Chilli Beans pede recuperação extrajudicial para renegociar dívida de R$ 340 milhões
Empresa fundada por Caito Maia chega a um acordo e prevê aporte conduzido pelos próprios credores

A Chilli Beans, rede brasileira de óculos e acessórios fundada pelo empresário Caito Maia, está protocolando nesta sexta-feira, 30, um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar uma dívida financeira de R$ 340 milhões.
A companhia chegou a um acordo com seus principais credores e prevê receber um aporte de até R$ 50 milhões para financiar sua reestruturação e sustentar os próximos passos de crescimento.
O plano apresentado prevê novos prazos e condições para o pagamento das dívidas com instituições financeiras. Segundo a empresa, fornecedores, funcionários e demais parceiros não estão abrangidos pelo processo.
O acordo envolve o Itaú, a Akron Capital e a Vega Asset, que atuam como financiadores âncoras e coordenam a entrada de novos recursos na companhia.
A medida ocorre em um momento de reorganização financeira da marca, que se prepara para completar 30 anos em 2027 e mantém planos de expansão no Brasil e no exterior.
"Estamos muito otimistas, lançando produtos incríveis, abrindo novas lojas na América Latina e prontos para celebrar três décadas de história em 2027 com a energia que é a nossa maior característica", afirma Caito Maia, fundador e CEO da Chilli Beans.
Caito Maia, fundador e CEO da Chilli Beans: "Eu sempre tenho boas expectativas para a Chilli Beans, mas ano que vem será um período de muito mais foco em qualidade e eficiência do que quantidade, especialmente em períodos de taxas de juros tão elevados" (Leandro Fonseca /Exame)
Veja também: Justiça aceita pedido de recuperação da Marabraz, que já teve 135 lojas e agora deve R$ 140 milhões
Por que a Chilli Beans pediu recuperação extrajudicial?
A recuperação extrajudicial é um mecanismo previsto na legislação brasileira que permite às empresas negociar diretamente com seus credores novas condições para o pagamento de dívidas.
Diferentemente da recuperação judicial, o processo é conduzido inicialmente fora da Justiça, com a negociação de um plano entre a companhia e seus credores. Posteriormente, o acordo é submetido ao Judiciário para homologação.
No caso da Chilli Beans, a iniciativa busca reorganizar a estrutura de capital e permitir que a companhia concentre seus recursos na operação e em sua estratégia de crescimento.
A empresa não detalhou as condições específicas para o pagamento dos R$ 340 milhões, como eventuais descontos, prazos de carência ou cronograma de quitação.
Segundo Maia, a decisão ocorre após um período de dificuldades enfrentadas pela companhia em meio aos desafios do varejo brasileiro.
"Este tem sido um período desafiador para o varejo brasileiro. Passamos por um momento difícil, mas saímos ainda mais fortes e conscientes do que representamos para milhares de consumidores e centenas de parceiros", afirma o empresário. "Agradeço o carinho que tenho recebido de todos. Isso não só me manteve confiante, como me deu a certeza de que sairíamos ainda melhores de tudo isso", diz.
Os juros elevados foram um dos fatores que levou a Chilli Beans a acumular uma dívida de R$ 340 milhões, segundo Caito.
"Foi uma combinação de fatores, mas especialmente dois fatores pesaram muito. O primeiro foi o aumento brutal dos juros, que atingiu os franqueados e também encareceu a dívida da companhia. Isso pressionou o caixa e criou uma bola de neve. O segundo foi o salto da inadimplência de parte da rede franqueada, que saiu de um patamar histórico próximo de 3% e chegou a cerca de 22%, no período pós-pandemia", afirma o empresário.
Hoje, Caito afirma que a rede está em uma situação melhor, com percentual de inadimplência na faixa dos 4%. "Isso, aliado ao nosso crescimento em vendas, e as iniciativas que estamos tomando, nos dão segurança para dizer que devemos voltar a crescer em breve", afirma.
O faturamento da Chilli Beans cresceu de R$ 890 milhões em 2023 para R$ 1 bilhão em 2025, uma alta acumulada de 12,36%, mas para 2026 a expectativa é chegar a R$ 940 milhões, uma queda de 6% em comparação ao último ano.

Veja também: Por que a Ri Happy pediu recuperação extrajudicial? Entenda a dívida de R$ 827 milhões
Quem vai investir R$ 50 milhões na Chilli Beans?
Além da renegociação da dívida, o acordo prevê a entrada de até R$ 50 milhões em novos recursos, que serão disponibilizados pelos próprios credores envolvidos na reestruturação.
O Itaú, a Akron Capital e a Vega Asset participam da coordenação desse financiamento, que deverá ajudar a empresa a executar seu plano de reorganização.
