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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
22/07/2026
9 min

Chef Janaína Torres trará de volta clássico de SP em casarão dos anos 50 com investimento de R$ 7 mi

Chef Janaína Torres trará de volta clássico de SP em casarão dos anos 50 com investimento de R$ 7 mi

Quando o tradicional restaurante Star City encerrou as atividades, em janeiro de 2024, não desapareceu apenas um restaurante. São Paulo perdeu uma casa que atravessou décadas sem seguir tendências. Havia garçons de uniforme, toalhas brancas, móveis antigos e feijoada servida todos os dias — combinação que manteve o endereço de Santa Cecília aberto por 70 anos.

A chef Janaína Torres conhecia o salão antes de se tornar uma das cozinheiras brasileiras mais reconhecidas do país. Frequentava o restaurante com a família desde criança e costumava ir até lá especialmente para comer feijoada. Quando soube que o imóvel estava à venda, decidiu comprar o casarão, o mobiliário e o que havia restado da operação.

Agora, a empresária prepara uma nova fase para o endereço. Rebatizado de Estrela da Cidade, o restaurante receberá investimento estimado em R$ 7 milhões e deverá abrir em 2027. O imóvel, construído na década de 1950, será restaurado e ampliado. A obra inclui intervenções estruturais, instalação de coifa e caixa de gordura e a preparação da fundação para um terceiro pavimento.

A capacidade será reduzida dos atuais 90 lugares para 58, numa decisão que troca volume por uma operação mais controlada e próxima da cozinha. O projeto arquitetônico é do Metro Arquitetos Associados, escritório que já realizou trabalhos para instituições como o Masp e a Bienal de São Paulo.

“Eu estou tentando baixar, baixar, baixar porque fiquei desesperada. Mas o investimento está em R$ 7 milhões. É um imóvel muito antigo. Não tinha nem coifa, nem caixa de gordura, e vou ter que fazer uma fundação para levantar o terceiro andar”, afirma Janaína.

O Estrela da Cidade será o negócio mais pessoal de uma empresária que já participa de cinco operações gastronômicas no centro paulistano. Em seu endereço mais conhecido, o Bar da Dona Onça, são atendidas cerca de 15 mil pessoas por mês, com tíquete médio próximo de R$ 130, segundo ela. A casa, aberta em 2008 sob o edifício Copan, tem capacidade para 120 clientes nas áreas interna e externa.

Como reviver um restaurante que ficou parado no tempo

O Star City foi fundado em 1953, inicialmente com o nome de Stork Club, nas proximidades da avenida Angélica. Anos depois, mudou-se para a rua Frederico Abranches, onde funcionou até o começo de 2024.

O restaurante ficou conhecido, sobretudo, pela feijoada diária, embora também mantivesse no cardápio pratos que marcaram outra época da gastronomia paulistana, como língua ao molho madeira, camarão à provençal, canja de galinha e pescada à belle meunière.

A casa enfrentava dificuldades financeiras desde a pandemia e encerrou as atividades depois de 70 anos. O endereço havia se transformado em uma espécie de cápsula do tempo numa Santa Cecília cada vez mais ocupada por bares, cafés e restaurantes contemporâneos.

Janaína pretende preservar parte dessa memória, mas não transformar o Estrela da Cidade em uma reprodução literal do antigo negócio. Elementos arquitetônicos e itens do salão serão recuperados, enquanto a cozinha ganhará infraestrutura para sustentar uma operação atual.

“Vou deixar mais ou menos como era antes, para que as pessoas se recordem”, diz. “Era um restaurante que fazia feijoada todos os dias. Eu ia lá porque era apaixonada por feijoada, que é um dos meus pratos-ícones. Então ele volta a ter feijoada todos os dias.”

O nome também indica essa combinação entre continuidade e mudança. “Estrela da Cidade” é a tradução livre de Star City, mas evita a apropriação direta da marca criada pela antiga família proprietária. A ideia é reconhecer o passado sem tentar reproduzi-lo artificialmente.

Além da feijoada, o cardápio deverá incorporar pratos brasileiros, ingredientes de pequenos produtores e algumas receitas de panela associadas ao Dona Onça. A pescada à belle meunière, um dos clássicos da antiga casa, deve voltar rebatizada como “pescada da bela do moinho”. Rabada, galinhada e estrogonofe também estão entre os pratos considerados para o menu.

A música será outra ligação com a história. O Star City teve seresteiros e apresentações no salão. Janaína planeja recuperar essa dimensão com piano-bar e música brasileira ao vivo, dentro de um conceito que define como restaurante cultural.

“Lá tinha música, seresteiro. Muito provavelmente vou trazer todas essas nuances para dentro do projeto, porque acho que ele é mais cultural”, afirma.

Como Janaína tornou-se uma chef de sucesso

A história de Janaína com o centro de São Paulo não começou nos restaurantes. Nascida em um cortiço da região, ela cresceu acompanhando a mãe em uma pequena operação de roupas de couro e, ainda jovem, vendia comida nos arredores da Praça da República. Aos finais de semana, montava uma barraca com sarapatel, cuscuz, feijoada e galinhada. Também vendeu coxinhas e iogurte natural.

Aos 15 anos, participou da sociedade de um pequeno bar na Bela Vista. A gestão era improvisada, sem controle formal de caixa, mas a experiência confirmou uma ambição que já existia: ser dona de um boteco de comida popular.

