‘Cerca de 50% do café que usamos no mundo tem origem no Brasil’, diz presidente da Starbucks Brasil
À frente da operação desde a aquisição pela Zamp, Mariane Wiederkehr detalha plano de expansão e inovação, como bebidas proteicas e o novo formato “Coffee House”

"Somos uma empresa de pessoas que serve café, e não uma empresa de café que serve pessoas", diz Mariane Wiederkehr, presidente da Starbucks Brasil, em entrevista ao "De frente com CEO", da EXAME.
A frase é associada a Howard Schultz, ex-CEO e uma das figuras centrais na construção da Starbucks moderna, e é com essa essência que, Wiederkehr afirma que a companhia pretende crescer no Brasil, um dos principais polos de crescimento dessa marca que é uma das mais conhecidas do mundo.
Isso porque o café brasileiro ocupa um papel estratégico dentro da operação global da marca.
"Cerca de 50% do café utilizado pela Starbucks no mundo tem origem no Brasil", diz presidente, que afirma que traz também outros tipos de cafés para variar as bebidas, como o grão que vem da Colômbia.
A combinação entre a força da cadeia cafeeira nacional, o hábito de consumo dos brasileiros e o espaço para expansão coloca o país em uma posição relevante dentro da companhia, diz Wiederkehr.
“Esse é um dos motivos pelo qual a Starbucks tem aqui no Brasil um dos seus Farm Support Centers. Aqui a gente ajuda o produtor a melhorar suas técnicas produtivas, a evoluir no negócio”, afirma.
Zamp: Starbucks sob nova direção
Wiederkehr assumiu a presidência da operação brasileira em outubro de 2024, após a aquisição da Starbucks Brasil pela Zamp, empresa controlada pelo fundo Mubadala Capital. O desafio, segundo ela, é liderar uma nova fase da marca no país, combinando crescimento, inovação e fortalecimento da cultura.
Hoje, a Starbucks está presente em 85 países, com cerca de 40 mil lojas globalmente. No Brasil, a operação ainda representa uma pequena parcela desse ecossistema. Para Wiederkehr, justamente essa diferença mostra o potencial de crescimento do mercado brasileiro.
“A gente hoje tem só 113 lojas no Brasil, então isso demonstra o potencial de crescimento. Temos ainda muito espaço para crescer”, afirma.
A companhia planeja abrir 35 novas lojas no Brasil neste ano, com concentração inicial em São Paulo, mas também retomando presença em mercados como Belo Horizonte, Minas Gerais, e a Zona Sul do Rio de Janeiro. Segundo a presidente, a estratégia é ampliar a capilaridade da marca para estar mais próxima da rotina dos consumidores.
Uma marca criada em torno do café para ser o “terceiro lugar” das pessoas
A cultura que Wiederkehr descreve acompanha a Starbucks desde a sua origem. Fundada em 1971, em Seattle, nos Estados Unidos, a companhia nasceu com a proposta de aproximar consumidores do universo do café, valorizando a origem dos grãos, os métodos de preparo e a experiência dentro das lojas.
Ao longo das décadas, a marca transformou seus espaços em um ponto de encontro entre a casa e o trabalho, conceito chamado de “terceiro lugar”. A ideia é que as cafeterias sejam ambientes onde as pessoas possam trabalhar, conversar, fazer reuniões ou simplesmente ter um momento de pausa.
No Brasil, essa filosofia também faz parte da formação dos profissionais. Independentemente da área de atuação, todos os funcionários da Starbucks passam pelo treinamento de barista para entender todo o processo do café, desde o grão até a xícara.
“Quando alguém ingressa na Starbucks, ela faz a sua formação de barista. Eu sinto muito orgulho de dizer que sou barista”, afirma Wiederkehr.
Segundo a executiva, que também já passou pelo treinamento, o estudo ajuda a criar uma conexão maior dos profissionais com o produto e com o propósito da companhia.
Inovação para os novos hábitos de consumo: proteínas, ube e o ‘Coffee House’
Apesar de ter o café como essência, a Starbucks busca ampliar sua conexão com diferentes perfis de consumidores por meio da inovação no cardápio. Nos últimos anos, a companhia passou a explorar novas categorias de bebidas e ingredientes, acompanhando tendências de consumo.
