China desafia EUA na corrida da IA, e ações de tecnologia sobem 29% em 2026
Disparada acontece em um momento de fragilidade da economia chinesa, após forte tombo do mercado imobiliário

A corrida chinesa pela inteligência artificial (IA) está levando as ações de tecnologia do país a níveis de valorização muito superiores aos de seus pares nos Estados Unidos, com o apoio de Pequim ao setor e o entusiasmo dos investidores.
O índice Star 50, que reúne as 50 maiores e mais líquidas empresas da bolsa de Xangai, acumula alta de 29% neste ano, enquanto seu múltiplo de preço sobre lucro passou de 150, mais de quatro vezes os 35 do Nasdaq 100.
A disparada também acontece em um momento de fragilidade da economia chinesa, depois do forte tombo do mercado imobiliário, que levou investidores a buscar alternativas para seus recursos, de acordo com informações divulgadas pelo Financial Times.
IA ganha força nas bolsas chinesas
O desempenho do Star 50 contrasta com o restante do mercado. O índice sobe 29% em 2026, enquanto o CSI 300 estadunidense avança apenas 0,9%. Em Hong Kong, o Hang Seng acumula queda de 1,5%.
Mesmo após uma venda recente, o Star 50 permanece próximo dos níveis de valuation mais elevados desde seu lançamento, em 2020. O entusiasmo está concentrado, principalmente, nas empresas ligadas à IA e aos semicondutores.
O gestor de portfólio de mercados emergentes da Allspring Global Investments, Gary Tan, vê que os investidores estão fazendo uma aposta no ecossistema chinês. A tese exige acreditar que a China conseguirá diminuir a distância em relação aos EUA no desenvolvimento da IA.
"Para investir nisso, basta acreditar que a China pode alcançar o mesmo nível", avaliou.
A Moonshot lançou o Kimi K3, apontado como o maior modelo de IA da China até agora e concorrente dos modelos da Anthropic, criadora do Claude. No mercado de chips, a fabricante chinesa CXMT ultrapassou a Tencent e se tornou a empresa mais valiosa do país na quinta-feira, 13.
Para o gestor de portfólio de mercados emergentes da Ninety One, Varun Laijawalla, existe um "estreitamento significativo da vantagem de liderança da China em relação ao restante do mundo no que diz respeito à IA."
Pequim aposta nos semicondutores
O governo chinês tem sido outro motor do rali. Fundos estatais conhecidos como a "equipe nacional" compraram ações depois que uma liquidação global de empresas de chips atingiu os papéis chineses neste verão.
Ao mesmo tempo, Pequim intensificou a busca por autossuficiência em semicondutores diante das restrições ocidentais às exportações de tecnologia. É nesse segmento que estão concentradas algumas das maiores valorizações da bolsa chinesa, segundo o chefe de estratégia de ações para a Ásia do Société Générale, Frank Benzimra.
Cada vez mais empresas chinesas fornecem produtos e serviços para outras companhias do próprio país, o que ajuda a impulsionar o crescimento dos lucros.As bolsas também facilitaram a chegada dessas empresas ao mercado. No último ano, as principais bolsas chinesas flexibilizaram as regras de listagem para companhias que ainda não são lucrativas, mas trabalham com tecnologias consideradas estratégicas.
Mais da metade das empresas que abriram capital na China continental neste ano pertence aos setores de tecnologia ou indústria. Em Hong Kong, a participação chegou a 77%.
O efeito sobre os valuations é expressivo. As empresas que estrearam em Xangai neste ano apresentam, em média, múltiplo de preço sobre lucro de 268 e relação entre preço e vendas de 43. Entre as companhias listadas no ano passado, os indicadores eram de 67 e 22, respectivamente.
Rali contrasta com economia fraca
Enquanto Pequim promove novos setores, o país ainda lida com os efeitos da crise imobiliária iniciada em 2022. Desde o colapso do mercado de imóveis, o governo tenta direcionar a poupança das famílias para o mercado acionário.
A fraqueza do consumo, porém, continua pesando sobre empresas mais expostas à demanda doméstica. As ações da Alibaba e da Tencent acumulam quedas de 17% e 26%, respectivamente, neste ano.
Pequim aposta que, ao longo do tempo, novas indústrias substituirão as antigas e criarão empregos de maior valor, na visão do estrategista sênior de mercados do BNP Paribas, Chi Lo.
Por que os valuations chineses estão altos?
Chefe de estratégia de ações chinesas do UBS, James Wang aponta que o mercado acionário chinês tem menos investidores de longo prazo que o americano. Grandes participantes, como fundos mútuos, têm foco mais curto, o que tende a aumentar a concentração de investidores em determinadas empresas.
Apesar das avaliações elevadas, investidores otimistas acreditam que o apoio de Pequim à tecnologia deve continuar, em uma estratégia diretamente ligada à prioridade dada pelo presidente Xi Jinping à segurança nacional.
