China avalia sediar a COP33 e mira liderança climática global
Pequim discute candidatura para receber a conferência climática da ONU em 2028 após saída da Índia, mas discussões ainda estão em fase inicial e dependem de aval do alto escalão do governo

País mais poluente do mundo e líder em renováveis, a China avalia lançar uma candidatura para sediar a conferência do clima da ONU em 2028 (COP33) após a saída da Índia.
Segundoinformações da Bloomberg, autoridades em Pequim discutem a possibilidade de sediar o maior evento de combate à crise climática do mundo, em um movimento que reforçaria a ambição de Xi Jinping de assumir o protagonismo das negociações globais.
As conversas envolvem o Ministério das Relações Exteriores chinês e órgãos ambientais do país, mas ainda estão em estágio preliminar, e qualquer decisão de seguir adiante dependeria do aval dos mais altos escalões do governo.
A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), órgão que organiza a COP e reúne 197 países-membros, não comentou o assunto.
Se o gigante chinês realmente decidir avançar, não há pressa regimental ou data específica para a definição. Mas a experiência recente de disputa da sede da COP31, entre Austrália e Turquia, foi um caso de impasse que só foi resolvido às pressas em Belém e acabou dividindo os papéis.
No fim, os dois países tiveram um pouco mais de um ano para organizar um evento que reúne anualmente milhares de pessoas e um lembrete de que, sem consenso rápido, mesmo processos com folga podem passar por dificuldades.
O vácuo que a Índia deixou
O interesse da China surge em meio ao vácuo político. Quem estava na fila para sediar a COP do clima após a Turquia e Etiópia era a Índia, querecuou discretamente da candidatura em abril.
A decisão nunca foi anunciada publicamente: foi apenas comunicada a outras nações do grupo Ásia-Pacífico, com uma justificativa genérica de revisão de compromissos para o ano.
A desistência foi uma surpresa amarga: a Índia é o terceiro maior emissor de gases do mundo, atrás só de China e Estados Unidos, e vinha se posicionando como voz do Sul Global nas negociações.
Para o Brasil, seria uma forma de avançar em financiamento climático e cobrar dos países mais ricos a responsabilidade histórica pela conta das emissões, além de acelerar a transição energética justa.
Nos bastidores, especialistas apontam uma combinação de fatores por trás da saída indiana: o custo bilionário de organizar o evento, pressões domésticas em meio aos desafios de energia e pobreza, e um recalibre de prioridades num cenário geopolítico mais tenso.
A Coreia do Sul chegou a ser cotada como substituta, mas o governo sul-coreano já sinalizou que não vai formalizar candidatura, alegando falta de capacidade com os preparativos para o G20 de 2028. Ou seja: o grupo Ásia-Pacífico ficou sem anfitrião definido e é aí que a China entra.
Verde no discurso, tímido na prática
Xi Jinping tem tratado a mitigação de carbono como prioridade central da sua agenda. Em discurso recente, o presidente chinês destacou que 2025 marcou os dez anos do Acordo de Paris e um momento decisivo para a apresentação de novas metas climáticas, as conhecidas NDCs.
A meta chinesa, no entanto, está longe de impressionar: reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa de toda a economia em apenas 7% a 10% até 2035, na comparação com o pico atual.
Para chegar lá, o plano é elevar o consumo de energia não fóssil para mais de 30% da matriz e multiplicar por seis a capacidade instalada de eólica e solar frente a 2020, batendo 3,6 bilhões de quilowatts.
Outra promessa chinesa é ampliar o estoque florestal do país para mais de 24 bilhões de metros cúbicos, consolidar os veículos elétricos como principal fonte de vendas e expandir o mercado de carbono para mais setores de alta emissão.
Segundo Xi Jinping, tudo isso depende tanto do esforço interno da China quanto de um ambiente internacional favorável: o país reforça o discurso de cooperação global, com apoio técnico e financeiro a nações em desenvolvimento.
O problema é que o histórico chinês nas negociações da ONU não acompanha o discurso. Pequim resiste a apoiar metas mais duras para a saída dos combustíveis fósseis e a ampliar o financiamento climático.
Os dois temas espinhosos ficaram de fora dos textos oficiais da COP30 em Belém, mas a presidência brasileira assumiu compromissos paralelos e tenta avançar rumo à próxima COP31 em Antália, na Turquia.
Por que a China quer ser anfitriã da COP
Para Yao Zhe, conselheiro de políticas globais do Greenpeace Leste Asiático, sediar a COP exige peso diplomático e disposição para usá-lo, o que tornaria a China uma candidata óbvia.
Um plano publicado no mês passado pelo Ministério da Ecologia e Meio Ambiente e pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma reforça isso: a meta é ampliar significativamente a influência e o poder de decisão do país na governança climática global até 2030.
Por outro lado, ser anfitriã da COP também colocaria a China sob os holofotes e as contradições entre discurso e prática ficariam ainda mais evidentes.
Com a COP33 ainda sem definição de sede, analistas sugerem que o futuro do evento vai envolver muita negociação diplomática dentro da ONU e pode se tornar um verdadeiro jogo de equilíbrio de poder entre China, Índia e o restante do bloco Ásia-Pacífico.