“Desde muito nova, eu sabia que ia ser dona de um bar. Não sabia quando exatamente, mas batalhava por isso. Meu sonho era ser dona de boteco”, diz.

A necessidade de financiar esse plano levou Janaína a buscar uma carreira no mercado de bebidas. Depois de abandonar a escola na sétima série, começou a estudar vinhos por conta própria, trabalhou no varejo e se especializou no setor. Chegou à gerência de marketing da Pernod Ricard, onde permaneceu sete anos.

Durante quase uma década, guardou dinheiro para abrir o próprio negócio. Em 2008, pediu demissão e investiu as economias no Bar da Dona Onça.

O endereço escolhido, no térreo do Copan, era visto com desconfiança. A rua concentrava prostituição, tráfico e imóveis degradados. Para Janaína, entretanto, a mistura social não era um defeito do centro, mas parte de sua identidade.

“Nunca entendi quando falavam: ‘Quem vai para lá?’. Eu falava: ‘Eu’”, afirma.

“Quando você vem para o centro de São Paulo, tem que entender que vai estar de frente com a vida real, como ela é.”

Cinco meses depois da abertura, o Dona Onça recebeu seu primeiro prêmio de melhor cozinha. Vieram outros reconhecimentos, filas na porta e uma mudança na percepção sobre a comida servida no salão: pratos feitos em panela de pressão, receitas domésticas e preparações populares passaram a ocupar espaço num mercado ainda dominado por referências estrangeiras.

“Eu sofria muito preconceito dos chefs mais velhos. Eles não entendiam esse conceito do Brasil, essa comida cotidiana”, diz. “A cozinha popular brasileira é artesã. Uma coxinha dá muito mais trabalho do que cozinhar um filé-mignon no sous-vide.”

Quais os outro negócios de Janaína

O crescimento ocorreu pela criação de operações diferentes, mas conectadas por fornecedores, equipes, conhecimento de cozinha e presença geográfica. Depois do Dona Onça, Janaína participou da concepção da Casa do Porco, construída em torno de uma única proteína e comandada por Jefferson Rueda, seu ex-marido e sócio em parte dos negócios.

Vieram depois o Hot Pork, dedicado a cachorros-quentes feitos com salsicha de produção própria; a Sorveteria do Centro; e o Merenda da Cidade, restaurante de almoço popular inspirado no trabalho realizado por Janaína com a alimentação de escolas públicas.

No Merenda, o cliente encontra refeição completa por R$ 49. O espaço nasceu dentro de um refeitório usado pela equipe e não foi concebido como principal fonte de lucro. A operação, contudo, passou a se sustentar e registra meses de resultado positivo devido ao fluxo diário de clientes.

“Foi mais para desenvolver o projeto do que para ganhar dinheiro. Mas é um lugar que não me dá nenhum tipo de prejuízo e tem muitos meses em que consigo ter um lucro inesperado”, afirma.

A lógica de expansão de Janaína é reinvestir o resultado das operações na criação ou na recuperação do negócio seguinte. É um modelo que reduz a dependência de investidores externos, mas concentra capital em imóveis, equipamentos e restaurantes — ativos de baixa liquidez e operação complexa. Conforme relatou anteriormente, “o sucesso de um projeto banca o próximo”.

No Estrela da Cidade, ela terá como sócio Julio Neto, herdeiro do empresário Julio Cesar de Toledo Piza Junior, que participou da abertura do Dona Onça. Ainda assim, esta será a primeira operação planejada para funcionar sob comando direto de Janaína, sem a divisão criativa que marcou outros projetos.

Ela pretende permanecer diariamente no Dona Onça, mas concentrará a maior parte do tempo na nova casa. Não haverá um chef executivo encarregado de traduzir suas ideias. Das dimensões da cozinha à altura das prateleiras, a operação está sendo desenhada para que ela própria possa comandá-la.

Como crescer sem transformar tudo em escala

A redução do número de lugares no futuro Estrela da Cidade ajuda a explicar a estratégia de Janaína. O negócio não nasce para ser replicado em série nem para alcançar rapidamente o maior faturamento possível. A aposta está na combinação de experiência, identidade cultural e memória — elementos difíceis de padronizar, mas capazes de sustentar tíquetes e margens maiores quando a execução funciona.

Também é uma resposta aos limites econômicos do setor. Janaína afirma que restaurantes que antes alcançavam rentabilidade entre 15% e 16% enfrentam hoje custos mais altos,tributação pesada e necessidade permanente de reinvestimento. Segundo ela, suas empresas estão no regime de lucro presumido e destinam 26,5% da receita a impostos.

“O meu maior problema hoje é a tributação. Muita gente que não é estruturada como empresário, que não tem um corpo de gestão dentro da empresa, vai quebrar”, afirma.

O tamanho do investimento no Estrela da Cidade mostra a contradição. Recuperar um casarão histórico é mais caro e demorado do que adaptar um imóvel novo. Ao mesmo tempo, é justamente o prédio, com suas camadas de memória, que diferencia o negócio num mercado em que conceitos e cardápios podem ser copiados rapidamente.

“Eu sou uma empresa ainda muito familiar e estou meio que sócia sozinha. Então vou fazer devagarzinho”, diz Janaína. “Mas vai ficar bonito.” 

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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