Entre as apostas estão bebidas com proteína, novos sabores inspirados em diferentes culturas, como o ube (ingrediente tradicional de algumas culinárias asiáticas), além da expansão de opções que valorizam diferentes formas de preparo do café.
A companhia também trabalha para reforçar métodos mais tradicionais, como o café coado, aproximando a marca de hábitos já conhecidos pelos brasileiros.
Para Wiederkehr, entender o comportamento local é essencial em um mercado competitivo. O Brasil, segundo ela, tem particularidades como a forte presença das padarias no consumo de café, o que exige que a Starbucks entregue mais do que apenas uma bebida.
“O Brasil é um mercado supercompetitivo e com algumas particularidades. Um exemplo disso são as padarias, que é algo muito do hábito de consumo de café do brasileiro”, afirma.
Por isso, a estratégia da empresa está baseada em três pilares: produto, experiência e proximidade com o consumidor. O objetivo é fazer com que as lojas sejam espaços de convivência, mantendo o conceito global da marca, mas adaptado aos hábitos brasileiros.
Tarifaço e mudança no consumo são desafios para a Starbucks
A inovação acontece também para manter a companhia competitiva no mercado frente a alguns desafios, como o aumento de custos provocado por tarifas comerciais dos Estados Unidos e as transformações nos hábitos de consumo. O café, por exemplo, chegou a entrar e depois a sair da lista do tarifaço, anunciada pelo governo de Donald Trump, mas saiu por um motivo simples, segundo a presidente.
"Os EUA é um país dependente do café brasileiro", diz a presidente. "A nossa expectativa é que o café continue fora da lista do tarifaço".
No começo, a executiva afirma que sentiu o impacto do tarifaço, mas conseguiram variar as origens dos cafés, afirma Wiederkehr.
Entre os movimentos que têm chamado atenção da indústria de alimentos e bebidas está o avanço das chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos da classe dos GLP-1, que têm levado consumidores a repensar escolhas alimentares e buscar produtos com diferentes perfis nutricionais.
Para a presidente da Starbucks Brasil, o caminho da companhia é continuar inovando e acompanhando essas novas demandas, sem perder a essência da marca ligada ao café e à experiência nas lojas.
A executiva destaca que a Starbucks tem ampliado seu portfólio com novas opções, como bebidas com proteína, sabores inspirados em diferentes culturas, como o ube, além de resgatar métodos tradicionais de preparo, como o café coado, para atender diferentes perfis de consumidores.
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Uma operação global de 40 mil lojas com planos de crescer no Brasil
A América Latina é uma das regiões prioritárias de crescimento da Starbucks, e o Brasil está entre os mercados estratégicos, diz Wiederkehr.
“A gente tem no Brasil uma das nossas grandes apostas de crescimento”, afirma a executiva.
A operação brasileira registrou crescimento de cerca de 25% nas vendas no último ano, segundo Wiederkehr.
A estratégia, de acordo com a executiva, é aumentar a capilaridade da marca antes de avançar para novas regiões.
“Tomamos várias xícaras de café ao longo do dia, então é importante ter um café no teu caminho para o trabalho ou perto da tua casa”, diz.
Para a Starbucks, o desafio agora é transformar uma marca global já conhecida pelos brasileiros em uma presença cada vez mais próxima da rotina de consumo do país, para além da tradicional padaria.
Resultados globais reforçam momento de recuperação da Starbucks
A Starbucks global encerrou o terceiro trimestre fiscal de 2026 com lucro líquido de US$ 1,045 bilhão, alta de 87,2% na comparação anual. O lucro por ação passou de US$ 0,49 para US$ 0,91, enquanto a receita líquida recuou 1,4%, para US$ 9,323 bilhões.
O desempenho foi impulsionado pela retomada do movimento nas lojas. As vendas globais mesmas lojas cresceram 7,9%, com alta de 4,2% nas transações e de 3,5% no tíquete médio. Na operação internacional, o avanço foi de 5,7%.
No período, a companhia abriu 175 novas lojas líquidas e encerrou o trimestre com 41.304 unidades em 85 países. Diante dos resultados, a Starbucks elevou sua projeção de lucro ajustado para o ano fiscal de 2026 e passou a estimar crescimento de cerca de 6% nas vendas mesmas lojas globais.
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