China exporta como nunca, mas crise imobiliária freia crescimento

A economia da China está cada vez mais dividida. Enquanto as exportações seguem em ritmo recorde, impulsionadas pela corrida global por inteligência artificial (IA), semicondutores e veículos elétricos, o mercado interno continua enfraquecido pela crise imobiliária, pelo consumo fraco e pela queda dos investimentos.
Os dados divulgados nesta quarta-feira, 15, refletem esse contraste. O Produto Interno Bruto (PIB) chinês cresceu 4,3% entre abril e junho na comparação com o mesmo período do ano passado, abaixo dos 5% registrados no primeiro trimestre e no menor ritmo desde o fim de 2022.
Apesar da desaceleração, a economia acumula expansão de 4,7% no primeiro semestre, suficiente para manter o país dentro da meta oficial de crescimento para 2026.
Exportações escondem fraquezas da economia
O principal motor da atividade continua sendo o comércio exterior. Em junho, as exportações avançaram 27% na comparação anual, impulsionadas principalmente pela demanda por chips voltados à inteligência artificial. Os embarques de semicondutores cresceram mais de 120%, enquanto baterias e veículos elétricos também registraram forte alta.
Para economistas, porém, esse desempenho mascara uma realidade mais frágil. A indústria segue aquecida graças à demanda internacional, mas a economia doméstica continua perdendo força.
"A desaceleração mostra fragilidades profundas que mantêm a demanda interna enfraquecida e deixam a China excessivamente dependente das exportações", afirmou Eswar Prasad, professor da Universidade Cornell e ex-chefe da divisão da China no FMI, ao WSJ.
Consumo e imóveis seguem pressionando o crescimento
Enquanto as fábricas ampliam a produção, as famílias chinesas continuam reduzindo os gastos. A prolongada crise do mercado imobiliário diminuiu o patrimônio de milhões de pessoas e aumentou a cautela dos consumidores.
As vendas no varejo cresceram apenas 1% em junho, após terem registrado queda em maio. Já os investimentos no setor imobiliário recuaram 18% no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2025, enquanto os investimentos em ativos fixos caíram 5,7%.
Analistas afirmam que o colapso do mercado imobiliário eliminou milhões de empregos na construção civil e enfraqueceu um dos principais motores da economia chinesa nas últimas décadas. Sem uma recuperação consistente do consumo, o país segue dependendo da força das exportações para sustentar o crescimento.
Pequim busca novo impulso para a economia
O mercado agora acompanha a reunião do Politburo, prevista para o fim de julho, em busca de sinais de novos estímulos econômicos.
A expectativa é de medidas voltadas ao consumo e ao mercado de trabalho, embora especialistas não esperem um grande pacote de incentivos.
Para analistas, o desafio do governo deixou de ser aumentar a produção industrial. A prioridade passou a ser reativar a confiança das famílias e reduzir a dependência da economia chinesa em relação às exportações, que hoje sustentam boa parte do crescimento do país.