Para Andre Dela Togna, vice-presidente responsável pelas operações da Chilli Beans, a injeção de recursos representa um passo importante para a continuidade dos negócios.
"O novo investimento, que será realizado pelos próprios credores, reforça a confiança do mercado no potencial da empresa e representa um impulso para a execução de nossa estratégia de crescimento", afirma.
Na avaliação de Felipe Casotti, sócio da Akron Capital, a renegociação permitirá à companhia adequar suas obrigações financeiras à atual realidade do negócio.
"Entendemos que a renegociação com credores permitirá a companhia readequar sua estrutura de capital à realidade atual do negócio, criando condições para que possa concentrar seus esforços na operação, fortalecer sua relação com franqueados e fornecedores e retomar uma trajetória de crescimento sustentável", diz.
A Vega Asset, outro credor envolvido no processo, também aposta na recuperação da empresa.
"Acreditamos nos fundamentos sólidos da Chilli Beans, uma marca icônica, reconhecida, com uma história de 30 anos. A capacidade de seu fundador e CEO também é amplamente reconhecida não só no mercado, mas também entre os consumidores e parceiros, o que mostra toda a força da marca", afirma Lucas Piloto, sócio da Vega Asset.
Segundo o executivo, o objetivo é preservar o valor construído pela companhia ao longo de quase três décadas e criar condições para um novo ciclo de crescimento.
A operação (de credores investindo no negócio em recuperação) tem características semelhantes às de um financiamento DIP (Debtor-in-Possession), modalidade geralmente associada a empresas em recuperação judicial. Mas como o acordo foi estruturado extrajudicialmente, a companhia afirma que o modelo é um “financiamento apoiado pelos credores”, que reforça o compromisso dos principais credores com a continuidade das operações e a recuperação financeira do negócio.
Mesmo com dívida milionária, Chilli Beans mantém expansão internacional
Apesar da reestruturação financeira, a Chilli Beans mantém seus planos de expansão.
Atualmente, a rede conta com cerca de 900 franquias espalhadas pelo Brasil e está presente em mais de 14 países.
Somente em outubro de 2026, a companhia abriu nove novos pontos de venda no mercado brasileiro, além de quatro unidades na América do Sul.
A expansão internacional é uma das apostas da empresa para os próximos anos, enquanto a marca busca equilibrar o crescimento comercial com a reorganização de suas finanças.
Outra frente da estratégia é o lançamento de produtos e parcerias com artistas e marcas de diferentes segmentos.
Para o fim de 2026, a Chilli Beans prepara uma coleção comemorativa dos dez anos de parceria com o DJ e produtor musical Alok.
A marca ainda anunciou uma colaboração com a BAW Clothing, que reúne óculos, relógios e peças de vestuário.
As iniciativas fazem parte da estratégia de manter a relevância da Chilli Beans junto aos consumidores enquanto a empresa atravessa a reestruturação financeira.
Com a renegociação da dívida e a perspectiva de novos investimentos, o desafio agora será transformar o acordo com os credores em condições para sustentar a operação, preservar a rede de franquias e retomar o crescimento, rumo aos 30 anos da marca. Para o próximo ano, Caito tem uma expectativa mais moderada para o negócio:
"Eu sempre tenho boas expectativas para a Chilli Beans, mas ano que vem será um período de muito mais foco em qualidade e eficiência do que quantidade, especialmente em períodos de taxas de juros tão elevados", afirma o empresário.
Veja também: Justiça encerra recuperação judicial da Americanas após três anos
A loja de São Paulo que chegou no Caribe
Fundada em 1997 pelo empresário Caito Maia, a Chilli Beans nasceu de uma necessidade financeira. Antes de se tornar empreendedor, Maia sonhava em viver da música e chegou a formar uma banda. Para pagar as contas da carreira artística, começou a vender óculos, atividade que acabou se transformando em um dos negócios mais conhecidos do varejo brasileiro.
“Meu sonho era ter uma banda, estourar, fazer show, mas a necessidade fez eu trocar a paixão da música pelo empreendedorismo”, afirmou o empresário em entrevista ao podcast De Frente com CEO, da EXAME. “A música me deu identidade. E isso se traduziu na personalidade apimentada da Chilli Beans”, disse.
A companhia que chegou a ter 1.300 lojas, hoje tem 900 lojas franqueadas no Brasil que contempla a Chilli Beans tradicional (com óculos de sol), a Ótica Chilli Beans (voltada ao mercado de óculos de grau), e o projeto Eco Chilli, com contêineres sustentáveis em cidades com menos de 50 mil habitantes.
Além do Brasil, a companhia tem presença em mais de 14 países, incluindo Estados Unidos e Caribe.
