apareceu nas próprias estimativas do banco para 2026. 

O Itaú revisou para baixo o guidance para receitas de prestação de serviços e seguros. Com o ajuste, o piso da projeção anterior virou o novo teto: a expectativa de crescimento passou da faixa de 5% a 9% para um intervalo entre 2% e 5%. 

Segundo o diretor financeiro (CFO), Gabriel Moura, o ajuste reflete principalmente a combinação entre mercados de capitais menos aquecidos e uma atividade mais fraca dos clientes. 

Mas nem toda essa desaceleração decorre do cenário macroeconômico. Maluhy afirmou que o Itaú vem reduzindo deliberadamente receitas ligadas a tarifas, como conta corrente, anuidades de cartão e serviços para empresas, em uma estratégia voltada para fortalecer o relacionamento com os clientes. 

"Para que você seja o principal banco na vida do cliente, precisa tirar da frente aquilo que gera atrito no relacionamento", afirmou. 

De acordo com o executivo, essas receitas hoje representam menos da metade do que geravam dois anos atrás. 

Ao mesmo tempo, o banco vem ampliando fontes alternativas de rentabilidade, como operações de financiamento ao consumo — entre elas, o Pix Parcelado —, cujas receitas aparecem na margem financeira e não na linha tradicional de prestação de serviços. 

Crédito continua saudável, apesar dos juros altos 

Mesmo diante de um ambiente econômico mais turbulento, o Itaú afirma que a qualidade da carteira segue sob controle. 

Os atrasos de curto prazo da pessoa física, entre 15 e 90 dias, permaneceram estáveis em 3% no segundo trimestre. 

Na pessoa jurídica, houve aumento dos atrasos, mas o CEO classificou o movimento como um efeito pontual e mecânico decorrente do vencimento das carências concedidas em programas públicos.  

"Não é, em hipótese alguma, um sinal de deterioração do portfólio", afirma o executivo. 

Como boa parte dessas operações possui garantias, o impacto sobre o custo de crédito permanece bastante limitado e as provisões não sobem. 

Na pessoa física, o CEO foi ainda mais enfático: "Não há nenhuma perspectiva de piora." 

Segundo ele, o crescimento recente da carteira ocorreu justamente nos segmentos considerados mais resilientes, o que ajuda a preservar a qualidade dos ativos mesmo em um ambiente de juros elevados. 

O programa de renegociação de dívidas Desenrola também voltou ao debate. Embora o Itaú tenha renegociado R$ 1,1 bilhão em dívidas de 371 mil clientes, Maluhy classificou o impacto do programa como "absolutamente imaterial" para os indicadores do banco. 

De acordo com o CEO, a segunda edição do programa teve adesão superior à primeira e acabou criando oportunidades para renegociações que extrapolaram o próprio escopo do Desenrola. 

Americanas (AMER3) volta à mesa — e Itaú endurece o discurso 

Um dos temas mais delicado da coletiva foi a fraude contábil da Americanas (AMER3). Maluhy voltou a classificar o episódio como "uma das maiores fraudes já vistas no país" e reforçou que os bancos também foram vítimas do esquema. 

"É ilógico imaginar que quem perdeu bilhões de reais tenha participado de uma fraude", disse. 

O executivo também rebateu críticas de que as instituições financeiras teriam lucrado com a rolagem das dívidas da varejista. 

"Os bancos perderam muito dinheiro com a Americanas. Mesmo considerando todas as receitas obtidas anteriormente, o saldo continua sendo fortemente negativo." 

Segundo ele, os bancos jamais tiveram acesso às informações que ocultavam os passivos da companhia e, portanto, não tinham condições de identificar a fraude. "A responsabilidade pela contabilidade é da própria empresa." 

"A posição do banco é refutar qualquer tentativa de trazer qualquer banco do sistema para essa discussão, confiantes de que, com os dados corretos e as informações, ficará claro na Justiça de quem foi a culpa e a responsabilidade." 

AutorCamille Lima
FonteSeu Dinheiro
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